Bastidores

Uma visita ao anexo secreto de Anne Frank

30 / abril / 2020

* Por Letícia V.

 

Há 60 anos, em 3 de maio de 1960, a Casa de Anne Frank era aberta ao público pela primeira vez. A ideia de transformar o local em museu partiu de Otto Frank, pai da menina, como uma forma de evitar que o prédio fosse demolido. Após três anos de trabalho da Fundação Anne Frank, essa cruel parte da história, retratada em O diário de Anne Frank, ganhava mais um importante capítulo: a memória da família seria preservada ao mostrarem para o mundo o lugar onde tudo aconteceu.

Quem já leu ou assistiu A culpa é das estrelas certamente se lembra da visita que Hazel e Augustus fazem à Casa de Anne Frank, e eu, como boa fã de livros e de história, quando incluí Amsterdã no meu roteiro de viagem, coloquei uma visita ao museu no topo da minha lista de prioridades. Sabendo que os ingressos estavam entre os mais concorridos do mundo, salvei na agenda a data exata do início das vendas. Dois meses depois, estava de pé na Westermarkt 20, pronta para o que seria uma das experiências mais intensas da minha vida.

O prédio tinha sido modernizado para receber os visitantes, com guarda-volumes, guias virtuais em diversos idiomas e apresentações em vídeo. Contudo, passar pela estante que esconde a entrada do anexo secreto é como voltar no tempo. De repente, você está na década de 1940, naquele espaço pequeno, com muitas escadas e decoração antiga. Tudo lá dentro é precioso. Os guias de áudio contextualizam cada cômodo, usando trechos do próprio diário para apresentar os espaços através dos olhos de Anne.

No anexo, já com poucos móveis, são as paredes que contam as partes mais importantes e tocantes da história. Um mapa ajudava o grupo a acompanhar os avanços das tropas aliadas na esperança de que a guerra chegasse logo ao fim, recortes de revistas decoravam o quarto de Anne e, por último, o detalhe que me tocou mais profundamente: marcações, feitas a lápis, acompanhavam o crescimento das irmãs Frank no período dentro do anexo. Não consigo imaginar uma forma mais óbvia de deixar claro que existia vida ali dentro.

(Foto: Site oficial)

Além disso, há fotos, vídeos, depoimentos e objetos (originais ou réplicas) por todo o museu. Cada cômodo guarda uma memória própria e, no decorrer da visita, é impossível não se perguntar como seria passar dois anos ali. O medo constante de serem descobertos, os dias inteiros evitando fazer qualquer som, a saudade de um mundo que foi roubado deles. É triste duro pensar que a trajetória da família e dos outros quatro moradores do anexo secreto não teve um final feliz. Que belo seria se tivesse… Mas, no fim das contas, podemos tirar muita inspiração das palavras de Anne, que manteve a esperança viva até o último momento e que, através do diário, nos deixou lições extremamente valiosas e atemporais. Falando em diário, a sala onde estão expostas as páginas e os cadernos originais encerra a visita e cumpre muito bem a função de embargar gargantas e arrancar lágrimas.

A pessoa que entra na Casa de Anne Frank não é a mesma que sai. E a maior das reflexões começa quando você se pergunta o porquê de aquelas pessoas estarem escondidas ali. O que teria acontecido se alguém como Hitler nunca tivesse chegado ao poder? Quantos destinos seriam diferentes se essa parte da história não fosse real? Para os alemães que elegeram democraticamente seu líder em 1933, não era possível prever o futuro, mas nós das gerações posteriores podemos contar com essa grande lição da história. É nossa responsabilidade impedir que horrores como o holocausto voltem a acontecer, e não podemos esquecer nem por um momento a importância dessa missão. Nosso dever é buscar rumos melhores para o mundo, por Anne e por todos os outros.

Como visitar?

O preço da entrada para adultos é de €10,50, e existem preços especiais para jovens até 17 anos.

As vendas são abertas com dois meses de antecedência e os ingressos se esgotam em poucos dias.

O museu encontra-se fechado temporariamente por conta da quarentena.

Também é possível visitar a Casa de Anne Frank em um tour virtual disponível em inglês, espanhol, holandês e alemão no próprio site do museu. Acesse aqui.

 

Letícia trabalha no marketing da Intrínseca, ama livros históricos e sonha em viajar pelo mundo conhecendo os cenários das histórias que lê.


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