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Espelho, espelho meu: existe alguém mais ferrado do que eu?

29 / novembro / 2017

Estreia da atriz Cara Delevingne na literatura, Jogo de espelhos é um romance reconfortante e inspirador

Por Pedro Martins*

É cada vez mais difícil encontrar histórias jovens que não pequem pela mesmice. Felizmente, não é o caso de Jogo de espelhos, romance de estreia da atriz Cara Delevingne em parceria com a escritora Rowan Coleman, que retratam a adolescência por uma lente genuína e inspiradora.

Ser jovem não é fácil. Muitos esquecem, mas trata-se de um período em que olhar para o espelho e se sentir bem chega a ser questão de sorte. Afinal, na maioria das vezes, aquele reflexo nem sequer lhe representa. É só uma farsa; um escudo cuidadosamente projetado, construído e reformado a cada dia. É compreensível que muitos prefiram fechar as cortinas para se manter a salvo da crueldade do mundo.

Mas este não é o caso de Naomi, Rose, Leo e Red, que são obrigados a formar uma banda para um projeto escolar e, por ironia do destino, chegam ao sucesso. Tão diferentes entre si, através da música eles encontram um caminho para enfrentar seus problemas: a amizade.

No entanto, tudo desmorona quando Naomi desaparece misteriosamente e, semanas depois, é encontrada entre a vida e a morte no rio Tâmisa. Em coma, ela não pode revelar aos amigos e aos familiares seus porquês. Todos sabem que Naomi costumava fugir de casa, mas dessa vez foi diferente. A dúvida que paira no ar é: teria sido uma tentativa de suicídio ou um ataque?

Premissa parecida com a de Cidades de Papel, certo? Errado! As motivações para os sumiços de Margo e Naomi não têm nada em comum. Enquanto John Green se propõe a contar uma história despretensiosa e poética de amor juvenil, Delevingne vai de alcoolismo a transtornos mentais. Suas metáforas, poucas e certeiras, não romantizam as situações.

Profunda em sua leveza, a escrita de Cara e Rowan empresta grande verdade à história. No ritmo da própria adolescência, os diálogos e os dilemas saltam às páginas, fazendo a trama avançar em tom de urgência. Apesar de não impressionar, o enredo investigativo tampouco decepciona, entrelaçando-se com o que há de melhor no livro: os personagens. Com suas explosões emocionais, Red, Leo e Rose em poucas páginas despertam empatia do leitor e tornam a história encantadora – mesmo que de maneira angustiante.

Em Jogo de espelhos há pouco espaço para o riso. Faz sentido: na juventude, não são raros os momentos que vivemos mergulhados no medo e no suspense. E isso de forma alguma torna o livro chato. Pelo contrário: através da escrita, Delevingne encontrou o caminho para a empatia, sentimento que tanto falta ao que a indústria do entretenimento tem produzido.

Alcoolismo, drogas, conflitos de sexualidade, ausência paterna, abusos, bullying, depressão… As figuras carimbadas do universo adolescente estão por toda a trama, mas escritas sob um olhar fresco que as afasta do clichê. Delevingne definitivamente não está preocupada em cumprir a check-list da duramente criticada geração mimimi. Nada soa forçado ou está para uma falsa militância. Acima de tudo, Jogo de espelhos traz conforto e inspiração àqueles que se sentem perdidos – para quem Cara dedica o livro.

*Pedro Martins descobriu a magia da leitura aos oito anos por meio dos livros de J.K. Rowling. Essa paixão o levou a ser gerente de conteúdo do Potterish.com e o empurrou em direção ao jornalismo, possibilitando-o escrever sobre literatura para diversos portais, do britânico The Guardian ao brasileiro Omelete.

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