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Você se lembra da sua primeira paixão? Leia um trecho de Me chame pelo seu nome

12 / dezembro / 2017

A casa onde Elio passa os verões é um verdadeiro paraíso na costa italiana, parada certa de amigos, vizinhos, artistas e intelectuais de todos os lugares. Filho de um importante professor universitário, sua família hospeda um escritor diferente a cada verão. Uma cobiçada residência literária que já atraiu muitos nomes, mas nenhum deles como Oliver. Esse é o início de Me chame pelo seu nome, livro que inspirou um dos filmes mais elogiados do ano.

Imediatamente e sem perceber, Elio se encanta pelo americano de vinte e quatro anos, espontâneo e atraente. Por seis semanas, Oliver e Elio dormirão separados apenas por uma parede, compartilhando olhares, dúvidas e segredos. Em meio às lindas paisagens regadas a sol, praias e penhascos, os dois descobrem a beleza e a intensidade da primeira paixão, confusa, amedrontadora e profundamente atordoante. Uma experiência inesquecível, que os marcará para o resto da vida.

Com rara sensibilidade, André Aciman constrói um universo no qual se reconhecem as mais delicadas e brutais emoções da juventude. Uma narrativa magnética, inquieta e profundamente tocante.

Aclamado nos festivais de cinema de Berlim, Toronto e no Sundance, o filme homônimo foi indicado ao Globo de Ouro e é apontado como forte candidato a concorrer ao Oscar de melhor filme em 2018. A adaptação cinematográfica que estreia dia 18 de janeiro no Brasil foi dirigida pelo italiano Luca Guadagnino e tem sido comparada com O segredo de Brokeback Mountain. O livro já está em pré-venda e chegará às livrarias a partir do dia 5 de janeiro.

 

 

Leia um trecho:

 

“Até depois!”

As palavras, a voz, a atitude.

Eu nunca tinha ouvido alguém dizer “até depois” para se despedir. Parecia brusco, seco, desdenhoso, pronunciado com a indiferença velada de uma pessoa que talvez não se importe se vai revê-lo ou saber de você novamente.

É a primeira lembrança que tenho dele, e parece que ainda hoje consigo ouvi-lo. “Até depois!”

Fecho os olhos, pronuncio as palavras e estou de volta à Itália, tantos anos atrás, descendo a entrada arborizada, observando-o sair do táxi com uma camisa azul esvoaçante, o colarinho bem aberto, óculos escuros, chapéu de palha, muita pele à mostra. De repente ele está apertando minha mão, me entregando sua mochila, tirando a bagagem do porta-malas do táxi, perguntando se meu pai está em casa.

Poderia ter começado bem ali, naquele momento: a camisa, as mangas arregaçadas, os calcanhares escapando das alpargatas desgastadas, ansiosos para tocar o caminho de cascalho quente que levava à nossa casa, cada passo como se já perguntasse: Para onde fica a praia?

O hóspede da vez. Mais um chato.

Então, quase sem pensar, e já de costas para o carro, ele acena com a mão livre e solta um Até depois! desatento para o outro passageiro, com quem provavelmente dividiu a corrida ao sair da estação. Sem dizer seu nome, sem fazer uma gracinha que suavizasse o incômodo da parada, nada. A despedida típica dele: rápida, ousada e direta — pode escolher o adjetivo, para ele tanto faz.

Pode esperar, pensei, é exatamente assim que ele vai se despedir de nós quando for embora. Com um Até depois! abrupto e despreocupado.

Até lá, nós teríamos que suportá-lo durante seis longas semanas.

Fiquei totalmente intimidado. Ele era do tipo inacessível. Talvez eu fosse gostar dele. Do queixo aos calcanhares. Então, em alguns dias, aprenderia a odiá-lo. O mesmo homem cuja foto no formulário de inscrição havia se destacado meses antes com promessas de afinidade imediata.

