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Mulheres que inspiram

6 / março / 2020

*Maria Carmelita Dias

Engraçado. Parece que as mulheres andam me perseguindo ultimamente. Mulheres fortes, fracas, jovens, idosas, tímidas, extrovertidas; mas, sobretudo, mulheres corajosas, transgressoras e empreendedoras.

Deixem-me esclarecer: as mulheres a que me refiro são personagens de livros que traduzi nos últimos anos. É evidente que os homens também tiveram seu espaço e protagonismo em minhas traduções, como em O Regresso, de Michael Penke, ou em Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs, de B. Schlender e R. Tetzeli. Entretanto, todos os últimos livros que traduzi tiveram protagonistas femininas: mulheres que inspiram, que cativam, que fazem rir e chorar, que ensinam e fazem pensar. Já comentei em outro texto que, enquanto o leitor se transporta para dentro do universo do livro, o tradutor atravessa esse universo e se coloca do outro lado, participando quase ativamente da trama, avaliando ações e situações que muitas vezes estão apenas implícitas e levando em conta todos os detalhes do original, mesmo que nem sempre se mostrem em meio físico. Daí a maneira como cada protagonista acaba se tornando parte de mim mesma, ao traduzir suas vidas e seus pensamentos.

Mulheres que inspiram. Pensei nas transgressoras e empreendedoras ao cotraduzir o último romance de Jojo Moyes, Um caminho para a liberdade. Apesar de se tratar de ficção, a trama se baseia em uma situação real, que poucas pessoas conhecem. O livro se passa na década de 1930, logo após a Grande Depressão, uma crise socioeconômica sem precedentes na história dos Estados Unidos. A primeira-dama americana, Eleanor Roosevelt, idealizou um projeto de levar livros para as populações do interior do país. Como os homens estavam muito ocupados tentando ganhar a vida naqueles tempos difíceis, a tarefa foi conduzida por mulheres. E como as regiões eram inóspitas, montanhosas e de difícil acesso, o transporte dos livros foi feito no lombo de cavalos e burros. Assim surgiu a Biblioteca a Cavalo. A história real é fascinante, assim como aquelas das personagens criadas por Moyes. São cinco mulheres, com origens, motivações e circunstâncias diferentes, que se unem para montar a biblioteca e transportar a leitura até os habitantes do interior do Kentucky. A sociedade retratada é bastante conservadora, machista e tradicionalista, o que torna essas cinco mulheres, em maior ou menor grau, às vezes transgressoras, como Margery, quase sempre empreendedoras, como Alice, e sempre inspiradoras. Um caminho para a liberdade é o tipo de livro que se lê de um só fôlego, de tão cativante e bem-arquitetado.

Mulheres que fazem rir e sorrir. Jojo Moyes, aliás, é uma mestra em criar personagens femininas marcantes. Muitos leitores conhecem a irreverência da Lou Clark, de Como eu era antes de você. Contudo, eu me apaixonei de verdade pela  personagem ao cotraduzir Ainda sou eu, a continuação de Como eu era antes de você e Depois de você. A irreverência, a leveza e — novamente — o caráter empreendedor de Lou no terceiro volume são contagiantes.

Mulheres que ensinam que a vida é uma só. A leveza de Lou contrasta com outra personagem notável de Moyes: Lottie, de A Casa das Marés. Lottie foi engolida pela sociedade conservadora de sua juventude e alimentou uma amargura que mostra que as ações de nossa vida sempre trazem consequências, para o bem ou para o mal. Essa lição aparentemente foi captada pelas outras personagens femininas da história, que também ousam transgredir ou subverter o comportamento que se espera delas.

