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Conheça o terror da Ilha das Cobras no novo livro de Felipe Castilho

24 / julho / 2019

Se você já ouviu falar da Ilha das Cobras, sabe que o local é um verdadeiro pesadelo para quem não suporta seres rastejantes. Mais do que um equívoco darwiniano ou uma lenda popular, tudo que envolve a ilha do litoral paulista é muito assustador e misterioso.

Esse cenário inspirou Felipe Castilho, autor de Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, a escrever seu novo livro, Serpentário. Com traços de H.P. Lovecraft, a obra que chega às livrarias no dia 15 de agosto mescla referências do folclore e de mitologias a elementos da cultura pop, da ficção científica e do horror.

Na trama, Caroline, Mariana e Hélio costumavam deixar a capital paulista todos os anos para encontrar Paulo, um jovem habituado à vida caiçara. Mas a amizade do grupo sofreu um abalo sísmico no Réveillon de 1999, quando algo tão inquietante quanto o bug do milênio abriu caminho para uma ilha — e explorá-la talvez não tenha sido a melhor decisão.

Entre memórias e fatos fragmentados, o que aconteceu naquela noite se tornou um mistério. Mas de algumas coisas eles se lembram: uma ameaçadora serpente, além de uma pessoa sendo entregue ao ninho da víbora — um sacrifício sem chance de recusa.

Sobreviver à Ilha das Cobras tem um preço. E os amigos vão descobrir isso do pior modo.

 

Leia um trecho:

Sua cabeça doía, o calcanhar também, e o medo e a ansiedade a atingiam como prenúncios de todas as instabilidades que acompanhavam as lembranças do réveillon. Quando sua memória sobre o passado começava a invadir o presente, toda a realidade falhava, como as luzes de uma casa piscando durante uma tempestade. Era assim que ela começava a perder o controle.

— Algum problema aí, moça?

Estava parada entre a fachada de uma casa de materiais de construção e um terreno baldio. Sem jeito, Caroline arrumou o cabelo, ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha e se virou para o homem que a chamou, parado junto à entrada de uma lojinha, que deveria estar fechada àquela hora da madrugada.

— Eu… tudo bem, tudo bem. É só uma tontura.

— Quer uma água? — ofereceu ele, acendendo as luzes que ficavam próximas dos troncos dos coqueiros, no meio da grama do jardim.

Caroline então percebeu que conhecia o sujeito. Não se lembrava de seu nome, mas sabia que ele havia feito manutenções e serviços gerais algumas vezes na casa da família dela durante sua infância. Ele com certeza não a tinha reconhecido.

— Não, tudo bem. Só pressão baixa, e tenho água aqui na mochila — respondeu, com um sorriso falso, mas que era disfarçado pela sombra. Para tentar fazer com que aqueles olhos desconfiados parassem de examiná-la, decidiu jogar conversa fora. — Você mora aí na loja?

— O quê? Ah, não… Eu trabalho para eles, recebo mercadoria de vez em quando. E eles me indicam para reformas. Estou esperando uma carga de azulejos, devia ter chegado lá pela meia-noite.

— Ele deu um passo para fora, mais à vontade. Caroline conteve o impulso de dar um para trás. — E você? Veio passar o Ano-novo aqui? Amanhã vai fazer sol, hein.

— Ah, sim. É. Vim visitar um amigo, na verdade.

— Que mora aqui? — Ele abriu um sorriso. Geraldo, Caroline lembrou. Seu Geraldo. — Então eu conheço! Qual é o nome do seu amigo?

— Não, na verdade, ele é da Praia da Baleia — respondeu ela, sentindo que a conversa estava se alongando demais.

Sua atenção começou a se despedaçar, dividida em vários detalhes e sensações. Em algum lugar de sua mente ou da cidade abaixo, Manson começava a latir de novo, como se a avisasse do perigo. Ao mesmo tempo, o mato alto no terreno baldio ao lado se agitou, mesmo que não tivesse vento algum.

— Eu também conheço um pessoal da Baleia.

— É que ele já morreu.

— Ah — falou o homem, e o sorriso se desfez. — Desculpa, eu não ti…

— Tudo bem, não tem problema. Vou indo…

— Mas olha, o cemitério mais próximo é um pouco longe daqui. Indicaram para você uma hospedagem nada prática. Você é bem-vinda, não me entenda mal, Deus sabe quanto a gente precisa do turismo aqui no litoral norte, mas você precisava ter pego uma pousada lá em Barequeçaba, ou perto da balsa para Ilha Bela…

Com a infalível bússola interna de quem realmente vivia em São Sebastião, seu Geraldo apontou com exatidão para a direção de Barequeçaba e Ilha Bela. A atenção de Caroline se deteve no pulso, pouco antes do dedo em riste: uma tatuagem malfeita de um verde desbotado.

Era uma serpente.

A tatuagem se mexeu, colocando a língua vermelha para fora. O mato do terreno ao lado se agitou de novo, agora com um ruído baixinho, parecido com o de um chocalho. Geraldo não parecia estar escutando aquilo. A urgência tomou conta de Caroline.

— É, verdade. Amanhã eu vejo isso, mas já reservei aqui mesmo. Boa noite.

Em seguida, ela deixou para trás o primeiro de muitos moradores intrigados.

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