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O homem que aprendeu a amar o destino que não escolheu

4 / outubro / 2019

Por João Lourenço*

Atletas vencedores são vistos como semideuses. Mas chegar lá e tornar-se um ícone do esporte exige anos de treinamentos exaustivos e dedicação extrema, além da presença esmagadora de uma pressão psicológica. No caso do tênis, essa talvez seja ainda maior. Sozinho na quadra, o jogador não pode nem se comunicar com o técnico durante a partida. E foi nesse cenário que Andre Agassi chegou ao topo. Ao ganhar mais de 800 jogos, incluindo oito Grand Slams e uma medalha olímpica, se tornou um dos grandes nomes da história tênis. Mas, para ele, esses números não significam muito. Agassi, pasmem, diz que não foi por escolha própria que virou tenista profissional e sempre odiou o esporte. Sim, um dos maiores tenistas do mundo odiava o esporte que o transformou em um dos maiores ídolos da década de 1990. E são revelações como essas que fazem de Agassi: uma autobiografia um livro irresistível para todos os públicos.

Na autobiografia, o americano expõe, com honestidade admirável, vitórias e derrotas enfrentadas ao longo de sua vida. Narrado em tom confessional, é um prato cheio para os fãs do esporte e, ao mesmo tempo, agrada aos não iniciados — afinal, a vida e a carreira de Agassi não têm nada de entediante. O tenista oferece ao leitor a clássica história da construção, queda e retorno do herói.  

A construção do herói começou cedo e se deve ao pai de Agassi, Manuel, um ex-boxeador olímpico. O pai tinha obsessão pelo tênis e projetou isso logo cedo no filho. Aos dois anos, Agassi já sabia segurar e movimentar uma raquete. Aos sete, treinava como um jovem profissional. O menino tinha que acertar cerca de 10 mil bolas em treinos diários que ficaram conhecidos como “vencer o dragão”. O dragão, neste caso, era uma máquina que o pai de Agassi adaptou para lançar bolas de tênis a 170 km por hora. 

Da esquerda para a direta: Andre Agassi aos seis anos junto de seu pai Mike, sua irmã Rita e seu irmão Phil.

A infância do tenista foi dividida entre a escola e as quadras. Ainda adolescente, foi enviado para uma academia de tênis. A intensidade dos treinos fez com que ele abandonasse os estudos, algo que viria a assombrá-lo pelo resto da carreira. Agassi não teve a oportunidade de conhecer outra realidade. Dedicou-se inteiramente a ser o “melhor do mundo”, como exigia o pai. No livro, ele conta que temia decepcionar a família e, mesmo odiando o esporte, sentia-se obrigado a ser bem-sucedido. E a glória veio cedo. Aos 24 anos, após ganhar o Aberto da Austrália, tornou-se o melhor jogador do planeta. Nas quadras, era conhecido por ser versátil, mas não muito rápido — ele preferia jogadas longas. Além do talento, ficou marcado pelo estilo irreverente. Ao contrário dos tenistas que seguiam os padrões de uniformes claros e cabelo curto, inovou ao aparecer nas partidas com o cabelo comprido, brinco dourado e acessórios coloridos.  

Mas, quando atingiu o topo, Agassi percebeu que estava infeliz. Por muito tempo, acreditou que o papel de “número 1” iria preencher seu vazio existencial e acalmar a euforia que dominava sua vida. A conquista, porém, resultou em mais pressão e responsabilidades. Isso o levou a procurar refúgio nas drogas — episódio que marca uma das melhores passagens da autobiografia. Agassi viveu quase um ano viciado em metanfetaminas. Nesse período, chegou a cair para a posição 141 do ranking mundial. Sentia-se um zumbi e também refém da própria vida. 

Agassi se culpava por não ter aprendido nada além do tênis. Durante esses devaneios, percebeu que havia crianças em situações piores que a dele. Crianças que não tiveram oportunidade alguma. Ele aproveitou esse momento para encontrar resiliência, abandonar as drogas e voltar a ser o número 1. Mas, desta vez, com um objetivo claro: o tênis seria uma ferramenta para ajudar a promover a educação de crianças. Após uma série de lesões, problemas com drogas e o divórcio da atriz Brooke Shields, Agassi se submeteu a um regime extremo de exercícios. E, no final de 1999, voltou a conquistar o mundo. Foi o quinto jogador da história a vencer os quatro Grand Slams (os campeonatos mais importantes do tênis: Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e Aberto dos EUA).

O título de número 1 desta vez teve outro significado para Agassi. Consolidou os trabalhos de sua fundação para crianças e criou uma escola preparatória que proporciona educação gratuita. Deste modo, continuou a jogar tênis sem deixar que a pressão o consumisse e o desejo de ajudar as crianças refletia a descoberta de si mesmo, daquilo que gostava e que o motivava. Assim, pôde oferecer a milhares de crianças a chance que não teve: escolher o próprio destino. A escola que Agassi abriu se tornou um modelo educacional em Clark County, em Las Vegas, EUA. A instituição hoje conta com cerca de 1.200 crianças matriculadas, mas Agassi estima que a sua fundação já tenha ajudado cerca de 38.000 crianças. 

Após 20 anos no tênis profissional, Agassi anunciou a sua aposentadoria em 2006, aos 37 anos. É casado com a tenista Steffi Graf, vencedora de 22 Grand Slams. O casal tem dois filhos. Apesar da obsessão do pai ter quase levado o jogador à morte, Agassi não o retrata como vilão no livro. Tenta encontrar sentido e lições em sua trajetória. Depois que se aposentou, ele nunca mais jogou tênis, nem por diversão. E só pega numa raquete quando é para auxiliar algum jogador. O atleta vê a aposentadoria como uma espécie de renascimento, uma vida na qual agora finalmente pode controlar o próprio destino.

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

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