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Não é drama, é assédio! Por que as mulheres pararam de sussurrar

5 / novembro / 2019

Diariamente mulheres são silenciadas, inferiorizadas e menosprezadas, seja no ambiente de trabalho, em suas próprias casas ou até mesmo andando na rua. As situações são tão naturalizadas que se espera que elas ajam normalmente. Mas elas cansaram de ficar caladas. 

Em Rede de sussurros, Chandler Baker costura um misterioso acidente com relatos de assédios morais e sexuais vividos por mulheres no mundo corporativo. Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham juntas. Todos sabem que Ames Garret é cercado de sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas, porém é sempre acobertado pelos homens no poder. Com a morte repentina do CEO da empresa, tudo indica que Ames ocupará o cargo, e as amigas se veem impelidas a tomar uma atitude para evitar essa perigosa ascensão. Mentiras serão reveladas. Segredos serão expostos. E talvez nem todos sobrevivam. Construído a partir de diferentes pontos de vista, a obra demonstra o poder da união feminina e a importância de se impor frente a situações de assédio.

Fonte: davidebonazzi.com

Foi a partir de sua própria experiência que a autora reparou na necessidade da “rede de sussurros”. A expressão – emprestada do inglês Whisper Network – significa uma rede de apoio na qual as informações são passadas entre mulheres para alertar sobre homens perigosos no ambiente de trabalho. No livro, Chandler Baker relata os desafios que a motivaram a escrever esse importante romance. Confira a carta da autora:

 

Leitores,

A primeira vez que senti os benefícios de uma rede de sussurros (ou whisper network) foi durante um verão em que trabalhei em uma firma de advocacia. Em determinado evento de trabalho, um dos sócios, bem mais velho que eu, não desgrudava de mim, me concedendo uma atenção realmente incômoda. Os outros funcionários começaram a ir embora, mas esse sócio e os amigos insistiram para que eu continuasse com eles no bar. “Quantos anos você tem?”, perguntaram. (Vinte e quatro na época, enquanto eles tinham mais de cinquenta, caso alguém queira fazer as contas.) “Você gosta de homens mais velhos?” A situação era delicada — eu ocupava na empresa uma posição semelhante à de estagiária, com um salário um pouco maior, e queria ser contratada, então fazer contatos era essencial. Naquele momento, porém, eu me sentia mais como um objeto, alguém que eles esperavam — presumiam, na verdade — que fosse levar tudo “na esportiva”. Fiquei ali dando sorrisos sem graça e falsas risadas, como todas fazemos nessas horas. Eu queria sair dali, mas também queria o emprego. E desejava que aquele homem se sentisse,  não sei,  satisfeito,  talvez. Ou, no mínimo, que não se sentisse rejeitado.

A verdade é que não me lembro tanto desses caras quanto da mulher que me tirou dessa situação — com muito mais graça e habilidade do que eu jamais seria capaz de ter na época. Ela tinha um sotaque charmoso do Sul, um enorme e radiante sorriso, e, ao se juntar ao grupo, colocou o braço ao redor dos meus ombros e me falou baixinho: “Pode ir, deixa comigo.” Eu obedeci. No dia seguinte, uma das advogadas, que ouviu uma versão do que havia acontecido no dia anterior, perguntou se eu queria levar o assunto ao RH. Minha resposta: de jeito nenhum! Claro, o comportamento dele tinha sido ruim, mas o tal sócio teria envolvimento direto na decisão de me contratar ou não. Um tempo depois, descobri que eu não havia sido a única que acabou em uma situação daquelas, mas, graças à gentileza de algumas mulheres perspicazes, eu e minha carreira passamos por isso ilesas.

