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Dormir para aprender: as relações entre o sono e a aprendizagem

21 / dezembro / 2018

Por Sidcley Lyra*

Se você perguntar a algumas pessoas por que elas dormem, a resposta vai ser uma obviedade: para descansar o corpo e a mente. Basta uma noite inteira acordado para sentir na pele os efeitos da privação do sono: cansaço excessivo, diminuição dos reflexos, aumento da sonolência, alteração no humor e desatenção.

A gente sabe que dormir bem é essencial para manter uma boa saúde física e mental — o sono ajusta os níveis de hormônios, regula nosso estado metabólico e emocional e nos deixa prontos para os desafios do dia seguinte. Mas esse período de tranquilidade representa muito mais do que algumas horas para a manutenção do nosso corpo, pois, por incrível que pareça, o sono também influencia diretamente nossa aprendizagem e criatividade.

Quantas vezes você já ouviu seus pais e professores dizendo que é necessário ter uma boa noite de sono antes daquela prova importante? Dormir bem significa consolidar as memórias de procedimentos.

As memórias de procedimentos são aquelas lembranças relacionadas às habilidades que raramente esquecemos, como, por exemplo, falar diferentes idiomas, escrever, fazer contas ou andar de bicicleta. E, de fato, um estudo realizado com jovens canadenses mostrou que as crianças que tiveram uma boa noite de sono apresentaram um melhor desempenho em matemática e línguas no dia seguinte.

Outro tipo de memória que está associada à aprendizagem são as memórias declarativas. E o papel do sono, especificamente do cochilo, é importante para a consolidação dessas memórias, tanto em crianças quanto em adultos. Se você não tem ideia do que são as memórias declarativas, são essas lembranças possíveis de serem expressadas com palavras, como a descrição daquele museu que você visitou no final de semana, o último show que você foi, a aparência do crush ou a receita de família que sua vó te ensinou quando você ainda era criança.

Quando aprendemos algo novo, a informação é retida com maior facilidade se tirarmos uma soneca logo em seguida. Sabendo disso, há escolas em que as crianças podem cochilar após algumas aulas para que consigam se lembrar melhor do que foi ensinado. Então não fiquem espantados caso a escola do seu filho tenha um horário específico para a soneca depois da aula de história: é para ele ficar mais inteligente.

A criatividade também é influenciada pelo sono e acaba indo além, conversando com um dos grandes mistérios da neurociência: o sonho. E é durante a última fase do sono que ocorre essa incrível viagem pela nossa mente. Muitos falam que o sonho é como um filme de fantasia, mas para a neurociência os sonhos são responsáveis por integrar todas as experiências do dia, alterando suas estruturas e construindo novas representações da memória, de como o mundo pode funcionar, além de estar ligado diretamente à memória emocional e à criatividade.

Dessas representações e pontos de vista podem ser geradas novas soluções, geralmente criativas, para problemas que antes pareciam impossíveis. Há casos nas ciências e nas artes de insights que vieram diretamente do mundo dos sonhos e revolucionaram o mundo real. Foi o que aconteceu com Paul McCartney, que acordou com uma melodia na cabeça e compôs “Yesterday”, e com a escritora Stephenie Meyer, que sonhou com uma conversa entre um rapaz que brilhava ao sol e uma garota e, ao acordar, anotou tudo para não esquecer.

Mas como acontece a consolidação das memórias?

Atualmente sabemos que o sono tem basicamente duas fases: o sono REM (do inglês, rapid eye movement) e o sono não REM (NREM), que se alternam ao decorrer da noite. A primeira fase do sono é a não REM, com seus quatro estágios, e em seguida vem a fase REM, juntamente com o sonho.

Quando temos uma boa noite de sono, atingimos o estágio final, o sono REM, que está ligado à aquisição de memórias de procedimentos; assim, caso haja interrupções constantes durante o sono, consolidar as novas habilidades se torna um pouco difícil. Por outro lado, sonecas de 15 minutos a 1 hora apresentam apenas os estágios do sono NREM, que estão diretamente relacionados à consolidação de memórias declarativas.

Às vezes não percebemos o impacto do sono em nossas vidas, além do óbvio descanso. Mas precisamos ficar atentos a ele e usar os benefícios de uma boa noite de sono a nosso favor.

>> Leia um trecho de Por que nós dormimos

 

*Sidcley Lyra é microbiologista, editor e cocriador do site A Ciência Explica e mestrando em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde (COC/Fiocruz) no Rio de Janeiro.


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