Mulheres que fazem sofrer e chorar. No ano em que se comemoram os 75 anos do final da Segunda Guerra Mundial, a mídia tem mencionado a libertação de Auschwitz, mas o campo de concentração que sempre me vem à mente quando leio sobre o assunto é Ravensbruck, situado na Alemanha e projetado para receber apenas… mulheres. Único campo de concentração exclusivamente feminino da Alemanha Nazista, Ravensbruck recebeu não apenas judias, mas todas as mulheres consideradas inúteis ou indignas pelo governo, como ciganas, prostitutas, doentes mentais e prisioneiras políticas. É nesse campo que se passa a maior parte da trama de Mulheres sem nome, de Martha Hall Kelly. A ação é centrada em três personagens femininas. A primeira, Caroline, de fato existiu. Uma americana que trabalha como voluntária no Consulado da França, Caroline muito faz para salvar e resgatar crianças órfãs de guerra, principalmente francesas, e, depois da guerra, as polonesas que estiveram em Ravensbruck. A segunda personagem, também real, é uma médica alemã, Herta, que viu no campo uma oportunidade (macabra) de pôr em prática suas habilidades de cirurgiã, em uma Alemanha que também discriminava as mulheres, mesmo as adeptas do regime. No entanto, é a terceira personagem que me faz sofrer e chorar, que me comove. Trata-se de Kasia, personagem fictícia que engloba e simboliza as mulheres polonesas que foram enviadas para aquele campo de concentração e passaram por experiências cruéis que as deixavam aleijadas, quando não as matavam. O grupo se tornou conhecido após a guerra como “as coelhas”, por causa de seu modo de andar saltitante. Ao mesmo tempo em que Kasia e suas companheiras nos emocionam tanto, também nos inspiram por sua resiliência, sua força, e sua inteligência e perspicácia para conseguir a libertação e poder contar ao mundo o que se passou naquele inferno em terra.

Mulheres que fazem pensar. As personagens femininas de Mister, de E L James, e Terra americana, de Jeanine Cummins, representam o mundo atual, em que milhares de pessoas são obrigadas a deixar seus lares, suas famílias e seus países, por causa de divergências políticas, perseguições, preconceito e violência. A tragédia dos refugiados repercute nesses dois livros, mostrando como as  mulheres acabam sendo as mais prejudicadas e sujeitas a violências físicas e sexuais quando não têm outra escolha senão encarar a vida longe de sua terra natal. Por outro lado, a albanesa Alessia, de Mister, a mexicana Lydia e as hondurenhas Rebeca e Soledad, de Terra Americana, também representam a coragem das mulheres, que desafiam tradições medievais, cartéis sanguinários, aproveitadores de diversos tipos e instituições insensíveis para defenderem a si mesmas e a seus entes queridos, buscando segurança em outros países.

Lydia, a protagonista de Terra americana, sintetiza todas as mulheres que me perseguem. Lydia me faz sorrir, quando fala de seus livros e de sua livraria, me faz chorar, quando pranteia seus mortos, e me inspira, quando assume um  comportamento transgressor para defender o filho a qualquer custo, munida apenas de sua coragem e de seu senso de oportunidade para seguir adiante, apesar de tudo.

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, essas mulheres me fazem pensar: em que mundo estamos vivendo e o que podemos fazer para melhorar a situação de todos e todas? De minha parte, acho que posso contribuir traduzindo suas histórias para que mais pessoas reflitam, aprendam, compreendam e se sintam motivadas e inspiradas.

 

*Maria Carmelita Dias decidiu ser tradutora na adolescência porque queria muito entender as letras dos Beatles. Formou-se em Tradução e Interpretação na PUC-Rio, onde lecionou e atuou como pesquisadora. Atualmente se dedica exclusivamente à tradução e se orgulha de ter trazido ao mundo duas mulheres fantásticas.

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Comentários

5 Respostas para “Mulheres que inspiram

  1. Que lindo texto, Carmelita! Traz ainda mais orgulho de ser mulher! Obrigada!

  2. Um texto delicioso que traz vontade de ler cada um dos livros citados!

  3. Que texto sensível, Carmelita Dias, que fala sobre mulheres ficcionais que são absolutamente reais e, de quebra, sobre a arte e o prazer da tradução.

  4. Carmê, nenhuma surpresa pelo seu talento. Sou fã. Agora tenho vontade de ler ao menos 3, começando pelo campo de concentração feminino, não sabia da existência. Orgulho da amiga.

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