testePátria: livro versus série

Por Elisa Menezes*

Assim como o livro que lhe deu origem, a série Pátria percorre um período de 30 anos, mostrando as consequências das ações do grupo separatista ETA no dia a dia de pessoas comuns em um vilarejo do País Basco. As diversas faces desse conflito foram transpostas para a tela através de artifícios próprios da linguagem televisiva, mas com grande fidelidade à história original de Fernando Aramburu. Confira algumas semelhanças e diferenças entre as duas obras:

 

1. O roteirista e criador da série, Aitor Gabilondo, manteve a estrutura narrativa não linear do livro, com idas e vindas no tempo. Cada episódio é composto por cenas em épocas distintas (dos anos 1980 até 2011), mostrando a amizade e o rompimento dos nove personagens das duas famílias protagonistas.

 

2. Assim como no livro, os personagens da série se comunicam em castelhano, utilizando algumas expressões e palavras em euskera — como aita (pai) e agur (adeus). A edição brasileira, publicada pela Intrínseca, conta com um glossário com mais de 70 verbetes no idioma basco. “Por razões comerciais, não foi possível fazer todas as cenas em basco. Além disso, o livro foi escrito em espanhol. Em nenhum momento quis que alguns personagens falassem em basco e outros não. Não queria associar uma língua tão maravilhosa, bonita e de enorme valor cultural a determinado grupo e não a outro. Essa dinâmica é falsa e equivocada e eu nunca faria nada para estigmatizar o euskera”, afirma Gabilondo.

 

3. Além da não linearidade, outra característica marcante da obra de Aramburu é a narração polifônica: cada capítulo é contado sob o ponto de vista de um personagem, que, de maneira imprevisível, toma a voz do narrador e relata ele próprio sua história — às vezes uma interjeição, um breve comentário ou mesmo um parágrafo inteiro. É difícil imaginar a transposição desse sofisticado recurso literário para a linguagem televisiva. Contudo, Gabilondo procurou manter os diferentes pontos de vista na série. Cada episódio apresenta, majoritariamente, a perspectiva de um personagem. “Era importante que cada episódio tivesse uma ‘recompensa’, no sentido de começar e terminar de contar uma história”, explica o roteirista. O terceiro, por exemplo, é dedicado a Miren. Vemos como a raiva começa a nascer dentro dela e como a personagem se une à causa do filho de forma incondicional.

 

4. Os leitores de Pátria sabem: um dos grandes méritos de Fernando Aramburu é a capacidade de manter a tensão ao longo das mais de 500 páginas. À medida que avançamos, somos apresentados a novas peças nesse grande quebra-cabeças e compreendemos outras camadas da história e da psicologia de seus personagens. Pois essa mesma tensão também está à espera dos espectadores da série. Mesmo com alguns respiros — flashbacks de dias felizes, antes do rompimento das famílias, antes de Txato ser sentenciado como traidor pelo ETA —, as cenas nos fazem prender a respiração. Mérito das atuações, da direção de Félix Viscarret e Óscar Pedraza, do ritmo, da fotografia de Álvaro Gutiérrez e também da austera trilha sonora da série, a cargo de Fernando Velásquez.

 

5. Os silêncios também são centrais na história. Se no livro é possível entrar nos pensamentos dos personagens e descobrir os sentimentos e ideias que eles não ousam revelar, na série os olhares dizem muito sobre o que pensam e sentem. “Há muitas coisas que não são ditas e vão se acumulado. Muitos rancores soterrados, muito medo, muita dor, e acredito que isso vai calando muito nos personagens”, afirma Gabilondo. Como alguém que viveu o conflito basco, ele conhece bem essas pequenas histórias ocultadas ou apenas insinuadas no dia a dia. “Meu grande interesse era mostrar como duas famílias podem viver uma mesma situação tão de perto e de costas uma para a outra. Como elas vãos se separando aos poucos, agarradas às suas dores.”

