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Por que a ficção especulativa é tão importante para o povo negro?

9 / abril / 2020

Por Fábio Kabral*

Ilustração de Max Löffler

O ser humano precisa da ficção tanto quanto precisa de ar e comida. O povo negro precisa mais ainda.

Seja em qualquer época ou era da humanidade, a ficção sempre foi importante. Podemos argumentar que a ficção se torna mais relevante ainda em tempos de incerteza e isolamento, mas acredito que seja assim também nos momentos de alegria e tranquilidade. Estamos consumindo e produzindo ficção sempre, mesmo quando achamos que só vivemos com os “pés no chão”.

Desde os tempos antigos, nós contamos histórias. Contamos histórias de poder para empoderar a nós mesmos. Contamos histórias sobre deuses e monstros para ensinar a nós mesmos o que é certo e o que é errado. Contamos histórias para entendermos o mundo ao nosso redor, para nos conectarmos com as pessoas, para nos conectarmos com os deuses e monstros que vivem dentro de nós. Tudo isso porque histórias são o alimento da mente e da alma.

Ilustração de Kaylan Michel

Note que, quando falo “tempos antigos”, estou me referindo às primeiras civilizações da humanidade, anteriores a Grécia e Roma, e que se originaram na África: Ilê-Ifé (iorubá), Kemet (Egito Antigo), Núbia e outras. Afinal, “tudo o que conhecemos hoje por ciência, tecnologia, filosofia, literatura e arte surgiu primeiro no Vale do Nilo, criado por negros africanos”, diz o mestre Cheikh Anta Diop.

Mas, se somos todos seres humanos, por que alguns de nós, no caso, o povo negro, no qual me incluo, precisamos da ficção mais ainda?

Resposta: porque nem todos os seres humanos são tratados da mesma forma. Porque há uma estrutura mundial, que impacta milhões de pessoas no mundo, chamada racismo.

Para começar, tive de me dar o trabalho de lembrar que as primeiras civilizações são africanas, não europeias, como se propaga no senso comum. África é realmente o berço da humanidade e das civilizações.

Os muitos séculos de massacres e mortes por conta do racismo ocasionaram um mundo antinegritude, que segue causando muitos danos aos africanos e seus descendentes. Os mais diversos movimentos negros seguem trabalhando com o objetivo de humanizar esses que são diariamente desumanizados. O apagamento e a negação das contribuições africanas e negras para o mundo são alguns desses danos. A negação e ausência de histórias que contem sobre a experiência negra no universo é o aspecto que particularmente me interessa.

Movimentos como o afrofuturismo, sobre o qual escrevo e pesquiso, surgiram justamente para suprir essa ausência moderna de histórias, seja em livros, filmes ou jogos, que versam sobre a experiência de pessoas negras no mundo, ou mesmo sobre pessoas negras em qualquer mundo. O afrofuturismo e suas vertentes surgem para nos alimentar com histórias de ficção que tenham como centro a experiência e a perspectiva de personagens e autores negros.

Ilustração de Kaylan Michel

Como sabemos, a ficção especulativa é composta por narrativas que pretendem especular sobre um passado, presente ou futuro, neste ou em outros mundos, por meio de narrativas fantásticas, de ficção científica ou horror sobrenatural, mas não apenas limitados a esses. É um gênero que se propõe a experimentar e imaginar novos horizontes e caminhos…

Mas então, por que a ficção especulativa mainstream acaba sempre contando as mesmas histórias, protagonizadas pelos mesmos personagens da mesma cor, gênero e orientação sexual, com base nos mesmos imaginários, mitologias e cosmovisões?

A ficção especulativa, principalmente a que é criada por autores negros, é importantíssima para alimentar a mente e a alma destes que experimentam as violências e brutalidades do racismo cotidiano. E estou dizendo para além de soluções rasas como “representatividade” e “diversidade”; sim, ambas são importantes, porém insuficientes.

O que precisamos é de mais e mais obras de ficção que tenham como centro as experiências e perspectivas de personagens e autores negros.

Isso dito, é também importante que pessoas que não sejam negras escrevam personagens negros. O que nos traz ao livro Território Lovecraft.

Apesar do nome, o livro não é de autoria de H. P. Lovecraft, nem fala diretamente sobre ele. Lovecraft é um homem cuja obra eu absolutamente desprezo por suas passagens racistas; vejam, por exemplo, um trecho do conto Herbert West: Reanimator:

“O negro foi nocauteado e um breve exame nos revelou que ele assim ficaria. Ele era uma coisa grotesca, parecida com um gorila, com braços anormalmente longos que eu não poderia evitar de chamar de patas dianteiras. (…) O corpo deve ter parecido ainda pior em vida – mas o mundo contém muitas coisas feias.”

O autor de Território Lovecraft se chama Matt Ruff e é um homem branco. O protagonista do livro, Atticus, é um jovem negro. A história, narrada em uma mistura de contos e romance, acompanha a jornada do protagonista, veterano da Guerra da Coreia e fã de livros pulp. O protagonista e os demais personagens do livro vivem nos EUA dos anos 1950; ou seja, além dos terrores de fantasmas e monstros, terão de lidar com o horror da violência supremacista branca.

Ou seja, o território a que o livro se refere no título é um reflexo do que foi o homem chamado Howard Phillips Lovecraft.

O que me chama realmente a atenção é que o livro vai virar uma série da HBO produzida por Jordan Peele, o gênio responsável pelos incríveis filmes Corra! e Nós. Será que estamos prestes a presenciar um novo sucesso desse grande diretor? Acredito firmemente que sim. Peele tem crescido bastante no cenário de filmes de terror e angariado cada vez mais notoriedade em Hollywood. Sua estreia com Corra! foi bastante impactante, mas Nós, em especial, me contempla imensamente; o filme fala de “questões raciais” ou é simplesmente um filme com uma família “normal” como protagonista? Ora, não somos pessoas? Ou não passamos de meros rótulos? Está tudo lá. Nós é o melhor filme de terror dos últimos tempos para mim, da mesma forma que Pantera Negra, de Ryan Coogler, para mim é o melhor filme de super-herói de todos os tempos. São só filmes de pessoas, certo?

Primeira imagem divulgada da adaptação de Território Lovecraft

Então… imaginem a adaptação de Território Lovecraft na visão de Jordan Peele. Imaginem o livro de protagonismo negro, porém de autoria branca, todo ressignificado na visão do diretor? O que podemos esperar? Resposta óbvia: uma superprodução, que será memorável, com o olhar e a voz de quem realmente entende. Se é que vocês me entendem.

Todos os seres humanos precisam da ficção tanto quanto precisam de ar e comida. O  povo negro, que experimenta violências cotidianas de toda espécie por vivermos em um mundo antinegritude, precisa mais ainda.

 

*Fábio Kabral é autor de Ritos de passagem, O caçador cibernético da Rua 13 e A cientista guerreira do facão furioso. Também escreve artigos e ensaios sobre afrofuturismo e afrocentricidade e mantém a página Rede Afrofuturismo.


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