Bastidores

Me chame pelo seu nome mostra como não estamos sozinhos

22 / fevereiro / 2018

Por Rodrigo Austregésilo*

Eu sabia que ler Me chame pelo seu nome, livro de André Aciman sobre a primeira paixão de um homem por outro, mexeria comigo. O livro causa uma identificação inegável para qualquer um que já se apaixonou. Mas se você é gay, toda essa assimilação transborda num leque maior de sentimentos. Nem todos positivos, mas todos incríveis.

Amar alguém do mesmo sexo vem, ao mesmo tempo, com dois tipos de emoção: a felicidade de se perceber inteiro e o luto.

Nossa capacidade de amar de todo o coração é o que nos posiciona no mundo. É o que nos faz acreditar que, como humanidade, somos diferentes, especiais, melhores. Amar nos engrandece, nos completa. Mas quando você é um homem que ama um homem, uma mulher que ama uma mulher, alguém que pode amar sem distinção de gênero, ou até mesmo que não se identifica com o gênero com o qual nasceu, o mundo não te vê assim. Nesse caso, o mundo faz você se sentir errado. Você não é especial por amar, até porque as pessoas não enxergam isso como amor. Você é sujo, promíscuo, pecador.

Assim, experimentamos duas noções paralelas: “Essa é a melhor coisa que eu já vivi” e “Estou morto”.

Me percebi diferente ainda criança. Havia um personagem em minha alma que eventualmente tomava o palco e remexia tudo em mim. Mas com 15 anos eu soube, sem chance de contestação: eu amo outro homem. Em Me chame pelo seu nome, Elio se pergunta quando exatamente constatou sua paixão. Tanto para ele quanto para mim, tudo estava se construindo muito antes, desde sempre, mas o golpe da consciência vem sem aviso. Seguido de “O que eu vou fazer?”.

No meu caso, decidi que mataria aquilo. Por anos, tentei esconder que era gay. Não havia a menor possibilidade de eu não ser o que esperavam de mim: o primeiro filho, o primeiro neto, o primeiro sobrinho homem. Aquele que casaria com uma mulher, teria uns três filhos galegos e morreria patriarca.

A sensação é de morte, de fato. É como se você fosse um inseto que alguém mantém agonizando sob o sapato, esmagando aos poucos. Não tem romantismo nisso. Só tristeza.

Em algum momento, entretanto, me dei conta de que lutar contra aquilo era uma batalha perdida. Eu morreria tentando, morreria infeliz. O mundo que apontava o dedo para mim seguiria impassível. Eu iria embora. Lutar contra o amor é desafiar sua essência. Como eu poderia me excluir de mim mesmo?

O que penso hoje é que meu eu adolescente merecia ter lido um livro como Me chame pelo seu nome. Toda pessoa LGBTQ+ merece saber que não está sozinha. Que não ama sozinha. Amar e ser correspondido, nessa hora, é saber que milhões pelo mundo também amam, vivem, sentem como você. E livros como o de André Aciman nos fazem sentir pertencimento.

Quando matei todos os meus demônios, notei que ser gay e fazer parte desse grupo gigantesco de pessoas é a melhor parcela de mim, porque é a minha essência. Se amar nos torna especiais, amar alguém do mesmo gênero e enfrentar tudo por isso nos torna divinos. Quando Elio finalmente se permite sentir e viver seu amor, descreve de forma impecável o sentimento. “Deste momento em diante… tive, como nunca antes, a nítida sensação de ter chegado a um lugar muito estimado, de querer aquilo para sempre, de ser eu, eu, eu, eu e mais ninguém, só eu (…) como se aquilo fizesse parte de mim a vida inteira”.

É isso. Eu nasci para amar dessa forma. Fui feito para isso. É minha iluminação. Minha missão. E eu não estou sozinho.

André Aciman remonta todos os sentimentos de amar uma pessoa do mesmo gênero com uma fidelidade quase cruel. Mas necessária. Merecemos livros como Me chame pelo seu nome. Merecemos não estar sozinhos. E, como cada ser humano que já pisou nessa Terra, merecemos a chance de ser feliz e exercer o melhor em nós.

*Rodrigo Austregésilo é publicitário, escritor, cantor em treinamento e mais orgulhoso de ser gay do que cabe numa bio nesse blog.

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Comentários

7 Respostas para “Me chame pelo seu nome mostra como não estamos sozinhos

  1. Matéria fantástica, me identifiquei em todo o texto. E também acredito que meu eu adolescente deveria ter um livro como Me chame pelo seu nome.

  2. Terminei o livro ontem, e ainda não assisti ao Filme, por estar esperando terminar a leitura primeiro. Conheci o livro através da publicidade da Editora no Instagram, e foi o primeiro livro que li com a temática LGBTQ+. Confesso que me identifico em número, gênero e grau, não apenas com a história do livro, mas especialmente com este seu texto incrível! Eu precisei copiar na minha Agenda (Diário) isso que você escreveu “Amar alguém do mesmo sexo vem, ao mesmo tempo, com dois tipos de emoção: a felicidade de se perceber inteiro e o luto”. Eu me aceitei só com 24 anos, quando dei meu primeiro beijo na vida. Eu esperava que negando minha homossexualidade conseguiria mortificá-la. Até que me vi entre tirar a “vida” e me aceitar. Eu julguei que melhor seria me aceitar e ver no que daria. Felizmente, algumas pessoas certas passaram por mim, me ajudaram a me conhecer melhor, mas também muita gente confusa, que, talvez por viver um dilema como o que eu vivia, acabava machucando, usando, sendo inconstante. Meu sonho é, algum dia, encontrar um Elio, que guarde por mim o amor que sente ao longo de muitos anos de sua vida. Mas, confesso que não quero ser um Oliver, que se nega, que abre mão do amor que sente, para viver um padrão de vida que o deixa num estado de “coma”. Enquanto não encontro (se é que algum dia vou encontrar) eu vou me bastando, me sentindo inteiro, mesmo que pareça faltar uma parte.
    Muito obrigado por esse texto.
    Um abraço!
    Douglas

  3. Assino embaixo, tive mesmos sentimentos o qual Rodrigo lindamente nos conta. Já nascemos gays, tão simples como lua que volta a brilhar a cada noite. E o amor que tanto temos ensinamos aos homofóbicos a aprender também, pois quando você ama e é amado, não tem tempo para criticar a vida alheia.

  4. Amei cada frase da matéria… Me fez refletir de uma maneira como nunca tinha feito… Parabéns ❤️😊

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