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Um Nobel malcomportado

29 / janeiro / 2019

Por Bernardo Almeida*


Se você trabalha em um campo cuja teoria é baseada no conceito de que as pessoas tomam decisões racionais, talvez desafiar tal ideia não seja a forma mais racional de começar sua carreira acadêmica. Pois foi exatamente o que fez o economista Richard Thaler, abrindo um caminho que culminou no prêmio Nobel recebido em 2017 e é contado de forma didática e bem-humorada no livro Misbehaving.

Em tradução livre, o nome da obra significa “comportar-se diferente do convencionado”, em uma alusão não só à economia comportamental — campo cujo desenvolvimento contou com uma contribuição relevante de Thaler — como à própria trajetória do economista, que ao longo de quatro décadas construiu uma carreira questionando dogmas da teoria econômica, deixando os colegas de cabelos em pé.

A veia irreverente de Thaler fica clara já no início de Misbehaving, quando o economista nos apresenta uma espécie humana que só existe nos modelos usados pelos acadêmicos da área: o Homo economicus, um ser que toma as melhores decisões, mirando a otimização. Como as contas bancárias e vidas amorosas de qualquer pessoa atestam, nada pode estar mais distante do Homo sapiens.

Felizmente, Thaler é um Homo sapiens e trabalhou para que a teoria econômica passasse a buscar entender melhor porque nós, humanos, assumimos determinados comportamentos e nem sempre tomamos as decisões mais racionais. A seguir, saiba mais sobre alguns dos principais tópicos que perpassam Misbehaving.  

 

O que é economia comportamental?

A economia comportamental é o campo que estuda os fatores que afetam as decisões das pessoas sobre economia, levando em conta que o comportamento humano nem sempre é o que se considera ideal ou racional pela teoria econômica tradicional. O estudo nesta área tem uma grande interface com a psicologia, entre outras ciências sociais.

O objetivo é desenvolver modelos mais próximos do comportamento humano, com seus desvios e falhas, e com isso ter resultados mais próximos da realidade. Como diz Thaler, “a razão básica para adicionar Humanos às teorias econômicas é melhorar a acurácia das predições feitas a partir delas”.

No entanto, o autor não rejeita as ideias que têm como base a teoria econômica tradicional; apenas defende que elas devem ser o “ponto de partida para modelos mais realistas” — ou humanos, se preferir.

 

Qual a relevância de Thaler para o campo?

Se hoje Richard Thaler tem um prêmio Nobel de Economia em casa, é porque militou incansavelmente pelo desenvolvimento de uma teoria econômica mais humana e conseguiu, com o tempo e o aperfeiçoamento de seus estudos, demonstrar a importância da economia comportamental.

O começo desta trajetória remonta à segunda metade dos anos 1970, quando Thaler começou a compilar uma série de comportamentos comuns que destoavam do modelo de escolha racional usado pelos economistas.

Na mesma época, Thaler entra em contato com estudos dos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman, com quem colabora no futuro, e suas ideias começam a ganhar corpo.

Desta combinação passam a surgir desafios às premissas da teoria econômica tradicional. Ao longo da carreira, Thaler conduziu estudos para mostrar que fatores irrelevantes para os modelos econômicos têm, na verdade, importância para prever comportamentos humanos.

Um exemplo: uma pessoa com fome vai ao supermercado em um domingo para comprar seu jantar de terça-feira. O comportamento racional indica que a fome no domingo deveria ser irrelevante para a escolha do tamanho do jantar de dois dias depois. Mais que isso, o preço do jantar de terça deveria ser irrelevante para a decisão de comer tudo ou não (“o preço pago no passado por algum alimento não é relevante para a decisão sobre quanto comer agora”). Mas sabemos bem que, na vida real, o que acontece costuma ser bem diferente.

Outro conceito que ocupou boa parte dos estudos de Thaler é o de contabilidade mental, ou seja, entender a forma como as pessoas de fato pensam sobre dinheiro — e não o que um Homo economicus faria.

 

Como se aplica a economia comportamental?

Parte dos economistas ainda torce o nariz para a economia comportamental, mas o fato é que, nos últimos anos, profissionais deste campo começaram a ser convidados a meter a mão na massa em governos e empresas.

Em 2010, o governo do Reino Unido criou uma equipe de análise de comportamento para ajudar no desenvolvimento de políticas públicas. Uma delas conseguiu aumentar o número de contribuintes britânicos pagando impostos em dia apenas ao alertá-los que a maioria de seus concidadãos o fazia, em vez de pressionar com ameaças de processos, por exemplo.

Nos EUA, Thaler e o economista Shlomo Benartzi desenvolveram o Save More Tomorrow, programa para ajudar os americanos a guardarem dinheiro para a aposentadoria. O pulo do gato foi convencer a população a economizar mais no futuro, driblando o chamado viés do presente (grosso modo, a vontade de gastar dinheiro agora). Segundo Benartzi, desde 2006, o programa ajudou 15 milhões de americanos a aumentar suas reservas para a aposentadoria.

Há ainda muito a se explorar na aplicação da economia comportamental. Thaler sugere, por exemplo, o desenvolvimento de mecanismos que suavizem o risco de um empreendimento dar errado, ajudando cidadãos a contornarem a aversão ao risco. A expansão do campo aponta para a tendência de que variáveis de comportamento sejam cada vez mais levadas em conta na criação de políticas nos setores público e privado. Afinal, somos humanos.

*Bernardo Almeida é jornalista.


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