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Mindhunter: em livro e na TV, a mente de um caçador de serial killers

20 / outubro / 2017

Por Marco Barbosa*

Quase 40 anos se passaram, mas o caso dos assassinatos de crianças em Atlanta, acontecidos entre 1979 e 1981, ainda assombra o imaginário de muita gente nos Estados Unidos. Foram confirmadas 30 vítimas; 24 eram menores de idade, entre elas uma menina de 7 anos e três garotos de 9. Facadas, estrangulamentos, tiros. A série de crimes ganhou notoriedade internacional, motivou campanhas humanitárias e foi retratada em filmes de ficção e documentários. E também representou a primeira oportunidade de exposição pública para o agente especial John E. Douglas: o investigador que revolucionou o método de rastreamento e captura de assassinos seriais do Bureau Federal de Investigações, o FBI.

“Tudo começou silenciosamente um ano e meio antes, de maneira quase imperceptível. Antes de terminar — se é que realmente terminou —, essa perseguição se tornou a maior e possivelmente mais difundida da história dos Estados Unidos, politizando uma cidade inteira e polarizando todo o país, com cada etapa da investigação mergulhada em polêmica”, conta Douglas em Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano, escrito em parceria com Mark Olshaker. No livro que inspirou a nova série da Netflix, Douglas emprega uma calculada mescla de suspense policial e realismo brutal (com uma ou outra lição fisgada de Truman Capote, Vincent Bugliosi e outros experts no gênero true crime), com um resultado inquietante.

Estudante medíocre, reservista da Força Aérea, bom nos esportes, a vida de Douglas começou a mudar em 1970, quando foi convencido a tentar uma vaga no FBI. Ele sempre teve um dom inato para, através de uma observação cuidadosa, prever atitudes e entender as motivações das pessoas. Ao aplicar essa capacidade sobre o que aprendeu na Unidade de Ciência Comportamental do FBI, já em meados da década de 1970, desenvolveu técnicas — praticamente — infalíveis para identificar suspeitos e determinar padrões de comportamento de criminosos.

 

Chamado para colaborar no caso das mortes em Atlanta, cravou: o criminoso é um jovem negro, dono de um pastor-alemão, provavelmente ex-policial ou segurança particular. Wayne B. Williams, negro, 21 anos, foi preso em junho de 1981. Ele era obcecado por procedimentos policiais e possuía um pastor-alemão. Não admitiu os crimes, mas foi condenado à prisão perpétua por conta do grande volume de provas contra ele, como testemunhas e fios de cabelo e fibras de tecido deixadas nas cenas dos crimes.

Não havia mágica nas deduções de Douglas. Havia método. Como o próprio descreve, em uma cena passada ainda no começo de sua carreira: “Havia algo inerente e profundo no psiquismo de um criminoso que o levava a fazer as coisas de determinada maneira. Mais tarde, quando comecei a estudar a mente e as motivações de assassinos em série, e depois, quando passei a analisar cenas de crimes à procura de pistas comportamentais, sempre procurava por aquele elemento isolado ou o conjunto de elementos que levavam o crime e o criminoso a se destacarem do resto, que representava aquilo que ele era.”

No posto de instrutor de Ciência Comportamental (que, na década de 1970, era uma disciplina desacreditada pelos investigadores veteranos), o agente resolveu encarar os criminosos cujos casos eram citados no material didático. “A maioria desses caras sobre quem discutíamos nas aulas ainda estavam vivos, e a maioria passaria o resto da vida na cadeia. A gente poderia ver se conseguia falar com eles; perguntar por que haviam cometido aqueles crimes, descobrir como havia sido a experiência através dos seus olhos. Poderíamos pelo menos tentar. Não importava se ia funcionar ou não.”

