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Fotografia de um romance

10 / setembro / 2019

Por Vanessa Corrêa*

Tempo de luz recria passagens da vida de Lee Miller e aponta sua influência na obra de Man Ray

Foto: Gazzetta Di Parma

Histórias de amor são parecidas em muitos aspectos. Todas têm um começo e chegarão a um fim, mas algumas se destacam por conta dos personagens envolvidos, que transformam o relacionamento em um relato digno de livros e telas de cinema.

O romance entre Lee Miller e Man Ray se encaixa nesse grupo. Ela, uma bela modelo que alcançou o sucesso em Nova York e decidiu se mudar aos 22 anos para Paris, tornando-se mais tarde uma das principais fotógrafas de guerra do século XX. Ele, uma das figuras mais icônicas do movimento surrealista, que ficou conhecido por revolucionar a fotografia enquanto manifestação artística.

Inspirada por esses personagens, Whitney Scharer escreveu Tempo de luz, uma história de ficção que recria fases da vida de Lee Miller. O livro traz momentos memoráveis de sua trajetória, do cotidiano glamoroso como modelo da revista Vogue em Nova York aos impressionantes registros fotográficos durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma das únicas mulheres credenciadas como correspondente no conflito, Miller fotografou os horrores dos campos de concentração de Buchenwald e Dachau, na Alemanha, o suicídio de oficiais nazistas e, em um pequeno ato de vingança pessoal, foi fotografada usando a banheira de Hitler em seu apartamento em Munique, enquanto o Führer se escondia em seu bunker em Berlim. Mas é o relacionamento com Man Ray no início da década de 1930 em Paris que predomina em Tempo de Luz.

Assim como uma fotografia, onde as imagens vão aos poucos desenhando seus contornos no papel, a relação entre Miller e Ray parece seguir o mesmo ritmo, com intenções e sentimentos mostrando-se gradativamente, à medida em que os personagens intensificam sua convivência.

O turbulento romance influenciou a trajetória profissional de ambos, deixando um legado artístico e cultural importante, que vai das obras que Ray criou inspirado por esse amor às técnicas fotográficas que desenvolveram juntos no estúdio do artista.

Parte desse legado pode ser visto até o final de outubro em São Paulo, na mostra Man Ray em Paris, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. A exposição traz mais de 250 obras de 1921 a 1940, período em que Ray viveu na capital francesa e que coincide com seus anos de criação mais intensos.  

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Estão ali alguns dos inúmeros retratos de Lee Miller feitos por Ray entre 1929 e 1932, ano em que chega ao fim o relacionamento entre os artistas. Uma pequena biografia descreve Miller como assistente, modelo e conselheira de Ray durante os anos em que viveram juntos.

Muitas das fotografias da exposição foram feitas usando a técnica que ficaria conhecida como solarização, na qual imagens expostas rapidamente à luz no momento da revelação adquirem contornos que parecem envolvidos em uma espécie de aura, dando um ar etéreo à fotografia. É o caso da obra intitulada “Lee Miller”, de 1930, na qual o perfil da fotógrafa se destaca do cenário ao fundo em contornos luminosos.

Foto 1: Gagosian // Foto 2: Vintag

Fotos de partes do corpo de Miller remetem a obras que, no relato ficcional de Scharer, são criadas por Ray para celebrar o amor por sua musa — ou tentar superar a dolorosa separação. Um close de sua boca serviria de inspiração para a pintura “Hora do observatório: os amantes”, em que imensos lábios vermelhos pairam sobre uma paisagem, enquanto seu olhar, registrado em muitas das fotos de Ray, seria usado na obra “Objeto a ser destruído”, na qual um único olho recortado e fixado em um metrônomo observa o espectador.

Foto 1: Drescuela // Foto 2: In The In-Between

Em sua nota ao final do livro, Whitney Scharer deixa claro que se trata de uma obra de ficção e os personagens nela descritos são produtos de sua imaginação. Mas, mesmo ficcional, a riqueza da narrativa consegue dar um novo sentido às fotografias de Man Ray e Lee Miller que ficaram de legado. Como Scharer define em sua nota, “as imagens foram pontos de acesso para as cenas deste romance… este livro, então, é a história por trás delas”.

 

*Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

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