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Os rostos de um confronto

19 / agosto / 2019

Pátria, de Fernando Aramburu, e o cotidiano durante o conflito basco

Por Elisa Menezes*

Minha primeira lembrança de San Sebastián não é o belo Paseo de la Concha, nem os saborosos pintxos de suas dezenas de bares. Quando desci do ônibus numa manhã de julho de 2005 na capital do País Basco, a primeira coisa que notei foi a enorme faixa com dizeres em euskara, uma língua misteriosa, cheia de consoantes – com destaque para a letra K – e que me era desconhecida. Apesar disso, entre palavras indecifráveis, pude distinguir três: ETA, polícia e assassina.

Eu tinha 23 anos e havia me mudado nove meses antes para Madri, graças a uma bolsa de jornalismo. Fazia um mestrado em Rádio e estava em Donostia (o nome em euskara da cidade) para passear e cobrir o Festival de Jazz de San Sebastián. O movimento separatista basco e os atentados do ETA estavam sempre nas manchetes dos jornais, e eu sabia que naquela semana um militante etarra havia sido morto pela polícia. Contudo, foi um choque comprovar que num dos principais destinos turísticos da Espanha, aquela cidadezinha charmosa e com uma cultura exuberante, parte da população defendia abertamente um grupo terrorista responsável pela morte de centenas de pessoas.

Catorze anos depois, um livro de ficção me faria compreender as ambiguidades e tragédias individuais que compõem o cotidiano de quem viveu o conflito basco de perto. Sentada em minha casa no Rio de Janeiro, devorei em poucos dias as mais de 500 páginas de Pátria, de Fernando Aramburu. Lançado em 2016 na Espanha, o livro recebeu diversos prêmios internacionais, vendeu mais de 1 milhão de exemplares apenas em espanhol e foi publicado em mais de 29 países. Os primeiros no Brasil a conhecerem essa obra tão “convincente e comovente” – como descreveu o escritor Mario Vargas Llosa – foram os assinantes do clube intrínsecos. Como editora do número 10 da revista do clube, tive a incumbência de mergulhar no universo de Pátria e de entrevistar seu autor.

Fernando Aramburu nasceu em San Sebastián, mas vive na Alemanha desde os 26 anos, onde leciona espanhol, faz traduções e escreve. Muito. Livros, crônicas, artigos, resenhas e aforismos. Antes de ser catapultado à fama mundial com Pátria, ele já havia publicado oito romances, quatro coletâneas de contos, um livro de ensaios, quatro de literatura infantil e cinco de poesia.

Em entrevista por e-mail, Aramburu contou que vinha se preparando havia muitos anos para escrever Pátria. Quando enfim decidiu abordar esse tema incontornável para um autor basco — o terrorismo do ETA e seus desdobramentos na sociedade espanhola — dedicou-se exaustivamente por três anos à história.

“Posso dizer que Pátria estava dentro de mim sem que eu soubesse, até que o ETA decidiu parar de matar e aí entendi que o objeto dessa história estava completo e podia ser narrado em forma de um romance longo e coral.”

Pátria chegou primeiro para os assinantes do clube intrínsecos em uma edição capa dura e acompanhado de uma revista com conteúdo extra, marcador, cartão-postal e um brinde.

Não à toa o ponto de partida do livro é o anúncio de cessar-fogo feito pelo ETA em 2011. Por causa dele, a viúva Bittori decide voltar à vila basca em que morou a maior parte da vida e onde seu marido foi assassinado por etarras. Ela não deseja vingança, quer apenas a possibilidade de perdoar, mas para isso é necessário que alguém a peça perdão, que o assassino assuma seu crime, que seus ex-amigos aceitem sua presença e seu luto. Que ela possa, enfim, ser tratada como vítima. Aos poucos vamos sendo apresentados aos nove personagens pertencentes a duas famílias, a princípio amigas, que serão separadas pelo terrorismo.

Com uma narrativa não linear, o autor apresenta gradualmente o passado e o presente de cada um dos protagonistas que se alternam como foco dos capítulos. Sem aviso prévio, os personagens tomam a voz do narrador onisciente e relatam sua história em primeira pessoa ­— às vezes trata-se de uma interjeição, um pequeno comentário ou mesmo um parágrafo inteiro. E assim conhecemos o que se passa na cabeça da vítima, o que pensa o assassino segundos antes de puxar o gatilho, as contradições que consomem a consciência dos que justificam mortes em nome de um ideal.

“A ideia é que os personagens são também narradores. Eu permiti que eles intervissem usando a primeira pessoa sempre que tivessem algo para contar, sem ao menos esperar que o narrador externo terminasse suas frases. Decidi também que cada personagem teria sua própria forma de se expressar, seu próprio tom e vocabulário. O resultado quebra as formas tradicionais do romance e permite que os leitores adotem a perspectiva de cada um dos nove protagonistas, e que também conheçam o que pensa e sente cada um deles ao longo do livro.”

 

Foto de: Korpa

Essa narração tão singular provavelmente é um dos motivos de Pátria ter se tornado um sucesso mundial, encantando leitores em países tão distintos quanto China e Itália. Mas talvez a razão principal desse fenômeno seja o fato de Aramburu ter construído uma história sobre pessoas, sobre as relações humanas e, portanto, universal.

Por intermédio da história de duas famílias, Aramburu repassa 30 anos de conflito basco e constrói um retrato detalhado do “país dos calados”, onde o silêncio conivente está mais próximo do medo do que de adesão à violência. Mais do que todas as notícias e livros que li a respeito do tema, mais do que a minha vivência com a cultura espanhola, Pátria me fez enxergar as pessoas comuns em vez de siglas, partidos e instituições. Estão lá as ideologias, o nacionalismo, o fanatismo, mas também as mães devotadas, as picuinhas familiares, os altos e baixos das amizades longevas, o ódio, o amor.

 

*Elisa Menezes é jornalista, editora e tradutora.

 

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