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Como Jojo Moyes redescobriu a paixão pela escrita em uma cabana isolada

14 / novembro / 2019

 

Desde a conclusão da trilogia Como eu era antes de você, estávamos ansiosos por mais histórias de Jojo Moyes. Felizmente nossos desejos foram realizados com Um caminho para a liberdade, que chegou para os assinantes do clube intrínsecos em setembro e às livrarias brasileiras em novembro.

A história de cinco bibliotecárias distribuindo livros para regiões distantes e populações humildes é uma emocionante homenagem à união feminina e ao poder dos livros de transformar vidas. Segundo a autora, essa é a obra da qual mais se orgulha, e o livro que a ajudou a recuperar a paixão pela escrita.

Em uma carta para os leitores, Jojo conta sobre o processo de escrita de Um caminho para a liberdade e suas experiências pessoais ao visitar o mesmo lugar em que suas personagens viveram. Confira:

 

Queridos leitores,

nesta era de ansiedade em que vivemos, há uma infinidade de opções para quem busca ajuda. No começo do ano, um misto de exaustão e problemas pessoais me levou a passar por um dos baixos da vida, e muitos amigos me sugeriram tirar um período de folga em spas, ir a algum retiro terapêutico ou passar um tempo em um hotel-butique com vista para paisagens bucólicas e promessas de paz e quietude.

Acabei me enfiando em um lugar completamente diferente: uma pequena cabana de madeira ao final de oito quilômetros de estrada de terra bem no interior do Kentucky, uma das regiões mais pobres dos Estados Unidos. Não tinha TV, Wi-Fi nem telefone. Porém, para minha surpresa, durante 18 meses, se tornou o lugar onde eu me sentia mais em paz. 

O leste do Kentucky não estava na minha lista de Lugares para conhecer antes de morrer (e não sei se consta na de muitas pessoas). Mas, dois anos atrás, enquanto eu enrolava um pouco navegando pela internet — um hábito comum de escritores — encontrei um artigo no periódico da Smithsonian Institution sobre um grupo de mulheres que vivia nessa área remota durante a Grande Depressão. Era um grupo de bibliotecárias que cavalgavam pela região distribuindo livros, conhecidas como Packhorse Librarians of Kentucky [Bibliotecárias A Cavalo do Kentucky]. O projeto era patrocinado pelo Works Progress Administration, uma empreitada do presidente Roosevelt para agilizar projetos e obras públicas. Através dos livros, o grupo tinha o intuito de combater a ignorância, o fundamentalismo religioso e os golpes de charlatões nas comunidades remotas. Fiquei fascinada.

Jojo Moyes em Kentucky

As mulheres viajavam longas distâncias por um terreno difícil, enfrentando muita suspeita e resistência das comunidades — isso sem falar nas cobras e nos contrabandistas de bebidas. Há várias fotografias em preto e branco com mulheres sérias e determinadas montadas a cavalo diante de uma paisagem montanhosa e desoladora.

Passei quase 30 anos da minha vida envolvida no ofício de contar histórias, tanto como jornalista quanto, nos últimos 18 anos, como escritora. Talvez tenha sido por isso que o relato me tocou tanto. Ou talvez tenha sido culpa da degradação política das noções de verdade e fatos. Ou por causa da ameaça crescente aos direitos das mulheres. Ou quem sabe tenha sido só por causa dos cavalos (eu amo cavalos). De qualquer forma, algo muito forte dentro de mim me dizia que era uma história que eu precisava escrever. Eu tinha sentido a mesma coisa quando ouvi falar em um jovem tetraplégico que persuadira os próprios pais a levá-lo a Dignitas — uma história cujo apelo parecia incompreensível para a maioria, no início. Esse livro — Como eu era antes de você — vendeu 14 milhões de exemplares. Pensando nisso, ignorei a expressão de dúvida enquanto eu contava do novo projeto (“Bibliotecárias a cavalo?”, perguntavam) e comprei minhas passagens para os Estados Unidos.

Eu não sabia muito sobre o Kentucky, só conhecia o senador republicano Mitch McConnel, as corridas a cavalo e o frango frito. Depois de dois voos e uma longa viagem de carro, eu me acomodei em Beattyville, que parecia estar no coração geográfico do projeto. Sou muito adepta da pesquisa de campo; sem uma visita aos lugares, o texto não ganha vida. E, nessas viagens, é comum encontrar alguma trilha que leve a história a lugares inesperados.

Minha pesquisa inicial não foi muito encorajadora. Acontece que, se você digitar “Beattyville” em qualquer ferramenta de busca, não vai achar recomendações de nenhum hotel 4 ou 5 estrelas. Na verdade, a primeira coisa que aparece é um artigo chamado “America’s Poorest White Town: Abandoned By Coal, Swallowed By Drugs” [A cidade de população branca mais pobre dos EUA: abandonada pela mineração de carvão, tomada pelas drogas].