 

6. Gabilondo optou por usar os mesmos atores nas diferentes fases, rejuvenescendo-os e envelhecendo-os de acordo com a época. “Com tantos saltos temporais, se ainda tivéssemos atores diferentes o público precisaria de GPS para ver a série”, afirmou, bem-humorado, durante um episódio do Podcast Pátria, criado pela HBO para expandir o universo da série. O roteirista disse ainda que “o que nos distingue é o olhar” e que também por isso quis manter os atores.

 

7. Coube à direção de arte e às equipes de caracterização e figurino retratar de forma convincente e autêntica a passagem do tempo nas locações e nos atores. Karmele Soler e Sergio Pèrez Berbel, responsáveis, respectivamente, pela maquiagem e pelo cabelo dos atores, trabalharam em dupla e fizeram inúmeros testes para chegar ao visual jovem e maduro de cada um dos nove personagens. Primeiro eles definiram o visual jovem e a partir dele estabeleceram as mudanças, levando em consideração também o temperamento de cada personagem. “Há muito de psicologia nesse trabalho”, afirma Karmele.

 

8. Envelhecer e rejuvenescer os atores não foi o único desafio: eles também precisaram criar transformações mais específicas. Para a filha de Miren, Arantxa, que sofre um AVC, fica com metade do rosto paralisado e passa a usar uma cadeira de rodas, eles fizeram uma prótese facial. Arantxa, aliás, é a personagem que mais usa perucas na série. Os longos cabelos da atriz Loreto Mauleón foram cortados bem curtos para o visual final e ela teve de usar perucas para as outras fases (longa e avermelhada, meio punk, para os anos 1980; o mesmo penteado, porém sem o vermelho, para o visual de mulher casada). No caso do jovem militante do ETA Joxe Mari, a dupla precisou levar em conta o tipo de degradação corporal que sofrem as pessoas que envelhecem em uma prisão. Assim, eles criaram um visual envelhecido, que traduz ainda as marcas das violências sofridas por ele.

 

9. Karmele e Sergio precisavam garantir ainda que todos os figurantes tivessem um aspecto legítimo da época retratada e estivessem adequados às cenas. “A figuração era muito importante. Nas manifestações, no enterro, essa gente tinha que ser de verdade e eu conheço essa gente. Na cena da manifestação, nós checamos fileira por fileira, um por um, para que parecesse verossímil. Isso dá muita credibilidade à série”, afirma a maquiadora, que é basca. Para Sergio, que não é do País Basco, a experiência de rodar as cenas ali foi muito enriquecedora. “Karmele me dizia: ‘As senhoras daqui não usam cabelo longo.’ E de repente eu estava lá, vivendo por cinco meses, e via que era verdade, que as mulheres mais velhas usam cabelo curto.” Em pouco tempo, o próprio Sergio já sabia reconhecer quem parecia ser local e quem aparentava ser de fora.

 

10. Assim como no livro, o vilarejo da série não é nomeado. Gabilondo queria que ele parecesse uma localidade basca comum, universal, com a qual todos pudessem se identificar, mas que não fosse facilmente identificável. Esse conceito norteou a escolha das diferentes locações que compuseram o vilarejo fictício. “Não há arquiteturas icônicas, não há uma percepção muito clara da paisagem. Buscamos o perfil urbano geral dos povoados do País Basco”, afirma o diretor de arte da série, Juan Pedro de Gaspar.

 

11. Se a equipe de caracterização precisou envelhecer e rejuvenescer os atores constantemente, a direção de arte enfrentou desafios semelhantes nas locações. A ponte onde Txato é assassinado sofreu intervenções e recebeu pilastras cenográficas; cabos de fibra ótica (que não existiam nos anos 1980) foram escondidos e uma antiga cabine telefônica — que tem papel significativo na trama — precisou ser garimpada e fixada na ponte. Essa mesma cabine foi reaproveitada em outra cena, que supostamente transcorre em local diferente. Para atender às demandas do enredo, a garagem de Txato precisava estar do outro lado da ponte, onde, na realidade, está o edifício da prefeitura, que permitiu que a equipe construísse uma garagem cenográfica na entrada do prédio.

