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Uma amputação, um paciente e três mortos: conheça a sanguinolenta medicina do século XIX

1 / abril / 2020

Por Pedro Staite*

A sensação de ver o tempo passar devia ser muito mais aflitiva no século XIX. Afinal, o espaço que compreendia o proverbial “toda a vida pela frente” era resolvido em questão de quatro ou cinco décadas. É fácil morrer hoje em dia, só que antigamente era bem mais, porque até o hospital era um lugar muito mais arriscado. Em 1869, por exemplo, o cirurgião James Y. Simpson observou que “um soldado lutando na Batalha de Waterloo tem mais probabilidade de sobreviver do que um homem indo ao hospital”.

Para se ter uma ideia, a elite intelectual da medicina da época acreditava que o pus era um elemento vital no processo de cura. Sim, o pus, que é basicamente um letreiro de neon com os dizeres “temos um probleminha aqui, pessoal”, era um componente “esperado” nas mais variáveis perebas que os acidentes e as doenças proporcionavam.

Naquela época, os médicos e cientistas em geral não faziam ideia do que provocava a sépsis, que é, grosso modo, quando uma legião de micróbios chega à corrente sanguínea e desencadeia um banzé no oeste, podendo levar à morte. Até porque ninguém sabia direito o que era micróbio. No século XIX, quem se debruçava sobre os mistérios da vida invisível era tratado com desdém. “Ah, tenho um primo que mexe com negócio de microscópio”, por assim dizer.

Outro fator que nos deixaria mortificados era a total e irrestrita ausência de anestesia. O infeliz paciente com a mais inofensiva das cáries já sofria a dor de dez Jós na mesa do dentista.

Por conta disso ― tudo infecciona e tudo dói ―, a cirurgia era uma prática altamente contraindicada, e apenas em última instância o cirurgião dava o ar da graça. Era uma questão de trocar o “vai morrer com certeza” pelo “talvez morra, vamos ver”.

Então o que fazer para aliviar o sofrimento de quem precisava passar por, digamos, uma amputação?

Dar conta do trabalho o mais rápido possível (e começar a rezar).

Foi um panorama como esse que deu à luz Robert Liston, a faca mais rápida do West End, em Londres. O sujeito existiu mesmo, pode procurar em Medicina dos Horrores, de Lindsey Fitzharris, um livro maravilhoso publicado pela Intrínseca.

Robert Liston, conhecido nas rodas boêmias como Betão do Bisturi (essa não adianta procurar, minhas fontes são muito exclusivas), era um homem alto e forte que tinha uma irremediável pinta de macho alfa. Seu modus operandi era tão veloz que ele amputava uma perna em trinta segundos. Ou seja, estou há três minutos neste parágrafo, o equivalente a seis pernas pela cotação de Robert. Como naquela época a assepsia era uma fantasia, um devaneio, um sonho de uma noite de verão, Liston trabalhava sem luvas e chegava ao cúmulo de prender o bisturi ensanguentado nos dentes enquanto suturava o paciente com as duas mãos. Repito: sem luvas. Repito: bisturi ensanguentado nos dentes. Para um mundo como o nosso, em que é inconcebível não ter um álcool gel a tiracolo, esse homem era um pesadelo.

No entanto, nem sempre sua rapidez era sinônimo de sucesso. Reza a lenda que ele foi protagonista de uma das amputações mais malsucedidas da história.

O processo era simples: uma amputação de perna. Em sua já conhecida velocidade máxima, Liston finalizou o trabalho em questão de segundos. Só que o homem era tão, mas tão veloz que durante o processo decepou, sem querer, os dedos do pobre assistente e ainda rasgou a casaca de um espectador.

(Naqueles tempos em preto e branco, as cirurgias eram feitas em anfiteatros lotados de estudantes e convidados, provavelmente em busca de entretenimento. Se você hoje se culpa por ver muito Netflix, pense nos espectadores de Liston, continue sua maratona e fique em paz no seu sofá vendo a Lara Jean e o Peter Kavinsky.)

Acontece que: o paciente acabou morrendo em decorrência de uma gangrena na perna. O assistente também faleceu por conta de uma gangrena, só que na mão. E, o mais absurdo, o espectador, assoberbado pelo susto de tomar a bisturizada violenta, morreu do coração ali mesmo, no anfiteatro.

Uma amputação, um paciente e três mortos. Foi a primeira ― e provavelmente única ― operação com taxa de 300% de mortalidade.

Se a gente levar em conta que esse não foi o único deslize de Betão do Bisturi (certa vez, ele decepou, inadvertidamente, o saco escrotal de um paciente; seu alvo era a coxa), vemos como a vida melhorou de cento e cinquenta anos para cá. É uma pena que precisemos de tamanhos horrores para chegar a essa conclusão, mas nunca se sabe quando uma palavra de consolo, frente aos horrores da atualidade, se faz necessária.

Naquela época, Betão não acreditava em micróbio e não lavava as mãos nem para fazer uma cirurgia. Hoje é um procedimento básico, mais essencial do que nunca. Acontece que Betão vivia de acordo com as regras sanitárias da época, que eram precárias. Entretanto, temos a sorte de viver num momento em que a ciência acumulou décadas e mais décadas de conhecimento, por mais que ela venha sendo mais desmerecida do que nunca. Mas só aqui entre nós: agora a gente sabe das coisas, não precisamos seguir esse exemplo arcaico, né? Então, por favor: nesse momento tão delicado, agradeçamos à ciência e respeitemos o que ela preconiza. Lave as mãos, fique em casa se puder e não me invente de colocar um bisturi ensanguentado na boca, tudo bem?

 

*Pedro Staite é editor assistente da Intrínseca e demorou umas dez pernas na cotação de Robert só para escrever esta bio. Teve a sorte de produzir o maravilhoso Medicina dos horrores, que serviu de inspiração para o texto que você acabou de ler.

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Comentários

Uma resposta para “Uma amputação, um paciente e três mortos: conheça a sanguinolenta medicina do século XIX

  1. Muito divertido seu comentário sobre um assunto tão cruel. Quando ouço o naquele tempo… me dá até um estremecimento.

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