Quando saí do Tennessee, depois de atravessar as fronteiras estaduais, passei por acampamentos de trailers, casas móveis cobertas de poeira junto a carros velhos já esquecidos e moradores vendendo seus pertences à beira da estrada. Poucas vezes me senti tão estrangeira quanto naquele momento. Comi frango frito e couve em restaurantes com placas que avisavam ser “obrigatório o uso de sapatos”. Passei por caminhonetes com carcaças de cervo na caçamba, por igrejinhas imaculadas e por enormes gramados verdejantes que ostentavam a bandeira americana. Entrei em contato com o departamento de turismo do Kentucky, que me sugeriu uma pousada em um “vale” entre duas montanhas em uma das áreas mais remotas do cânion Red River Gorge. Antes de ir, tomei a decisão de não falar de política — e talvez nem de nada.

E então conheci a Barbara.

Barbara Napier tem 72 anos e é uma antiga artista, de olhos vívidos e dona de um jeito doce e sagaz. Ela gerencia a Snug Hollow, um terreno montanhoso de 140 hectares pontilhado de cabanas (algumas que ela mesma construiu). Barbara criou dois filhos sem água encanada, plantando a própria comida. Sua casa é coberta de pesadas prateleiras de livros e, como as bibliotecárias, ela não se impressiona com muita coisa. Já aconteceu de deitar na grama para descansar um pouco, e, ao abrir os olhos, dar de cara com uma onça-parda (“Eu sabia que era uma mãe com filhotinhos, porque já a tinha visto desde cedo”). Os filhos estavam em casa, e não havia a quem pedir ajuda em um raio de muitos quilômetros. Barbara contou que estava tão exausta que, no fim das contas, simplesmente se sentou e gritou: “Ah, dá o fora daqui!”. E a onça foi mesmo embora.

Uma das bibliotecárias que enfrentavam terrenos acidentados e os perigos das estradas desertas para levar conhecimento a moradores de lugares isolados

A cabana mais antiga — e a menor — data de 1930. As paredes ainda são de madeira rústica, é aconchegante e as camas são cobertas por colchas de retalhos. Senti como se estivesse de volta aos anos 1930 — pelo menos até Barbara contar que eu estava dormindo em um colchão de cinco mil dólares.

Na primeira noite, ainda me ajustando ao silêncio, também descobri que as portas não tinham tranca. (“Ah, e nem precisa. Eu moro aqui há 40 anos e ninguém nunca me incomodou.”) Infelizmente, os escritores têm uma imaginação fértil até demais. Fiquei encarando as montanhas escuras, imaginando que as árvores estavam cheias de ursos e de assassinos armados. Decidi que passaria a noite em claro e tiraria um cochilo de dia.

Então, por volta das 21h, ouvi a voz de Barbara ecoando pelo vale:

— Jojo? Vá para a varanda!

E fui. Não acreditei no que via: a montanha agora reluzia, branca, iluminada por milhões de luzinhas que se moviam devagar — eram vagalumes ou algum outro inseto luminoso, e seus corpinhos reluzentes conectavam a paisagem ao céu estrelado. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto.

Daquele momento em diante, esqueci as fechaduras e os medos. Foi quando Snug Hollow e o Kentucky se tornaram lugares mágicos para mim.

Sentada em uma cadeira de balanço na varanda, assisti a manhã pintar de rosa o céu sobre os picos das montanhas. Andei por entre nuvens de borboletas monarcas (não se usa agrotóxico no vale, e a vida selvagem é extraordinária). Afastei cobras do caminho (Barbara: “Jojo Moyes, a senhora acabou de cutucar uma cobra com um graveto?” Eu, meio culpada: “Talvez…” Barbara: “E como sabia que ela não ia picar você?!” Eu: “Ah… é que não tinha cara de que ia picar…”). Eu me apaixonei pelo meu objeto de pesquisa.

Voltei mais duas vezes à cabana nos 18 meses seguintes. Conversava com todo mundo que aparecesse para obter mais conhecimento sobre a vida dessas mulheres, que, de 1935 a 1943, viajavam quase 200 quilômetros por semana para entregar livros. Mas aquelas conversas também me ajudavam a aprender as particularidades da cadência e do sotaque daquela área remota dos Appalachia. Descobri, assim como aquelas mulheres, que as pessoas podiam ser muito desconfiadas — todos têm medo de serem retratados como camponeses ignorantes. As bibliotecárias ganharam a confiança das famílias lendo a Bíblia. Liam para toda a casa, para as crianças e para os mineiros que ficavam de cama com antracose. Além disso, elas distribuíam revistas, histórias em quadrinhos, livros de ficção e muitos textos sobre saúde e educação infantil. Elas criavam álbuns de recortes a partir de livros desgastados demais para serem lidos. Suas entregas mudaram vidas, e essas mulheres eram amadas pelas comunidades. Eu só ouvia tudo, quieta.

