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Entre o real e o imaginário

13 / junho / 2019

Por Elisa Menezes*

“Não quero escutar as histórias de terror do bairro, que são todas inverossímeis e críveis ao mesmo tempo e que não me dão medo, pelo menos de dia.”

 

O trecho acima pertence ao conto “O menino sujo”, o primeiro dos doze que compõem o livro As coisas que perdemos no fogo, da jornalista e escritora argentina Mariana Enriquez. Não deixa de ser também uma espécie de síntese da obra dessa autora tão habilidosa em mesclar o crível e o inverossímil, extraindo aquilo de aterrorizante que existe no cotidiano. Suas histórias se desenrolam com naturalidade, fluidez e altas doses de humor ácido, mas o que provoca calafrios e tira o sono do leitor é justamente o que existe de real nelas. Voltando-se para situações banais — e banalizadas —, ela prova que a violência urbana, a ditadura militar, a recessão econômica e os feminicídios podem ser muito mais cruéis e assustadores do que qualquer monstro ou distopia.

Nascida em 1973 em Lanús, subúrbio a quinze quilômetros de Buenos Aires, Mariana cursou Comunicação Social em La Plata e se mudou para a capital portenha já adulta. A cidade é um personagem constante nas histórias da autora, que se interessa, contudo, pela faceta marginalizada, e não pelos cartões-postais. Com seu “realismo horror” — termo usado pela própria escritora —, Mariana expõe feridas históricas, ainda abertas e visíveis. São bairros cortados por rios contaminados por dejetos industriais, casas abandonadas em zonas violentas que um dia foram habitadas por famílias abastadas, edifícios onde presos políticos foram torturados, mortos ou “desaparecidos”.

A escritora já tinha oito livros publicados quando As coisas que perdemos no fogo foi editado na Espanha, tornando-a conhecida internacionalmente. Desde então o livro foi traduzido para mais de vinte idiomas e em 2017 recebeu o prêmio Ciutat de Barcelona na categoria “literatura castellana”.

Em sua obra mais recente, o romance Este é o mar, que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil, a escritora deixa de lado seu terror moderno e investe na fantasia. Em entrevista à Televisão Pública Argentina, ela contou que sentiu vontade de escrever algo mais terno, aproximar-se dos personagens, e de ambientar uma história fora de seu país. Talvez por isso tenha escolhido falar sobre a relação de êxtase e amor que existe entre fãs e ídolos do rock, algo que ela mesma viveu na juventude.

Fascinada por mitologia desde a infância, a escritora se perguntou o que estariam fazendo hoje as musas, sereias e deusas, essas entidades atraentes e perigosas que inspiram e rodeiam artistas e navegantes. Em Este é o mar descobrimos que existem seres femininos que vivem em movimento perpétuo, nunca dormem e se alimentam da devoção das fãs reais por rock stars. Helena, a protagonista, é uma dessas criaturas que fazem parte do Enxame e que tomam forma humana para se misturar às groupies de carne e osso e incentivar a histeria.

Todas as noites iam gritar em algum show, geralmente em países diferentes. Todos os dias tinham de fazer vigília diante de um hotel, da porta de um teatro ou de um estádio, com o rosto pintado com corações e logomarcas, as mãos agarradas a pôsteres, chorando e esperneando. Deviam ler todas as entrevistas e decorar as respostas, repeti-las, citá-las. Tinham de entrar nas redes sociais, nos fóruns e tumblrs e facebooks e snapchats e instagrams e youtube e twittar e postar, deixar comentários, criar boatos, ameaças de suicídio. Deviam fazer amizade com as fãs reais e conseguir para elas objetos valiosos, discos e fotos autografadas, algum RT ou, melhor ainda, um follow, até uma DM.

Como se vê, o trabalho das herdeiras mitológicas é exaustivo. Por isso Helena deseja evoluir à Luminosa, deixar o Enxame e ganhar o direito de viver na Costa, de ter uma Casa. Antes, porém, precisa fazer uma Estrela e transformar essa Estrela em Lenda. Seu escolhido é o jovem e belo James Evans, vocalista da banda Fallen. No que depender dela, James será o próximo Kurt Cobain, o ícone belo, talentoso e de morte prematura (e misteriosa, para quem aprecia teorias da conspiração). Afinal, por trás de cada lenda do rock — Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones —, há uma Luminosa responsável por seu estrelato e por seu fim.

Se em As coisas que perdemos no fogo os contos são narrados de forma distanciada e às vezes cruel, explorando o terror do cotidiano, em Este é o mar Mariana Enriquez dedica um olhar generoso, compreensivo, às fãs adolescentes, essas musas contemporâneas que inspiram os artistas e os elevam à categoria de deuses. Há ironia, mas também um desejo de mostrar os laços formados entre essas meninas, como eles geram senso de pertencimento, desdobrando-se em experiências coletivas intensas de afeto.

Novamente, a autora costura com maestria o real e o imaginário, jogando com o que existe de surreal nesses sentimentos tão exacerbados e apontando a humanidade que reside no inusitado universo sobrenatural que ela criou. Helena precisa matar o músico escolhido, torná-lo Lenda, para garantir a sobrevivência de sua espécie. Porém, ao conhecê-lo melhor, perceberá que não está imune às emoções que julgava exclusivamente humanas.

O resultado é um romance curto e ágil, repleto de referências mitológicas e da cultura pop, povoado por personagens femininas fortes — com espaço para uma história de amor. Este é o mar é um livro que fala do fim de uma era em vários sentidos. É uma espécie de adeus da autora à sua juventude e também ao tempo em que os ídolos eram universais.

 

*Elisa Menezes traduziu Este é o mar. É jornalista, editora e tradutora.

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