 

12. As casas, assim como a cidade, dizem muito sobre os personagens. Graças ao trabalho da direção de arte, objetos e arquitetura mostram de forma sutil a diferença social entre as duas ex-amigas, Bittori e Miren. A primeira, casada com um empresário, tem uma vida mais confortável, sua casa tem vista para uma ponte (“A” ponte!) e está localizada em uma parte central e mais nobre do povoado. A segunda, mais humilde, casada com um operário, vive em uma área mais afastada e de sua janela enxerga uma fábrica. A casa de Miren foi totalmente construída em estúdio, em Madri, utilizando-se imagens de fundo rodadas no País Basco. Já a de Bittori foi em parte filmada em um apartamento no País Basco — que, apesar da localização ideal, era pequeno e só contemplou as cenas da sala —, que foi replicado em Madri, onde o demais cômodos foram construídos. “Era como uma máquina do tempo. Entrávamos lá e estávamos de volta ao País Basco. Foi um grande desafio para a continuidade”, afirma Juan Pedro de Gaspar.

Em entrevista ao podcast Pátria, Fernando Aramburu elogiou a adaptação televisiva de sua obra e destacou algumas diferenças entre as linguagens: “Achei os capítulos muito emocionantes pela veracidade do relato, pela força das imagens, pelas estupendas soluções narrativas, pelas boas interpretações. A força que as imagens têm as palavras não têm, mas para entender um romance é preciso decifrar um código. O leitor intervém de maneira muito ativa na hora de ler uma novela. Entendendo, lendo entrelinhas. Uma filmagem não deixa essas opções”, sentenciou o escritor. Aramburu revelou ainda que depois de assistir à série já não consegue imaginar seus personagens com outra cara que não seja a dos atores. E é justamente sobre personagens e atores que falaremos no próximo artigo especial. Não perca!

testeSorteio Instagram – Não se humilha, não autografado

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testeSe alguém vive terminando com você, isso é amor?

Laura Dean vive terminando comigo, HQ ganhadora de 3 Eisner, chega em dezembro

Ao contrário da fofíssima Lara Jean de Para todos os garotos que já amei, Laura Dean é uma pessoa simplesmente… horrível.

O dia em que Freddy Riley a conheceu foi o melhor de todos, mas agora isso não passa de uma lembrança distante. Laura Dean é popular, engraçada e linda — a namorada com que Freddy sempre sonhou —, mas aos poucos está mostrando que também pode ser insensível, egoísta e até cruel.

E quando esse relacionamento cheio de idas e vindas começa a despedaçar o coração de Freddy em câmera lenta, ela corre o risco de perder sua melhor amiga junto com o restante de sua autoestima.

A premiada roteirista Mariko Tamaki (Mulher-Maravilha, Aquele verão) se une a Rosemary Valero-O’Connell (Steven Universe) para contar essa história marcante em Laura Dean vive terminando comigo, uma HQ sobre relacionamentos tóxicos e o amor na adolescência.

Lançada originalmente em 2019 nos Estados Unidos, a obra ganhou três prêmios Eisner em 2020 nas categorias Melhor Publicação para Adolescentes, Melhor Roteirista e Melhor Artista. Laura Dean vive terminando comigo chega às livrarias em 4 de dezembro, mas você já pode garantir a sua edição na pré-venda.

testeEscolhida a atriz que será Kya Clark na adaptação de Um lugar bem longe daqui

Desde que Reese Witherspoon anunciou que iria produzir a adaptação cinematográfica de Um lugar bem longe daqui, nós estamos ansiosos por novidades! E vocês?

