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A coragem de existir num mundo que não me quer

26 / dezembro / 2017

Por Tales Avellar*

No dia em que a minha psicóloga me perguntou se eu tinha disforia de gênero, respondi com firmeza que não. Eu havia chegado ao consultório abalado, falando sem parar de um livro, mas achava que a leitura tinha mexido comigo por outras questões: transtornos mentais, infância solitária, dificuldade de me encaixar. Eu não era trans. Ponto final.

Apenas uma garota foi o primeiro livro com uma protagonista transgênero que já vi em uma livraria. Quando me sentei para folhear, me convenci de que havia me interessado apenas por simpatizar com causa a LGBT, já que, no ano anterior, eu tinha assumido sentir mais do que amizade por meninas. Cada parágrafo parecia arrancar um pedaço de mim, mas repeti que isso não significava nada. Afinal, a história de Amanda Hardy, uma adolescente que, depois de ser vítima de bullying, muda de cidade e tenta esconder sua antiga identidade, toca em aflições universais, e a escrita poderosíssima de Meredith Russo abala qualquer um que já sofreu rejeição por ser quem é.

Mas o que aconteceu quando voltei para casa naquela noite foi mais difícil de ignorar. Com os nervos à flor da pele, de repente me dei conta de uma série de sensações que costumava reprimir, como tendemos a fazer com o que não conseguimos explicar. Eu me vi em gestos simples como ajeitar toda hora o capuz, encolher o corpo contra o vento que marca a blusa, lidar com os olhares estranhos das pessoas e a ansiedade de ser visto como um menino.

Podia repetir o quanto quisesse que era apenas medo de assédio, um risco muito real, mas algo ainda não se encaixava. Não fazia muito tempo, depois de renovar todo o guarda-roupa, eu tinha começado a sentir que o meu corpo se tornava sólido, e achei que essa mudança seria o suficiente. Mas, mesmo perto de meninas que se vestiam feito eu, sentia uma pontada terrível no coração, uma suspeita apavorante de que algo ainda me separava delas. Havia finalmente conseguido um espaço para ser diferente – mas talvez fosse diferente até dentro dessa bolha. E isso eu não queria, não podia ser.

Foram meses até entrar no consultório e lutar por quase um minuto para murmurar as palavras:

– Lembra aquele livro? Acho que você estava certa. Eu sou trans.

Às vezes, simplesmente falar é um ato gigantesco. Eu me vi na Amanda por sentir a sombra de quem eu deveria ser pairando sobre mim a vida inteira, me sufocando, dando a impressão de que eu não era mais do que um fantasma. Eu me vi nela por acreditar por muito, muito tempo que precisava esconder partes essenciais minhas, me filtrar constantemente, ou ninguém conseguiria gostar de mim. Por isso, senti um impacto profundo quando a personagem conclui que é melhor ser autêntica e correr o risco de perder quem ama do que ter uma vida pela metade. Ninguém pode viver em função de ser aceito pelos outros.

Como a própria autora ressalta em uma nota ao final do livro, Apenas uma garota está longe de ser a história trans universal. Eu, pessoalmente, nunca pedi para o Papai Noel para ser menino, não me sinto nada “masculino” e nem mesmo exatamente homem, então não foi simples me encaixar ali. A diferença entre se sentir uma menina e um menino feminino é muito sutil, mas coloca vidas em jogo. Por isso é tão importante que essas histórias sejam contadas. Assim, as pessoas podem se identificar com alguém que até então parecia tão diferente delas. Ou, como eu, sentir o coraçãozinho dilacerado e, pela primeira vez, se reconhecer. Enfim enxergar uma possibilidade de vida, pois antes nunca nos deram nenhuma. E, com um pouco de sorte, perceber que ser você nunca vai ser errado.

Para quem ainda não conhece, Apenas uma garota é a história de Amanda Hardy, uma adolescente que, após uma cruel agressão, se muda de cidade e de colégio. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. Só que nesse novo lugar ninguém sabe que ela é trans. E, embora acredite que a mudança trará um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros.  Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação. A história foi parcialmente inspirada nas experiências da autora, Meredith Russo, que passou a viver de acordo com a sua identidade em 2013

Tales Avellar é autista, trans não binário e cheirador de livros em tempo integral. Aspirante a escritor e revisor, sente que está vivendo o auge de sua vida por ter um texto publicado no blog da Intrínseca.

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