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Premiado romance italiano narra o resgate de memórias íntimas e delicadas

28 / fevereiro / 2018

Por Miguel Conde*

Pelas avenidas ruidosas e cinzentas de Milão, no final dos anos 1970, um casal se dirige de carro ao trabalho. O marido vai ao volante, a esposa se acomoda no banco do passageiro. No banco detrás levam o filho pequeno, também ele rumo a um compromisso, pois já chegou à idade de ir à escola.

O trajeto é longo, mas em alguns pontos do caminho assomam no horizonte imagens que afastam por breves momentos o aborrecimento do trânsito. Aqui e ali, uma das montanhas que circundam Milão aparece à distância, rasgo luminoso de branco contra o azul do céu, capturando os olhares e a imaginação do casal. A esposa pergunta ao marido os nomes de cada uma e de seus vilarejos, vales, refúgios. Ele responde com autoridade, puxando da memória designações que ficam gravadas na cabeça do menino: Grigna, Macugnaga, Alagna, Gressoney, Ayas. Esses nomes passam a povoar suas fantasias infantis, como promessas de um mundo distante e um tanto fantástico, em tudo diverso daquele de sua vida citadina.

Os devaneios se repetem e se acumulam com força crescente, até que um dia viram planos de férias e a família se lança em expedição àqueles picos, que lembram a remota região rural onde o casal se conhecera anos atrás. Esse impulso em que se misturam sonho e nostalgia, o desejo de fugir à rotina e o de recuperar qualquer coisa perdida no tempo, move a história do belo romance As oito montanhas, do escritor italiano Paolo Cognetti.

Desde as primeiras páginas, essa é uma história de encantamento e de busca espiritual por uma vida menos ordinária. Mas é também, como aos poucos percebe o leitor que se aventura pelo relato, uma história de sonhos desfeitos, do caminho de volta ao rés do chão após a subida vertiginosa aos pontos mais altos.

O narrador é Pietro, o garoto que acompanhava os pais no banco detrás do carro. Já adulto, ele constrói um relato em vários tempos, da recordação de suas primeiras idas à montanha com os pais até o momento em que se lança sozinho em suas próprias explorações por outros países. As oito montanhas tem um tanto de romance de formação, mas Pietro é um narrador econômico, fala pouco de si. Mais do que uma história de seu amadurecimento, Pietro cria um inventário de afetos, dos encontros que lhe tocam de maneira decisiva ao longo da vida. Sua recordação é atravessada, porém, de um sentimento elegíaco, como se essas lembranças fossem também uma espécie de despedida. Aquilo que é mais importante tem sempre algo de frágil e transitório, está a toda hora em vias de se desfazer.

Tão decisivo quanto os espaços da história, em suas incursões por vias distantes nas montanhas, é o sentido nela assumido pela passagem do tempo. Cognetti entrelaça com grande talento essas duas dimensões da trama, pois em seu romance a montanha é desde o início o espaço de um tempo passado, de um tempo de coisas abandonadas e perdidas, como será também o tempo das recordações de seu narrador.

A família de Pietro elege como base das explorações de férias o pequeno vilarejo de Grana, na ramificação de um vale nos arredores de Milão, “ignorado por quem passava ali como se fosse uma possibilidade irrelevante”. Quando chegam à casa alugada pela primeira vez, o pai diz ao filho: “Cresci num lugar assim.” De saída, isso já produz uma espécie de nostalgia em duplo registro — de Pietro, que recorda sua infância, e de seu pai, que parecia buscar ali um reencontro com a própria juventude.

Estimulado pela mãe, Pietro faz amizade com Bruno, criança de sua idade nascida ali e acostumada à vida na montanha. Guiado pelo amigo, explora os arredores e se depara por toda parte com casas e construções abandonadas, sinais de um antigo mundo rural que foi deixando de existir e está, àquela altura, já quase desaparecido. Aos olhos infantis, porém, a decadência é também promessa: as ruínas guardam mistérios, convidam à fantasia e à aventura. O espanto dessas explorações se encapsula no som estranho dos nomes dialetais de árvores, bichos, pedras e arbustos apresentados pelo amigo ao narrador: “brenga”, “arula”, “pezza”, “barma” e “berio”.

Se para Bruno o vale de Grana define os limites do mundo conhecido, um microcosmos que ele apresenta ao amigo da cidade grande e por extensão ao leitor, para o pai de Pietro ele é uma forma de fugir do mundo, do cartão de ponto, dos sinais de trânsito que regulam idas e vindas urbanas. Empenhado numa peregrinação sem fim de um cume a outro, ele tenta incutir no filho o amor às caminhadas em meio ao silêncio das geleiras que cobrem de branco o topo das montanhas.

Cognetti conta que As oito montanhas foi escrito após uma série de desilusões que o deixaram à beira da depressão. Uma delas foi a organização (fracassada) de um movimento político na periferia de Milão, que pretendia fazer frente às forças de direita na cidade, tradicional reduto de apoiadores de Silvio Berlusconi. Em vez de uma forma de desistência e de adeus ao mundo, porém, a ida para as montanhas assume no romance o sentido de uma busca por outras formas de vida. Para o leitor acossado pelas notificações incessantes do celular, os pensamentos embolados pela cacofonia das redes sociais, o ar puro e o silêncio das caminhadas que a obra descreve de maneira vívida e precisa têm apelo certeiro.

O livro recebeu o Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana, e valeu ao autor contratos de tradução em mais de 30 países, depois de leilões acirrados entre editoras de todas as partes do mundo. Ainda mais notável do que essa combinação de sucesso comercial e consagração crítica, porém, é o modo como Cognetti confere às aventuras de crianças e adultos pelas montanhas um discreto sentido político, como se nessas caminhadas em aparência triviais por rincões esquecidos houvesse uma espécie de resíduo utópico da busca (hoje tão desacreditada) por um mundo melhor.

*Miguel Conde  é jornalista e doutor em Letras pela PUC-Rio. É editor da seção de resenhas do site Words Without Borders e curador do Garimpo Clube do Livro.

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