Parece que alguém em Hollywood finalmente ouviu nossos pedidos e decidiu acalmar nossos corações com uma notícia incrível: a atriz que interpretará Kya nas telonas! A escolhida foi a atriz inglesa Daisy Edgar-Jones, da série Normal People.

Por enquanto, ela é a única confirmada no elenco do filme, que será dirigido por Olivia Newman e contará com roteiro da indicada ao Oscar Lucy Alibar. Delia Owens, a autora de Um lugar bem longe daqui, também está envolvida na produção.

O livro acompanha a história de Kya, uma menina que foi abandonada em um brejo quando era apenas uma criança. Hostilizada pelos moradores da região, ela cresceu solitária, contando somente com a natureza e os livros como seus verdadeiros amigos. Quando um dos rapazes mais populares da cidade próxima é encontrado morto, todas as suspeitas recaem sobre ela, que precisará provar sua inocência.

Um lugar bem longe daqui foi enviado primeiro para os assinantes do intrínsecos, o clube do livro da Intrínseca. Assine agora e receba todo mês uma caixa exclusiva com um livro inédito na sua casa.

testeLegendborn, de Tracy Deonn, chega ao Brasil pela Intrínseca

Misturando magia, sociedades secretas e uma batalha entre demônios e magos, Legendborn vai encantar os apaixonados por fantasia

Depois de perder a mãe em um acidente de carro, o que Bree Matthews mais quer é se afastar das memórias dolorosas e da casa onde mora. A jovem de dezesseis anos decide, então, participar de um programa para alunos do Ensino Médio na UNC, uma faculdade local. O que ela não esperava é que esse plano perfeito seria interrompido por um ataque de demônios logo na sua primeira noite no campus.

O episódio faz com que, aos poucos, Bree descubra a existência de uma sociedade secreta, composta por guerreiros descendentes dos cavaleiros da Távola Redonda de Rei Arthur. Poderosos, um deles consegue até apagar a memória das pessoas, mas, por algum motivo, isso não funciona com Bree, e ela continua se lembrando de tudo que viu. 

Para piorar, todos os sinais indicam que essa sociedade pode estar envolvida com a morte de sua mãe. Agora, Bree terá de contar com a ajuda de Nick, um ex-guerreiro que se exilou desse grupo, para investigar segredos sombrios  e descobrir o que sua família tem a ver com tudo isso.

Tracy Deonn, autora dessa história fantástica, se considera uma fangirl de carteirinha e adora fantasia e ficção científica, como Star Wars, Duna e X-Men. Ela ficou tão empolgada ao saber que Legendborn (ainda sem título em português) será publicado no Brasil que fez até um post em seu Instagram. Olha que fofa:

E se você já está se perguntando “Intrínseca, quando é o lançamento?”, espere um pouquinho! Em breve teremos mais informações e compartilharemos tudo com vocês nas nossas redes sociais e no blog da editora. 

testeJuventude, racismo e Black Lives Matter: conheça a história de Nic Stone

Antes de ser conhecida como Nic Stone, a jovem Andrea Nicole era uma garota cheia de dúvidas e incertezas. Amante dos livros desde criança, a autora de Cartas para Martin rapidamente percebeu que não se enxergava em nenhuma das histórias lidas nas aulas de literatura. Os personagens negros em clássicos como As aventuras de Huckleberry Finn e Ratos e homens eram escravos fugitivos ou pessoas não muito inteligentes. Além disso, ser a única aluna negra na escola só aumentava seu sentimento de solidão e exclusão.

Em uma busca incessante pela autodescoberta, Andrea conheceu vários lugares e vivenciou experiências diversas. De gerente de loja de varejo à graduação em psicologia que abandonou duas vezes, de líder do grupo de jovens da igreja à modelo, ela sempre procurou se encaixar em algum rótulo na tentativa de se entender. Até que, aos 23 anos, largou tudo e embarcou em uma viagem para Israel. Com apenas 40 dólares no bolso, queria resolver os dilemas que carregava por mais de uma década ao conhecer pessoas e histórias completamente diferentes daquelas de sua vida no subúrbio de Atlanta, na Geórgia.

