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A reinvenção dos super-heróis

20 / junho / 2018

Por Érico Assis*

Superman completou oitenta anos em 2018. Com ele nasceram os gibis de super- heróis, misto de YouTube, Playstation e Netflix na infância dos nossos bisavós, só que em revistinhas de papel fuleiro ao preço de um saco de balas. Oito décadas depois, gibis de super-heróis custam tanto ou mais que uma caixa de bombons finos e atendem sobretudo a um pequeno grupo de marmanjos. As editoras desses gibis ainda existem porque viraram fazendinhas onde estúdios de cinema colhem ideias para fazer bilhões.

E aí vêm Jeff Lemire e Dean Ormstron e criam um gibi sobre super-heróis numa fazendinha.

 

Black Hammer, lançado em maio pela Intrínseca, é um fenômeno de crítica. E não só aos olhos dos tais marmanjos, mas também de outros leitores e outras leitoras de outros quadrinhos mundo afora. Todos encontraram algo de inovador na criação de Lemire e Ormstron.

O que sabemos da história é o seguinte: os maiores heróis de Spiral City sumiram depois de salvar a cidade de um monstrão. Foram parar numa fazenda que ninguém tem ideia de onde fica, onde funciona uma força invisível que só os deixa ir de seu lar até a cidadezinha mais próxima. Eles sabem que não podem sair dali porque um deles tentou – e teve uma morte horrível. Dez anos depois, eles continuam na fazenda, ainda sem entender o que aconteceu.

Os heróis de Black Hammer são decalcados de figuras conhecidas para quem já deu uma espiada em gibis – ou nos filmes e desenhos animados – de super-herói. Abraham Slam era tipo um Capitão América. Barbalien é referência direta ao Caçador de Marte, o alien da Liga da Justiça que pode assumir qualquer forma. A Menina de Ouro é uma inversão dupla do Shazam, o garoto que se transformava em super-adulto com uma palavra mágica. Madame Libélula é daquelas figuras espectrais que servia de mestre de cerimônias em gibi de terror. Coronel Weird segue a moda Adam Strange, aventureiro espacial da DC Comics. E tem ainda Talky-Walky, uma robô inteligente da categoria genérica dos robôs inteligentes.

Some a cada um deles dez anos de frustração, a troca da antiga vida de aventuras pela existência bucólica, o mistério de sua condição e a morte do colega – cujo nome, macabramente, dá título à série – e você perceberá a nuvem de desesperança que paira sobre a trama. Quando entramos na história, porém, há algum sinal de que as coisas vão mudar…

O que se encontra de inovador em Black Hammer está justamente no conceito: super-heróis numa fazendinha. Por mais que os flashbacks mostrem as carreiras heroicas dos personagens – em pastiches dos estilos narrativos de gibis de várias épocas –, o presente deles é um tempo de tédio, de tempo morto, de vidinha cotidiana em que nada acontece. E a sensação de que não há nada a fazer porque uma barreira invisível (literalmente) não os deixa seguir com a vida.

Abraham Slam começa um romance com a garçonete do café local. Barbalien engata uma amizade com algo a mais com o pároco local (e faz a gente pensar se conceitos como homossexualidade ou bissexualidade se aplicam a um alienígena). Coronel Weird, pelo jeito, enlouqueceu – mas talvez já fosse louco.

A Menina de Ouro tem a história mais cruel: antes uma criança que ganhava superpoderes ao dizer sua palavra mágica, agora é uma mulher de 55 anos travada na versão infantil. Ela envelheceu, mas em Black Hammer não consegue voltar a sua forma original.

 

Menina de Ouro

Barbalien: O guerreiro de Marte

Madame Libélula

Abraham Slam

Coronel Weird

Jeff Lemire, que concebeu a série, tem uma carreira sui generis. Cresceu numa fazendinha no Canadá, formou-se em cinema e entrou para o mundo dos quadrinhos perto dos 30 anos. Hoje com 42, ele acumulou um currículo gigante: escreveu X-Men, Liga da Justiça, Wolverine, Homem-Animal, Arqueiro Verde, Gavião Arqueiro, John Constantine, Thanos e outros. Chegou a escrever oito revistas mensais simultaneamente – duas das quais ele desenhava. Também manteve uma carreira paralela aos super-heróis em HQs que tanto escreve quanto desenha, geralmente com personagens sem capas, garras ou raios, como Condado de Essex, Sweet Tooth, O Soldador Subaquático, Trillium, Nada a Perder e Royal City.

Lançada em 2016 nos EUA, Black Hammer ganhou o Prêmio Eisner de melhor série estreante no ano seguinte e concorre em cinco categorias no Eisner 2018 (os resultados serão anunciados em 20 de julho). A resposta positiva da crítica e dos leitores fez a série virar um universo: a revista mensal se encerrou e a narrativa foi desmembrada em minisséries com nomes de inspiração pulp, como Sherlock Frankenstein and the Legion of Evil, Doctor Star and the Kingdom of Lost Tomorrows. A Intrínseca já confirmou que vai lançar os dois próximos volumes: The Event e Age of Doom (ainda sem título em português definido).

Muitos esperam que aconteça com Black Hammer o que tem acontecido com todo gibi de sucesso: um bom contrato para virar filme ou série da Netflix. O que seria bastante irônico. Não há nada anunciado até o momento, e Lemire nem tem essa perspectiva de que sua criação é uma crítica aos gibis de heróis como fazendinha de Hollywood. Como escreve nos posfácio do primeiro volume, ele só quer escrever “histórias humanas e realistas sobre famílias e cidades pequenas”. Famílias e cidadezinhas com aliens, raios nos olhos, vacas a ordenhar e superdoses de depressão – como toda família, como toda cidadezinha.

Se interessou? Leia um trecho de Black Hammer: Origens secretas

Érico Assis é tradutor e jornalista especializado em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). 

 


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