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Como sobreviver em um quarto de hotel sem enlouquecer

14 / março / 2018

Por João Lourenço*

O interior do Hotel Metropol (Fonte)

Algo bacana que o jornalismo oferece é a oportunidade de ficar hospedado em quartos de hotéis pelo mundo. Muitos não curtem, eu sim. Sempre me senti confortável nesses lugares. Nenhum outro local é mais íntimo e perigoso. E, sei lá por que, acho que o isolamento desse ambiente evoca o melhor e o pior do ser humano.

Quartos de hotel têm história. Algumas, macabras. Michael Jackson pendurou o filho de 9 meses na sacada de uma suíte em Berlim. James Dean quase pulou do telhado do famoso Chateau Marmont, em Los Angeles — mesmo hotel que inspirou o longa Um lugar qualquer, de Sofia Coppola. Lendas e histórias não faltam. Há certo misticismo nesses lugares, uma aura de magia e urgência. E, para mim, é quase impossível não pensar na vida daqueles que se hospedaram no mesmo quarto que eu e em todos aqueles que ainda passarão por ali.

OK, estas são divagações de um viajante que “pensa demais”. Vamos logo ao que interessa.

Disse que curto quartos de hotel. Mas e se eu fosse obrigado a permanecer hospedado no quarto de um mesmo hotel pelo resto da vida? Será que continuaria curtindo? Foi essa pergunta que inspirou Amor Towles a escrever Um Cavalheiro em Moscou.

Na lista de mais vendidos do The New York Times há mais de um ano, o segundo livro do autor acompanha a vida de Aleksandr Ilitch Rostov, mais conhecido como “O Conde” pelos corredores do Hotel Metropol, famoso ponto de encontro de artistas, políticos e estrelas de cinema. Rostov sempre se hospedara nas melhores suítes. Mas depois de passar por um tribunal bolchevique, é condenado à prisão domiciliar e deve viver no pequeno sótão do hotel. Do tipo otimista, o Conde não muda de comportamento, mesmo com o revés. É um cavalheiro — cortês, gentil, culto — tentando sobreviver em uma sociedade pós-Revolução Russa, marcada por mudanças sociais e culturais, em que condes e czares saíam de cena para abrir passagem a generais e ditadores.

O convívio com Nina, menina de 9 anos, filha de um burocrata viúvo, começa a transformar a vida do Conde. É a menina quem lhe apresenta um Metropol que ele não conhecia, cheio de mistérios e passagens secretas. Em troca, o Conde compartilha com a garota sua sabedoria, e assim nasce uma amizade para a vida toda.

Além de Nina, o Conde conhece no Metropol pessoas vindas de vários lugares do mundo. Tem um caso com uma atriz famosa, dá aulas para um ex-coronel do Exército Vermelho — e é através desses e de outros personagens que circulam pelo hotel que o leitor, sem nem perceber, começa a entrar na complexa história da Rússia pré e pós Revolução.

Um dos maiores talentos de Amor Towles é criar personagens e narrativas que soam reais, de fácil identificação. Por mais estranha que possa parecer a amizade de um Conde com uma menina de 9 anos, jamais duvidamos dos relatos do autor. O segredo? Towles não faz pesquisas exaustivas para os livros que publica. Escreve como se estivesse relatando uma história para um amigo.

O processo criativo do autor funciona assim: só depois de finalizar o primeiro rascunho ele começa a pesquisa de datas e acontecimentos para inserir na narrativa. Essa técnica resulta em um tom fluido e realista. Seus livros são feitos de capítulos curtos e rápidos que, apesar de não oferecem grandes cliffhangers, mantêm a atenção do leitor. O vasto conhecimento de Towles sobre a Rússia e o Metropol, hotel onde se hospedou por diversas vezes, traz ao leitor uma perspectiva histórica diferente. “Em geral, nas décadas de 1910, 1920 e 1930, sinto que houve momentos de emoções palpáveis, de que algo profundo estava acontecendo no mundo das ideias e das artes. Se pudesse voltar no tempo, seria para essa época”, Towles revelou por e-mail.

Quando você lê Amor Towles, é difícil acreditar que ele passou mais de duas décadas trabalhando no mercado financeiro. “Ter uma carreira assim me permitiu escrever sem aquela sensação de urgência para ser publicado”, conta. “Entre histórias que abandonei e manuscritos que nunca tive coragem de compartilhar com ninguém, tive tempo suficiente para encontrar uma voz com que me identificasse”.

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

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Comentários

3 Respostas para “Como sobreviver em um quarto de hotel sem enlouquecer

  1. Já quero ler esse livro! Já vai entrar pra minha lista!

  2. Adoro as historias dessa epoca. Vou comprar o livro. Sugiro o Hotel da Place Vendome, muito interesante.

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