Sempre foi assim, pelo que me lembro. Muitos anos atrás, eu era a única mulher na equipe de remo da minha faculdade. Eu era a timoneira (mais conhecida como a pessoa que grita para os remadores e guia o barco). Como única mulher do time, eu estava sempre tentando me adequar. Nada nunca me incomodava ou ofendia. Não mesmo! Eu, não! Um dia, estávamos todos sentados, passando o tempo. Verdade seja dita, eu tinha me desentendido com um dos rapazes algumas semanas antes e ele estava irritado comigo por algum motivo que eu nem imaginava. Quando fui pegar um pedaço de pizza, esse cara — com mais de 1,90 metro — me deu um chute no maxilar, fazendo meus dentes se chocarem com um estalo alto. Ele riu com malícia, e os outros garotos ficaram ligeiramente chocados, mas continuaram quietos. Entre tudo o que poderia sentir, o que me tomou naquele momento foi um grande sentimento de vergonha. Enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, a única coisa que eu sabia é que não queria ter uma reação “feminina”, não queria parecer exagerada. Agarrei-me desesperadamente à ideia de que eu era o tipo de garota que aguentava o tranco. Então me levantei em silêncio, fui para outro cômodo e nunca disse uma palavra sobre aquilo. Mal sabia eu que variantes dessa mesma dinâmica estavam se reproduzindo em pequena e larga escala com diversas mulheres, e que um reflexo disso se alastraria pela vida profissional de toda mulher, inclusive a minha. Entre na brincadeira! Não faça drama!

Três anos atrás, eu tive uma filha. Ser mãe me levou a um novo patamar de desafios em casa e no trabalho. Doze semanas depois do parto, voltei a trabalhar. No meu primeiro dia de volta, um sócio novo me pediu que ficasse até tarde. Por volta das sete da noite, insisti um pouco mais de que precisava amamentar a bebê recém-nascida. Ele, que era pai de três crianças, me perguntou quantos meses minha filha tinha, ao que respondi: “Só três meses.” E ele rebateu: “Bom, então ela não é mais recém-nascida.” Expliquei que, de um jeito ou de outro, ela precisava se alimentar. Magnânimo, ele me liberou por vinte minutos, sem fazer a menor ideia de que, quando eu dizia que precisava “amamentar” minha filha, significava que ela ainda mamava do peito. Naquela noite, meu marido precisou dirigir meia hora para levar minha filha até o escritório, e eu a amamentei no estacionamento.

É sobre esse tipo de coisa que converso com minhas amigas enquanto damos uma volta na hora do almoço, estamos no clube do livro ou na academia. Cheguei à conclusão de que o assunto era tão recorrente na minha vida que comecei a escrever Rede de sussurros. Conforme a história foi tomando forma, percebi que o livro merecia um coro, uma voz coletiva de mulheres, que se sobrepusesse a mim e às personagens desta obra. Liguei para a minha melhor amiga da faculdade de direito, que me falou sobre uma linha direta que redireciona reclamações de funcionários para a pessoa sobre a qual as mesmas foram feitas. Falei com uma amiga que precisou lidar com mais de dois mil e-mails quando voltou da licença-maternidade porque ninguém se dispôs a ajudar durante a sua ausência. Falei com uma advogada que travava uma luta contra a infertilidade e que chegou a ouvir de um colega, sem nenhum tipo de cerimônia, que mulheres se tornam inúteis para a empresa depois que têm filhos. Todas essas histórias formaram a voz narrativa no plural, um modo de debater a experiência da mulher no ambiente de trabalho, da qual o assédio sexual certamente é um dos elementos, mas não o único.

Enquanto escrevia este livro, me senti — e ainda me sinto — esperançosa quanto às novas maneiras como lidamos com as acusações de assédio sexual. Curiosamente, uma das minhas amigas mais próximas me ligou enquanto eu terminava meu primeiro rascunho e perguntou se eu tinha alguma indicação de advogado para ajudá-la a abrir uma queixa de assédio sexual. Contou que um incidente havia acontecido em uma convenção e, embora não quisesse entrar em detalhes, esperava que eu pudesse indicar alguém para auxiliá-la. Tenho vergonha de admitir que minha primeira reação foi: Você quer mesmo fazer isso? Eu me senti horrível. Sou advogada e escritora e passei inúmeras horas discutindo a importância de falar sobre assédio, mas eu também me importava com o bem-estar dela e sabia que trazer aquilo à tona podia custar caro. Ainda mais se a mulher não tem um suporte ou algum outro recurso de proteção, ou se pertence a algum grupo marginalizado. No entanto, as coisas estão mudando. Devagar, e sem dúvida de forma desigual, mas acredito de verdade que estão mudando, e grande parte disso se deve às diversas mulheres que pararam de sussurrar.

Enquanto essas mulheres compartilhavam relatos comigo, escrever Rede de sussurros se tornou uma espécie de rede de sussurros por si só. Estou ansiosa para compartilhar este livro com as pessoas e espero que continuem a expandir essa rede de novas formas.

 

Atenciosamente,

Chandler

 

 

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