As bibliotecárias que, entre 1935 a 1943, combateram a ignorância e o fundamentalismo religioso

Refiz os passos delas, cavalgando pelas mesmas paisagens. (O teto do estábulo que visitei era feito de uma antiga ponte reaproveitada. A proprietária, Andrea, comprava cavalos no Craigslist e tinha uma mula com um coice capaz de mandar a pessoa para o outro lado do estábulo.)

Quando se entra em uma floresta no meio das montanhas durante o dia, o que pega você primeiro é o tamanho de tudo aquilo. Depois vem o silêncio; não há som algum além dos passos ritmados dos cascos dos cavalos no cascalho ou nas folhas caídas. A paisagem é linda e complicada, cheia de fendas profundas e de falésias, criando buracos em que os nativos tinham o hábito de moer milho (segundo Andrea, ainda dá para ver as marcas de seus traseiros no chão). Seria tão fácil se perder ali. Quase todas as trilhas seguem as margens sinuosas dos riachos, e nós também fomos por elas, parando para descansar os cavalos sob algumas árvores enquanto conversávamos sobre o que fazer se encontrarmos um urso no jardim (ficar dentro de casa, de preferência).

As pessoas do Kentucky são exímias contadoras de história. Os cafés da manhã comunais no terreno de Barbara podiam facilmente se estender por umas duas horas. As conversas são em uma linguagem floreada e os “causos” engraçados são quase um esporte competitivo (minha história favorita era a de um fazendeiro que tinha encontrado um cervo morto perto de um ponto de ônibus escolar e corrido para casa para vestir uma fantasia de Papai Noel. Depois, o homem ficou parado perto do cervo só para traumatizar as crianças). O modo de falar do povo do Appalache — ainda carregado das inflexões formais de seus ancestrais elisabetanos —, assim como seu espírito, permeou meu texto, e a escrita fluía com intensidade quase febril. Mal parei durante os fins de semana e feriados.

Caminhei pelas montanhas observando perus selvagens voejando, desengonçados, pela grama alta e abutres planando sobre as árvores secas. Mergulhei fundo no passado conturbado do Kentucky, na brutalidade do trabalho das minas, nas paisagens devastadas pela falta de escrúpulos das grandes corporações. Ponderei muito sobre como aquela história estava se repetindo. E, durante tudo isso, me maravilhei com a beleza da terra e a gentileza e o charme das pessoas.

As bibliotecárias do projeto exclusivamente administrado por mulheres viajavam até 190 quilômetros por semana para entregar livros.

Publicado recentemente, Um caminho para a liberdade recebeu as melhores críticas da minha carreira. A Universal Studios comprou os direitos antes mesmo de o texto ser editado. Às vezes, nossos instintos estão certos. E, mais importante, esse livro me ajudou a recuperar a paixão pela escrita. Estou mais orgulhosa dele do que de qualquer coisa que já tenha produzido — sem contar os humanos que gerei no meu corpo.

Mandei o manuscrito para Barbara antes de enviá-lo para meu editor. Sabia que ela não hesitaria em dizer se sentisse que o Appalachia estava mal representado. “Você está me matando. Tive que cancelar o jantar hoje só para poder ler”, respondeu ela. Depois de algumas correções linguísticas, finalmente entreguei o manuscrito aos editores. Não contei a Barbara que o livro seria dedicado a ela.

 

Mas meu tempo no Kentucky não tinha acabado. Em março, pousei de novo no aeroporto de Lexington. Mesmo sendo tarde, Barbara estava lá para me receber.

Dessa vez, o Kentucky não era um assunto ou um lugar a ser examinado e traduzido para a ficção: era um refúgio. Passei uma semana hospedada naquela cabana. Passeei sozinha, conversei com Barbara durante as refeições e ouvi as apresentações dos músicos que se hospedam na pousada e cantam em troca das refeições.

Fui ficando cada vez mais confortável com o silêncio. Comecei a me alimentar direito (Barbara é uma cozinheira de mão cheia). A grandeza e a beleza da terra e a falta de distrações digitais permitiram que meus pensamentos voltassem a ter alguma ordem. Pensei na força, na bravura e na desenvoltura das mulheres sobre quem tinha escrito, e isso me deu um pouco de perspectiva. Ouvir as histórias das outras pessoas também me ajudou a ver que meus próprios problemas tinham solução. Em meio a isso tudo, também ri muito.

A maioria de nós tem um lugar que nos chama e acolhe quando a alma precisa de um pouco de sustento, e, para identificá-lo, basta que a gente se permita ouvir o chamado. E, para mim, por mais improvável que possa parecer, esse lugar é um pequeno vale no interior dos Estados Unidos. Voltei para casa confiante, com a certeza de que existe um lugar no mundo que sempre será meu porto seguro.

Jojo Moyes

Leia um trecho de Um caminho para a liberdade


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