Naquela viagem nascia Nic Stone. Uma mulher afro-americana e bissexual que queria construir narrativas que ainda não haviam sido escritas, histórias com personagens que rompessem estereótipos, ultrapassassem os limites entre “certo” e “errado” e revelassem a humanidade daqueles que constantemente são pouco representados ou não compreendidos. A perspectiva de Nic Stone havia mudado, e ela percebeu que a vida é muito mais complexa e cheia de nuances do que se imagina.

A ideia para seu livro de estreia, Cartas para Martin, surgiu depois do cruel assassinato de Jordan Davis no final de 2012. Davis, um adolescente negro de 17 anos que vivia na Flórida, foi alvejado por um homem branco de 45 anos durante uma discussão motivada pelo volume da música que a vítima ouvia em seu carro. “O incidente me abalou profundamente”, lembra a autora. “Eu não conseguia parar de pensar nisso.”

Infelizmente, Jordan não foi o único jovem negro vítima de ataques racistas nos meses e anos que se seguiram. Com os assassinatos de Trayvon Martin, Mike Brown e Tamir Rice, Nic percebeu que a parte mais difícil em criar filhos negros não é mantê-los em segurança, mas descobrir o que e quando ensinar a eles: “Eu precisava prepará-los [para o racismo] e mal me sentia preparada para isso.” Quando Davis foi morto, o primeiro filho de Stone tinha apenas 5 meses. Atualmente, aos 35 anos, Nic Stone é mãe de dois meninos, um com 8 e outro com 4 anos, e ela já tem seis livros publicados nos Estados Unidos.

Com o surgimento do movimento Black Lives Matter, parte da mídia norte-americana afirmou que Martin Luther King Jr. seria contra os protestos. Ao se perguntar como seriam os ensinamentos do ativista hoje em dia, a autora transformou a discussão no pilar central de Cartas para Martin. “A maior parte da minha pesquisa [para o livro] envolveu dissecar ensinamentos, sermões, discursos, ensaios e livros do Dr. King, além de analisar não só o que foi feito durante o Movimento dos Direitos Civil, mas como a sociedade respondeu a isso”, revela. “Então pensei: como seriam os ensinamentos do Dr. King nos dias de hoje, vendo tudo isso que está acontecendo?”

Na obra, o jovem Justyce McAllister é agredido e detido injustamente e percebe que ser negro muitas vezes significa ser julgado pela cor de sua pele. A partir de então, Jus decide escrever cartas para Martin Luther King Jr. e tentar aplicar seus ensinamentos no dia a dia. Cartas para Martin foi um dos finalistas do prêmio William C. Morris em 2018 e figurou por semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times. Três anos depois do lançamento nos Estados Unidos, a autora publicou Dear Justyce, que trata de outro assunto importante: o encarceramento juvenil. O livro, ainda sem título em português e data de publicação no Brasil, será lançado pela Intrínseca.

A autora participará do seminário Branquitude: racismo e antirracismo em um encontro organizado pelo Instituto Ibirapitanga, com cocuradoria de Lia Vainer Schucman. O evento contará com importantes vozes e trará debates voltados a reflexões sobre as relações raciais no Brasil e no exterior. Nic Stone vai integrar a mesa “O papel da comunicação no antirracismo” junto à professora da UFRJ Liv Sovik, no dia 28/10, às 16h. A mediação será do jornalista Tiago Rogero. Saiba mais em https://www.ibirapitanga.org.br/encontro/

testeAbaporu, prazer

Do sol ao solo, a figura de cabeça encolhida se expande sem se mexer. Nessa tela, tudo é solidão; uma solidez estática. Na presença desse momento, o que se vê é a ausência de movimento. Há um cacto, um astro, um chão e um personagem disforme, desengonçado, desproporcional: Abaporu, prazer.