Receber hóspedes no verão era o modo como meus pais ajudavam jovens escritores a revisar um manuscrito antes da publicação. Por seis semanas, todo verão, eu tinha que desocupar meu quarto e me mudar para o quarto ao lado no corredor, muito menor, que um dia pertencera ao meu avô. Durante os meses de inverno, quando estávamos na cidade, aquele cômodo temporariamente virava um quartinho de ferramentas, depósito e sótão onde, diziam, meu avô, meu homônimo, ainda rangia os dentes no sono eterno. Os hóspedes de verão não precisavam pagar nada, podiam usufruir de toda a casa e praticamente fazer tudo o que quisessem, desde que passassem por volta de uma hora por dia ajudando meu pai com sua correspondência e papelada em geral. Eles se tornavam parte da família e, depois de quinze anos fazendo isso, tínhamos nos acostumado à enxurrada de cartões-postais e presentes que recebíamos não só perto do Natal, mas durante todo o ano, enviados por pessoas leais a nós e que, quando estavam na Europa, saíam de seu caminho o quanto fosse preciso para passar um ou dois dias em B. com a própria família e fazer uma visita nostálgica ao velho alojamento.

Durante as refeições, sempre havia mais dois ou três convidados, às vezes vizinhos ou parentes, às vezes colegas, advogados, médicos, os ricos e famosos que davam uma passada para ver meu pai a caminho de suas casas de veraneio. Às vezes até abríamos a sala de jantar para um ou outro casal de turistas que tinha ouvido falar da antiga villa e queria apenas entrar para dar uma olhada. Pessoas que ficavam encantadas quando as convidávamos para comer conosco e lhes pedíamos que nos contassem tudo a seu respeito. Mafalda, avisada em cima da hora, era obrigada a redistribuir a comida. Meu pai, reservado e tímido, amava ter um especialista precoce de qualquer área que mantivesse a conversa fluindo em algumas línguas, enquanto o sol quente de verão, depois de algumas taças de rosatello, trazia a inevitável sonolência da tarde. Chamávamos a tarefa de labuta prandial — e, depois de um tempo, a maioria dos nossos hóspedes também.

Pode ser que tenha começado logo que ele chegou, durante um daqueles almoços tediosos, quando sentou-se ao meu lado e finalmente percebi que, apesar do leve bronzeado adquirido durante a breve estadia na Sicília no início do verão, as palmas de suas mãos tinham a mesma cor da pele clara e macia da sola de seus pés, de seu pescoço e da parte interna dos antebraços, que praticamente não haviam sido expostos ao sol. Quase um rosa-claro, a pele reluzente e macia como a barriga de um lagarto. Íntima, pura, intocada, como o rosto corado de um atleta ou a insinuação do alvorecer em uma noite de tempestade. Dizia coisas sobre ele que eu jamais pensaria em perguntar.

Pode ser que tenha começado durante aquelas horas intermináveis depois do almoço, quando todos ficavam à toa dentro e fora da casa usando roupas de banho, corpos esparramados por toda parte, matando o tempo à espera de que alguém finalmente sugerisse que fôssemos até as pedras dar um mergulho. Parentes, primos, vizinhos, amigos, amigos de amigos, colegas ou qualquer pessoa que aparecesse no portão perguntando se podia usar nossa quadra de tênis — todos eram bem-vindos para relaxar, nadar e comer e, se ficassem tempo suficiente, usar a casa de hóspedes.

Ou talvez tenha começado na praia. Ou na quadra de tênis. Ou durante a primeira caminhada juntos no primeiro dia, quando pediram que eu lhe mostrasse a casa e os arredores e — uma coisa levou à outra — consegui levá-lo para além do antigo portão de ferro fundido e do interminável terreno baldio em direção aos trilhos abandonados que costumavam ligar B. a N.

— Tem alguma estação de trem abandonada por aqui? — perguntou ele, olhando através das árvores sob o sol escaldante, provavelmente tentando fazer a pergunta certa para o filho do proprietário.

— Não, nunca teve estação aqui. O trem simplesmente parava quando as pessoas pediam.

Ele estava curioso a respeito do trem; os trilhos eram muito estreitos. Era um trem de dois vagões com a insígnia real, expliquei. Mas, desde a época em que minha mãe passava o verão na cidade quando jovem, a estrutura servia de casa para alguns ciganos. Eles haviam levado os dois vagões descarrilhados mais para longe da praia. Ele queria vê-los?

— Depois, talvez.

