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A história do homem que tinha os pés no chão e foi o primeiro a pisar na Lua

25 / outubro / 2018

Por James R. Hansen*

Quarenta e cinco anos atrás, tudo o que se sabia sobre Neil Armstrong praticamente se resumia a uma imagem na TV cheia de estática de um homem em um uniforme esquisito de astronauta descendo de uma escada a quase meio milhão de quilômetros de distância, fato que fez dele o primeiro da nossa espécie a colocar os pés em outro corpo celeste. Essa icônica imagem de um astronauta congelada no tempo, em 20 de julho de 1969, se tornou a representação de Armstrong para a maioria das pessoas até a sua morte, 43 anos depois. Felizmente, graças ao fato de Armstrong ter concordado em 2002 com a proposta de eu ser o autor do que ele mesmo viria a considerar sua biografia definitiva, tive o raro privilégio de conhecê-lo como realmente era: um homem pragmático, complexo e brilhante, um ser humano de verdade.

Por que Armstrong me escolheu, um professor universitário da área de história, para escrever sobre sua vida é uma pergunta que nunca ousei lhe fazer. Quanto à razão para Neil ter decidido me dar acesso a seu acervo, me permitindo ouvir 55 horas de entrevistas e me enviando mais de 600 e-mails, talvez eu tenha entrado na sua vida na hora certa. Ambos éramos do Meio-Oeste, filhos de pais que ganharam a vida como fazendeiros. Também parecia ser crucial para Neil que eu não tivesse interesse em dramatizar demais sua vida profissional ou pessoal e que gostasse do que os engenheiros fazem (e como fazem) tanto quanto da parte técnica de suas realizações que ficaram para a história — não só do voo para a Lua. Certamente não fez nenhum mal o fato de ele acreditar que podia confiar em mim. O maior elogio que recebi depois do lançamento de O primeiro homem foi o de que escrevi exatamente o tipo de livro que dissera a ele que escreveria.

Em tudo o que fez na vida, Neil personificou as qualidades essenciais e os valores fundamentais de um ser humano excepcional. Não pergunte apenas aos seus colegas astronautas — pergunte aos seus companheiros da aviação naval do Esquadrão de Caça 51, no qual, apesar de ser apenas um jovem com pouco mais de vinte anos, não só realizou 78 missões de combate na Coreia do Norte como demonstrou níveis extraordinários de todos os traços que faziam dele uma pessoa tão maravilhosa.

Neil contou só para mim uma história sobre um voo que fez na Coreia do Norte durante uma patrulha de combate de madrugada em 1951. Ao passar por uma cordilheira de montanhas baixas em seu jato F9F Panther, Neil viu várias fileiras de soldados norte-coreanos desarmados fazendo exercícios físicos fora das barracas. Ele poderia ter abatido todos eles com a metralhadora, mas preferiu não apertar o gatilho e seguiu seu caminho. Ele me disse: “Pareceu que eles já estavam passando maus bocados suficientes fazendo aqueles exercícios matinais.” Nenhuma das pessoas que entrevistei do seu esquadrão de combate sabia dessa história porque Neil nunca a contou, mas eles acreditaram nela sem hesitar. Todos admitiram que teriam disparado, mas havia algo demasiado honroso em Neil que o impediu de matar homens incapazes de se defender. Neil era tão rígido que não queria que o episódio fosse contado na biografia, e só o estou contando agora, após sua morte, com certa relutância.

Como o primeiro homem que pisaria na Lua 18 anos depois, ninguém mais poderia ter lidado com o furor da fama internacional e da transformação instantânea em ícone cultural e histórico melhor do que Neil.

Neil integrou uma equipe que fez a primeira incursão da espécie humana no espaço profundo — e ele sempre fez questão de salientar o trabalho de equipe de 400 mil americanos que possibilitou o sucesso da missão Apollo. Ele ocupava o topo dessa pirâmide, porém não houve nenhuma predeterminação para que se tornasse o comandante do primeiro pouso lunar ou o primeiro homem a tocar a superfície do satélite. Como ele explicou, tudo se deveu ao acaso, a uma série de circunstâncias contingentes. Ainda assim, fez o que fez e compreendeu o grande sacrifício, o comprometimento absurdo e a incrível criatividade humana essenciais para que o feito se concretizasse. Depois da missão na Lua, levou uma vida ativa com muitas outras proezas — nos campos do ensino, da pesquisa, dos negócios e da indústria e da exploração. E Neil fez tudo isso com honra e integridade, como seria de se esperar de alguém à altura do desafio.

Neil sempre foi um homem de palavra. Depois que O primeiro homem foi lançado em 2005, a Universidade Auburn, do Alabama, na qual sou docente, tentou com afinco convencê-lo a discursar na formatura. Neil disse que não podia. Alguns anos antes ele havia recusado o convite das Irmãs da Misericórdia para que discursasse em uma escola da congregação em Ohio, alegando que não fazia mais discursos em formaturas. Ele não poderia trair as boas irmãs participando da cerimônia em Auburn.

Era um homem muito modesto, mas em sua modéstia conseguia ser extremamente espirituoso e perspicaz. Certa vez, em um torneio de golfe com amadores e profissionais, uma mulher se aproximou de Neil na grama e perguntou: “Eu não te conheço de algum lugar?” A resposta genial e modesta foi: “Provavelmente não.”

Como epígrafe da primeira edição de O primeiro homem, escolhi uma frase profunda do livro Reflexões sobre a arte de viver, do mitologista americano Joseph Campbell: “O privilégio da vida é sermos quem somos.”

Neil aproveitou esse privilégio, e todos nós devemos nos alegrar que isso tenha acontecido a ele — e a nós.

 

James R. Hansen é especialista em história aeroespacial e em história da ciência e da tecnologia, publicou uma dezena de livros e numerosos artigos sobre assuntos diversos, entre eles os primeiros dias da aviação, a história da engenharia aeroespacial, a história da NASA, dos pousos na Lua, o programa de ônibus espaciais e o papel da China no espaço.


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