Sem dúvida, Abaporu é a figura mais famosa da Tarsila do Amaral. Quiçá, a obra brasileira mais reconhecida internacionalmente. É a pintura que, de certa forma, inaugura a presença do antropofagismo na arte da madrinha do modernismo nacional. Criado em 1928, o quadro foi um presente para o então marido da artista, o escritor Oswald de Andrade. Eles decidiram nomeá-la Abaporu, a palavra tupi-guarani que representa “homem que come”. O batismo traz essa ideia de comer as referências externas e regurgitar em algo brasileiro — conceito de todo o Movimento Antropofágico.

Chama atenção o crânio pequeno encaixado em um corpo agigantado. Observa-se a valorização da potência braçal, do esforço físico do indivíduo e, ao mesmo tempo, o esvaziamento do pensamento, da cultura no ser. Como se este fosse condenado a não pensar ou a pensar exclusivamente em produzir sem questionar. Não há o equilíbrio psíquico e físico que todos devemos buscar: mente sã, corpo são. Aqui, tudo é tão desencaixado. A mente está visivelmente exausta, encolheu. O restante corpóreo permanece imenso, imerso na busca de força para se levantar.

Outro ponto que puxa a atenção dos meus olhos é a secura de todos os elementos representados por Tarsila. O indivíduo é árduo nesse desenho árido. Abaporu é um gigante abaixado e solitário; solidário ao sol, ao chão e ao cacto. Sua cabeça, lá no alto, encosta no céu: seu semblante é cansado. Seu rosto tristonho está mais distante do solo. A lágrima, assim, demora mais a cair. A dor parece desproporcional à esperança. O cenário não transparece nenhuma alegria. Ainda assim, esse ser sobrevive nesse espaço ausente.

Abaporu sou eu, Abaporu é você. Estamos todos tortos e isolados, mas esperançosos de que o tempo gauche irá se endireitar. E, quando tudo isso passar, não seremos mais os mesmos. O gigante (o povo!) precisa se reerguer de verdade dessa vez e só se curvar novamente se for para estender a mão aos que demoraram um pouco mais para entender que juntos somos imensuráveis!

testeMinistro do Supremo Luís Roberto Barroso lança olhar sobre o Brasil e o mundo no próximo livro do selo História Real

Conhecido por sua atuação corajosa, lúcida e comprometida com o interesse público como Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso é um estudioso das grandes questões da vida brasileira e mundial.

Em Sem data venia: um olhar sobre o Brasil e o mundo, Barroso escreve pela primeira vez para um público amplo, não acadêmico, sobre nossos problemas mais candentes: a desigualdade, a polarização político-ideológica, a perda de representatividade dos partidos, os desafios na preservação do meio ambiente e na educação, o racismo estrutural e as ameaças à liberdade de expressão.

Luís Roberto Barroso aborda estas questões sob uma perspectiva própria, fundamentada em evidências e de amplo horizonte, sem escamotear a gravidade dos problemas ou a urgência de os enfrentarmos. Mas também enfatiza o quanto avançamos nas últimas décadas e afirma que somos, sim, capazes de encontrar o caminho para uma sociedade justa, próspera e moderna. Nas palavras dele,

“o Brasil vive um momento de refundação. Há uma velha ordem sendo empurrada para a margem da história e uma nova ordem chegando como luz ao final da madrugada. Não me refiro a governos, sejam eles quais forem, mas à cidadania e suas novas atitudes. O dia começa a nascer quando a noite é mais profunda. A claridade, porém, não é imediata. A elevação da ética pública e da ética privada no Brasil é trabalho para mais de uma geração. A notícia boa é que já começou”.

A obra, que já está em pré-venda, chega às livrarias a partir do dia 7 de dezembro e é a terceira publicação do História Real, selo de não ficção da Intrínseca dedicado aos grandes debates nacionais. Editado por Roberto Feith, o selo também conta com os títulos Liberdade igual e O caminho do centro, ambos já disponíveis.