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Um lugar bem longe daqui não é tão longe como parece

28 / agosto / 2019

Por João Lourenço*

Em tempos de crise, conhecimento é poder. A eleição de Trump, somada à proliferação de fake news, foi responsável pelo aumento da procura por fatos e fontes. Veja só: na primeira semana após a eleição presidencial, o jornal The New York Times ganhou 41.000 novos assinantes. Isso ficou conhecido como “efeito Trump”. O mercado literário também sentiu esse efeito. Títulos de não ficção ultrapassaram seus habituais nichos e passaram a ser motivo de discussão entre o grande público. Diante de tantas questões e dúvidas em relação ao futuro, o entretenimento como conhecíamos ficou ofuscado. Na literatura, a ideia do grande romance americano entrou em hiato. Havia temas urgentes demais a serem discutidos. 

Mas, no ano passado, um romance surpreendeu e voltou a concentrar a atenção popular. Seu título: Um lugar bem longe daqui. Em seu primeiro romance, Delia Owens trata com realismo sobre questões pertinentes ao nosso tempo, como pobreza, desigualdade, falta de esperança, solidão, racismo, injustiça. Aos 70 anos, a autora, que já havia publicado alguns livros de não ficção, chegou sem alarde às prateleiras com este romance e logo ganhou notoriedade na rede social mais antiga de todas: o bom e velho boca a boca. Entre seus fãs está a atriz e produtora Reese Whiterspoon, que escolheu Um lugar bem longe daqui para o Hello Sunshine Book Club, um dos clubes do livro mais poderosos do mundo, atrás apenas do Oprah Book Club. “Com um mistério de cair o queixo, um cenário deslumbrante no sul dos Estados Unidos e uma heroína fascinante, me apaixonei pelo livro na primeira leitura”, elogiou a atriz. 

Reese foi além e decidiu levar o romance também para o cinema. “Cresci no Tennessee, escalando árvores, explorando leitos de riachos e usando o mundo ao meu redor para aprender e explorar”, disse em comunicado à imprensa. “Sempre tive um relacionamento profundo com a natureza e acho que muitas outras mulheres também.” Até agora o best-seller já vendeu mais de 3 milhões de exemplares. No Brasil, o livro chegou primeiro para os assinantes do intrínsecos, o clube do livro da Intrínseca, e já virou um dos favoritos dos leitores. 

Um lugar bem longe daqui acompanha as descobertas e dificuldades de Kya Clark. Abandonada aos seis anos pela mãe e pelos irmãos, a jovem cresce na companhia abusiva do pai alcoólatra, que também acaba indo embora, e Kya se vê sozinha em uma casa improvisada, sem eletricidade ou água potável, localizada em um brejo lamacento no sul dos Estados Unidos. 

Para sobreviver, Kya vende mariscos para um pequeno mercado, onde conhece Pulinho, um dos poucos negros que habita a região. Além de Pulinho e a esposa dele, os amigos de Kya são os animais do brejo. Ela se relaciona com as pessoas com desconfiança. Chamada de “inferior” por ser uma “menina do brejo”, Kya tem dificuldade para se adaptar à escola e só aprende a ler e a escrever na adolescência, quando Tate Walker, filho de um humilde pescador, consegue se aproximar da menina. Tate também é o primeiro amor de Kya, mas tudo se transforma quando ele deixa a cidade para cursar a faculdade. Kya encara isso como mais um abandono. Solitária, ela se envolve com Chase Andrews, o garanhão da cidade. E quando Chase é encontrado morto, Kya, com 23 anos, passa a ser a principal suspeita do assassinato. 


Em tempos de crises e de incertezas, precisamos de doses de humanidade e esperança para seguir em frente. E é isso que o livro oferece: um lembrete de que somos capazes de enfrentar as adversidades e ir muito além de onde imaginamos. A autora também explora uma diversidade de gêneros. Um romance de formação, flerta com o suspense e não deixa de ser uma história de amor com reflexões sobre a natureza. A capacidade de Delia em transitar entre temas diferentes ajuda a explicar um pouco do sucesso do livro. 

Os capítulos são divididos entre a história da vida de Kya, o julgamento e as descobertas sobre o assassinato e se passa entre as décadas de 1950 e 1960, período marcante para o avanço dos direitos civis nos Estados Unidos. Delia Owens apresenta uma sociedade polarizada e ignorante, marcada por preconceitos e desigualdades sociais — um tema que poderia soar distante, mas que tem tudo a ver com os dias atuais. Além de construir uma história capaz de surpreender o leitor até a última página, a autora preenche as lacunas com detalhes e curiosidades do mundo natural, usa analogias e exemplos da natureza para ajudar a protagonista a entender as relações humanas. Afinal, Delia acredita que nós, humanos, ainda refletimos com frequência o comportamento de outros mamíferos, como leões e balbuínos.

A paixão de Delia Owens por esse universo vai além deste romance de estreia. Formada em zoologia e especializada em comportamento animal, ela passou mais de duas décadas explorando a vida selvagem em países da África. Ao lado do ex-marido, escreveu livros sobre o mundo animal e colaborou com documentários da National Geographic. Durante a passagem pela África, percebeu que, em geral, os grupos sociais mais fortes são compostos por fêmeas. Por muito tempo ela se questionou como seria para uma jovem mulher viver longe de um “bando”, de sua turma. 

Um lugar bem longe daqui também é resultado de conversas da autora com os amigos ao longo da vida. Delia notou que eles reclamavam que os livros sobre natureza eram muito específicos,  que faltava uma história de fundo para ligar os pontos. Outra inspiração da autora veio de O sol é para todos, de Harper Lee. Assim como o livro de Lee, ela queria ensinar que é possível entender as complexidades e injustiças do mundo a partir da perspectiva de uma criança. Durante o processo do primeiro rascunho, dormia com um pedaço de papel, lápis e uma lanterna ao lado da cama caso acordasse com alguma ideia para a trama. Muitas vezes ela não entendia o que tinha escrito durante a noite. Esse processo intuitivo levou cerca de 10 anos para ser concluído. 

Hoje, Delia Owens mora em uma região isolada no estado de Idaho, norte dos Estados Unidos, cercada por montanhas e pela vida selvagem. Alces e ursos são seus vizinhos. Para ela, natureza e solidão são essenciais para encontrar a inspiração — para “se encontrar”. Ainda menina, sua mãe dizia para ela andar para bem longe. Ela levou esse conselho a sério. 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

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