Uma indiferença cortês, como se tivesse percebido minha preocupação despropositada em agradá-lo e estivesse me dispensando de imediato.

Só que me afetou.

Em vez de ir ver o trem, ele queria abrir uma conta em um dos bancos de B., e depois visitar a tradutora italiana que sua editora na Itália tinha contratado para seu livro.

Decidi levá-lo de bicicleta.

A conversa sobre duas rodas não foi melhor do que a pé. No caminho, paramos para beber alguma coisa. O bar-tabacaria estava totalmente escuro e vazio. O dono limpava o chão com um produto que exalava um forte cheiro de amônia. Saímos o quanto antes. Um melro-preto solitário, empoleirado em um pinheiro mediterrâneo, cantou algumas notas que foram logo abafadas pelo canto das cigarras.

Tomei um bom gole de uma garrafa grande de água mineral, passei a garrafa para ele e depois dei mais um gole. Derramei um pouco de água nas mãos e esfreguei o rosto, passando os dedos molhados no cabelo. A água não estava gelada nem gaseificada o suficiente, deixando uma sensação de sede não saciada.

O que as pessoas fazem por essas bandas?

Nada. Esperam o verão acabar.

O que as pessoas fazem no inverno, então?

Ri da resposta que estava prestes a dar. Ele captou o espírito da coisa e disse:

— Não me diga… Esperam o verão chegar, certo?

Eu gostava quando liam meus pensamentos. Ele se acostumou à labuta prandial mais rápido do que os hóspedes anteriores.

— Na verdade, no inverno fica tudo muito cinza e escuro.

A gente vem no Natal. Fora isso, é uma cidade fantasma.

— E o que mais vocês fazem no Natal por aqui além de torrar castanha e beber gemada?

Ele estava fazendo piada. Ofereci o mesmo sorriso de antes. Ele entendeu, não disse nada, nós rimos.

Perguntou o que eu fazia. Eu jogava tênis. Nadava. Saía à noite. Corria. Transcrevia músicas. Lia.

Ele disse que também corria. Logo cedo. Onde as pessoas costumavam correr?

No calçadão, principalmente. Eu podia levá-lo até lá, se quisesse.

A resposta me atingiu em cheio, bem quando eu estava começando a gostar dele:

— Depois, talvez.

Eu tinha deixado a leitura por último em minha lista, pensando que, pela atitude deliberada e insolente que vinha demonstrando até o momento, seria a última na dele. Horas depois, ao descobrir que ele tinha acabado de escrever um livro sobre Heráclito e que a “leitura” provavelmente não era algo insignificante em sua vida, percebi que precisava voltar atrás de um jeito inteligente e insinuar que meus reais interesses correspondiam aos dele. O que me inquietou, no entanto, não foi a manobra sofisticada necessária para me redimir. Foi a incômoda desconfiança que senti ao finalmente perceber, tanto ali como na conversa despreocupada perto dos trilhos do trem, que o tempo todo, sem que parecesse, sem nem mesmo admitir, eu já estava tentando — sem sucesso — conquistá-lo.

Quando me ofereci — porque todos os visitantes amavam a ideia — para levá-lo à igreja de São Tiago e subir até o topo do campanário que apelidamos de “de morrer”, eu devia ter pensado antes em uma resposta à altura. Pensei que conseguiria convencê-lo apenas levando-o lá e deixando que assimilasse a vista da cidade, do mar, da eternidade. Só que não. Depois!

Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi? Você se pergunta. Sei reconhecer o desejo — desta vez, no entanto, tinha passado completamente despercebido. Eu me saía com meu sorriso misterioso, que fazia o rosto dele se iluminar toda vez que lia meus pensamentos, mas tudo o que eu queria era pele, apenas pele. 

Assista ao trailer do filme inspirado em Me chame pelo seu nome

 

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Comentários

3 Respostas para “Você se lembra da sua primeira paixão? Leia um trecho de Me chame pelo seu nome

  1. Eu assisti o filme há 3 dias e não consigo deixar de pensar nele. Uma verdadeira obra de arte que conseguiu tocar a minha alma. Cheio de sutilezas e ao mesmo tempo de uma beleza ímpar. O jovem ator consegue trans parecer num olhar mais de mil palavras não ditas.

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