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Mulheres sem nome: a história por trás da História

1 / dezembro / 2017

Por Fabiane Pereira*

Mulheres sem nome é inspirado em (duas) histórias reais vividas no período da Segunda Guerra Mundial. Martha Hall Kelly passou vários anos pesquisando e viajando pela Alemanha, França e Estados Unidos para entender esse universo sombrio — e carregado de lembranças — da vida de mulheres que se encontraram no único campo de concentração feminino Ravensbrück, na Alemanha.

Antes de ler pensei que seria mais um livro sobre os (absurdos) atentados contra a humanidade comandados por Hitler, entre o final da década de 1930 e o início da década de 1940, mas Mulheres sem nome é um livro interessantíssimo, costurado por fatos históricos e personagens femininas empoderadas numa época em que empoderamento passava longe da teoria, mas era prática diária e garantia de sobrevivência.

Estamos acostumadas a ler a história das guerras sob a ótica masculina, mas, neste romance, a autora opta por uma narrativa carregada de detalhes nem um pouco piegas protagonizada por três mulheres num dos (recentes) momentos inexplicáveis da história — o cenário é o regime totalitário alemão, cujas atrocidades jamais encontraram justificativas —, e como a Segunda Guerra Mundial afetou diretamente a vida delas.  

A socialite nova-iorquina Caroline Ferriday está sobrecarregada de trabalho no Consulado da França, em função da iminência da guerra. O ano é 1939 e o Exército de Hitler acaba de invadir a Polônia, onde Kasia Kuzmerick vai deixando para trás a tranquilidade da infância conforme se envolve cada vez mais com o movimento de resistência de seu país. Distante das duas, a ambiciosa Herta Oberheuser tem a oportunidade de se libertar de uma vida desoladora e abraçar o sonho de se tornar médica-cirurgiã, a serviço da Alemanha. A história das três se cruzam no campo de concentração feminino de Ravensbrücke, de forma controversa em alguns casos, todas realizam seus desejos mais íntimos pela persistência.

Sabemos tão pouco sobre as mulheres que vieram antes de nós… A história é predominantemente masculina, por isso livros como Mulheres sem nome ajudam a preencher esta lacuna. Mas não pense que a leitura é fácil. Martha Hall Kelly não poupa detalhes nem ameniza algumas passagens estarrecedoras e isso acaba por nos remeter a imagens terríveis. Sabiamente, a autora estruturou o livro em capítulos narrados por cada uma das três protagonistas, o que permite que o leitor no auge do incômodo respire ao entrar em algum momento mais “leve” da vida de outra personagem.

Caroline Ferriday é o respiro a que me refiro acima. Suas angústias giram em torno do desejo de amar e ser correspondida — e isso a torna mais próxima dos leitores. “Desisti dos homens, Roger — declarei. Aos trinta e sete anos, havia me resignado a permanecer solteira“, diz Caroline logo no início do livro. Sua vida é marcada pela filantropia (ela ajuda franceses desalojados, refugiados europeus em busca de asilo e tem um Fundo para Famílias Francesas que auxilia órfãos que se perderam dos pais por qualquer razão) e pela paixão por Paul Rodierre, um ator judeu, francês e casado, que corresponde aos seus sentimentos, porém a guerra os separa por um longo período.

Mulheres sem nome

Inspirado em personagens reais da Segunda Guerra Mundial, "Mulheres sem nome" conta a história de três mulheres que foram esquecidas pelo tempo.Leia um trecho: http://bit.ly/2mnX1G9

Posted by Editora Intrínseca on Friday, November 24, 2017

 

Já Kasia Kuzmerick era uma adolescente apaixonada por Pietrik Baroski quando teve a juventude suspensa e os sonhos adiados por causa da guerra. Capturada como “espiã” pelos nazistas, viu sua vida e a vida de sua mãe e irmã mudarem completamente ao chegarem em Ravensbrück. As passagens de Kasia são as mais difíceis de serem digeridas pelo leitor. “Éramos como moscas presas no mel, vivas mas sem viver de fato“, diz em um dos momentos delicados do livro. Em outro, narra a forma como foi recebida no campo de concentração: “recolheram o que trazia comigo: um lenço, meu relógio, aspirina, os últimos vestígios de uma vida normal. E ainda raspou minha cabeça de modo indelicado.” E continua: “agiu sem nenhuma consideração com o fato de que eu era jovem e ela estava me violando de maneira irreversível. Tive pouco tempo para lamentar.” Talvez não tenham sido os sonhos o que a fez persistir, mas o ódio que passou a nutrir dentro de si. “Em certos dias, o ódio era a única coisa que me fazia seguir adiante“, conta.

Kasia foi transformada, contra sua vontade, numa “Coelha” devido aos experimentos da médica Herta Oberheuser, que servia ao Exército alemão. A Dra. Oberheuser chamava todas as mulheres de cobaias experimentais de Króliki, coelha em polonês. Essas mulheres — na verdade, jovens entre 15 e 20 anos que haviam sido presas por violarem regras de Hitler — eram vítimas de experiências com sulfonamida. Kasia e as muitas mulheres foram operadas como parte de uma complexa série de experiências médicas que replicava ferimentos traumáticos. A equipe comandada pela Dra. Oberheuser aplicava culturas de bactérias aos ferimentos para provocar gangrena gasosa, então administraram sulfa em algumas para provar uma teoria científica. O fato é várias se tornaram mancas e/ou aleijadas e pulavam pelo campo para poderem se locomover, daí serem chamadas de Coelhas.

Herta era uma mulher cujos princípios éticos tangenciavam a servidão inquestionável ao Estado alemão. “Era triste ver os bens de alguém serem levados daquela maneira, mas os judeus haviam sido alertados. Eles sabiam quais eram as exigências do Führer. Aquilo era lamentável, mas não era novidade, e era pelo bem da Alemanha“, comenta em um dos momentos que nos faz questionar como foi possível toda uma nação se enganar e concordar com o totalitarismo de Hitler. ” Hitler é a nossa esperança. Em pouco tempo, ele nos livrou das favelas. E precisa dominar. A Alemanha não pode prosperar sem ter para onde expandir. Ninguém devolverá as terras que perdemos“, acreditou Herta e outros milhares que embasaram as atrocidades cometidas pelo ditador alemão.

Há uma passagem de tempo, a guerra chega ao fim e a esperança volta a ter espaço na vida dessas mulheres que só sobreviveram graças a sororidade, conceito que naquela época nem sequer existia. Por terem umas às outras — sejam como amigas, irmãs ou na relação entre mãe e filha — como exemplos de coragem, as relações afetivas se fortaleceram a ponto de serem molas propulsoras de sobrevivência.

Mulheres sem nome é um livro feminista mesmo sem ter a pretensão de sê-lo. É uma história forte que nos faz agradecer o momento em que vivemos — por mais difícil que esteja sendo 2017 — e nos dá forças para lutar contra tudo aquilo que nos limita como ser humano. É um livraço! É a história por trás da História.

*Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.

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Comentários

2 Respostas para “Mulheres sem nome: a história por trás da História

  1. Fiquei curiosa e comovida. Vou comprar e desejo sentir mais do que emoção, necessito sentir o som da alma dessas mulheres, que conduziram suas vidas em busca de vida.

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