Funcionou. Douglas conversou com assassinos de políticos, maníacos sexuais e torturadores seriais — chegou mesmo a visitar Charles Manson, na prisão de segurança máxima Alcatraz, na Califórnia. Ao final da década, o agente já se tornara especialista em análises de perfis de criminosos a partir de evidências, organizando o conhecimento acumulado e suas experiências pessoais. “E, durante esse período, a análise criminal investigativa entrou na era moderna”, descreve ele, sem falsa modéstia. “O que tento fazer em cada caso é absorver todas as provas com as quais posso trabalhar, como os relatos de caso, as fotos e descrições da cena do crime, os depoimentos das vítimas ou protocolos da autópsia, e depois entrar de forma mental e emocional na cabeça do criminoso.”

Os crimes relatados em Mindhunter impressionam sobretudo porque, como costuma acontecer com assassinos em série, o criminoso pode ser um amigo, um parente, um vizinho… E, sem a capacidade de Douglas, nunca perceberíamos por conta própria.

 

Como o caso de Robert Hansen, um padeiro e caçador amador do Alasca que se cansou de atirar em ursos e passou a alvejar prostitutas (“Eram crimes de ódio. Ele se excitava ao ver suas vítimas implorando pela vida”). Ou do boa-praça George Russell Jr., sujeito popular e charmoso, e também culpado pelo espancamento e estrangulamento de três mulheres em menos de um ano (“Não era o tipo de pessoa que imaginaríamos cometendo esses assassinatos terríveis”). Em outras ocorrências, paciência e análises meticulosas — que poderiam se estender por anos — afinal levavam à captura do matador. Foi assim com o assassinato de Karla Brown, bela jovem de uma cidadezinha do estado americano de Illinois, cujo culpado só foi preso quatro anos depois.

Parece coisa de cinema? Não é, mas acabou se transformando. Douglas foi a inspiração para Jack Crawford, agente ficcional do FBI criado pelo escritor Thomas Harris para sua série de livros sobre o matador canibal Hannibal Lecter. Na tela grande, Crawford foi interpretado por Dennis Farina, em Manhunter, de 1987; Scott Glenn, no multipremiado O Silêncio dos Inocentes, de 1991; e por Harvey Keitel em Dragão Vermelho, de 2002.

Na TV, uma adaptação direta de Mindhunter estreou nesse mês de outubro na Netflix. No comando da série, alguém que, como Douglas, entende de serial killers: David Fincher, diretor de Seven – Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco. O seriado condensa o universo sombrio do livro em uma narrativa bem amarrada, dividindo o protagonismo entre dois agentes: o novato Holden Ford (Jonathan Groff) e o veterano Bill Tench (Holt McCallany). A primeira temporada recria as jornadas que Douglas fez de prisão em prisão, entrevistando maníacos, e mostra a dupla de federais aplicando na prática as lições aprendidas. A reconstituição de época — a década de 1970 — e as ótimas performances tornam ainda mais palpáveis as investigações narradas por Douglas.

Leitura recomendada a fãs de seriados com C.S.I. e filmes de serial killers, Mindhunter também é indicado a qualquer apreciador de boa ficção policial. Com um acréscimo: os arrepios gerados pelas narrativas são mais agudos, por se tratar de histórias reais…  Douglas, que depois de se aposentar do FBI recomeçou a vida como consultor jurídico e investigativo, ainda se assusta com as próprias recordações.  Mas é preciso encará-las. “Como um homem desse poderia fazer algo tão terrível? Deve haver algum engano ou agravante. É isso que você dirá a si mesmo caso converse com alguns deles; não há como compreender inteiramente a enormidade dos crimes que eles cometeram (…) Se quiser compreender um artista, olhe para sua obra. É isso que sempre falo para o meu pessoal. Não há como afirmar que você compreende e aprecia Picasso sem estudar suas pinturas.”

>> Leia um trecho de Mindhunter

 

Marco Antonio Barbosa é jornalista desde 1996. Passou pelas redações de Jornal do BrasilExtraVeja Rio e Globo.com, escrevendo sobre cultura, mídia e comportamento. Hoje publica textos inéditos em https://medium.com/telhado-de-vidro.

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