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Black Hammer: um ensaio sobre a vida e a morte dos super-heróis

25 / maio / 2020

*por Naotto Rocha

ATENÇÃO!
[ Este artigo contém spoilers do final de
Black Hammer: Era da destruição – Parte II ]

 

 

Desde Origens secretas, o primeiro arco de Black Hammer, Jeff Lemire deixou claro que aquela era uma homenagem a tudo o que ele mais gosta, tanto na Marvel como na DC. O mundinho que ele criou naquela fazenda é a sua versão de uma caixa de brinquedos, onde crianças criam suas aventuras mesclando personagens já existentes e histórias já contadas em algo único e, ao mesmo tempo, absolutamente comum. Porque é assim que a indústria das HQs de super-heróis se comporta: reciclando, recriando e reinterpretando ideias, conceitos e personagens, mostrando a visão de determinado autor ou artista para essa ou aquela história.

Mas, para entender melhor o final da saga dos ex-heróis de Spiral City, é preciso voltar um pouco no tempo, mais especificamente para o final da década de 1980, quando a primeira parte de O Evangelho do Coiote foi lançada nos Estados Unidos.

Se você não conhece a história, uma rápida contextualização: O Evangelho do Coiote foi o segundo arco de Grant Morrison a frente de Homem-Animal, série solo desse herói da DC Comics que foi criado em 1965 e nunca teve a mesma fama ou sucesso de seus companheiros de editora, Batman e Superman. Seu poder é reproduzir as habilidades de animais próximos, como a força proporcional de uma formiga ou a supervelocidade de um guepardo. Ao longo dos anos, o personagem foi ganhando novas características, como ser um grande ativista dos diretos dos animais, e tudo isso começou com a chegada de Morrison ao título.

Apesar de ser o personagem principal da revista, o Homem-Animal não é o foco de O Evangelho do Coiote. O papel é dado a Astuto, um coiote que se parece muito com aquele personagem dos desenhos da Looney Tunes que está sempre correndo atrás do Papa-Léguas e vive em um ciclo eterno de sofrimento, dor, morte e ressurreição. Por algum motivo misterioso, Astuto é transferido para o mundo dos super-heróis da DC e, ao encontrar o Homem-Animal, dá para ele uma carta e morre em seguida. Mas o que acontece ao redor dessa cena é ainda mais impactante que sua morte: “deus”, manchando a estrada com sangue em um pincel, se revela pela primeira vez como alguém de fora do universo ficcional. A série, sob o comando de Morrison, cresceria ainda mais em poder metalinguístico ao culminar no herói conhecendo seu criador, o próprio autor daquela história, pessoalmente.

Black Hammer sempre foi repleto de referências veladas, mas na primeira parte de Era da destruição, Jeff Lemire inicia uma pequena saga de homenagens e autorreferências explícitas, como a aparição do Hellboy na Antessala e a breve visão de Gus, de Sweet Tooth: Depois do apocalipse, em seu universo. O autor também firma o conceito do multiverso de histórias com a apresentação de Storyland, o nexo de todas as narrativas em quadrinhos. Mas é quando a Black Hammer encontra os Perpétuos, criados por Neil Gaiman em Sandman, que o autor canadense começa a dialogar diretamente com a metalinguística que Morrison criou décadas atrás. E é somente na segunda parte de Era da destruição que isso fica mais claro.

Depois de adentrar abruptamente a Parazona, o Coronel Weird se vê preso em uma releitura criativa do mundo das ideias de Platão, enquanto o restante do grupo leva vidas comuns e monótonas em um universo reinicializado. Weird descobre que o local onde está é habitado por personagens que não vingaram, de histórias incompletas ou nunca publicadas, em universos igualmente fadados ao esquecimento.

Sua maior surpresa vem quando, ao encontrar a saída, ele descobre que há um panteão dos criadores de super-heróis, composto por todos os roteiristas e ilustradores que neles trabalharam. Com isso, Lemire ressalta o papel divino das mentes criativas e reafirma a responsabilidade — e, ao mesmo tempo, a crueldade — de decidir os rumos de um personagem ficcional, interferindo assim na vida e morte de todos os super-heróis.

O próprio universo reinicializado onde os outros personagens estão também parece ser uma crítica de Lemire à indústria, mas que ele não aprofunda. Os constantes reboots e retcons são algumas das provas de que a forma de contar histórias dessa mídia deve evoluir e sair de um eterno looping narrativo, repleto de recomeços e sem nenhum fim, desgastando os personagens que ali habitam, assim como aconteceu com o Astuto de Homem-Animal.

Existe ainda um paralelo interessante entre as amarras criativas da indústria e a vida da Menina de Ouro, que nunca pôde crescer ou seguir seu curso natural de amadurecimento. Grandes personagens como o Homem-Aranha se veem presos a um status quo onde qualquer crescimento é proibido ou temporário e, mesmo cinquenta anos após sua criação, Peter Parker ainda tem que ser o jovem adulto pobre, sem esposa e em busca de dinheiro para pagar suas contas. Eis então a solução de Lemire: o legado e a confiança na nova geração. Se Lucy Weber ostentou com honra o manto de seu pai, Miles Morales também pode honrar o codinome de seu mentor. Falo um pouco dessa relação entre manto e identidade secreta em um texto de 2016, que está no meu blog pessoal.

Ao final do último volume de Black Hammer, Jeff Lemire dá o merecido descanso aos ex-heróis de Spiral City enquanto assume a posição de um dos roteiristas mais competentes e autocríticos da indústria de super-heróis. O universo criado por ele continua se expandindo e, em breve, invadirá outras mídias com um filme e uma série baseados no quadrinho, em um momento decisivo para o gênero nos cinemas.

O que podemos esperar dessa nova fase? Para mim, é bem simples:

Black Hammer está morto. Vida longa à nova Black Hammer!

 

 

*Naotto Rocha gosta tanto de quadrinhos que poderia passar uma tarde inteira falando sobre o assunto e te convencer que, ao mesmo tempo que todas as histórias já foram contadas, ainda há muito a se explorar sem parecer repetitivo.

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Comentários

3 Respostas para “Black Hammer: um ensaio sobre a vida e a morte dos super-heróis

  1. Ótimo texto com comparações e referências pertinentes ao trabalho do Grant Morrison no Homem Animal! Ansioso para comprar o quarto volume.

  2. Intrínseca… qual a chance de vcs trazerem LOW da Image Comics??? Abração

  3. Oi, Tiago! Não temos nenhuma informação sobre esse título. Se tivermos novidades, avisaremos em nossas redes 😉

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