Entrevistas

Crimes de paixão: a construção de Por trás de seus olhos

14 / setembro / 2017

Entrevistamos a autora de Por trás de seus olhos, o livro mais surpreendente do ano.

Por André de Leones*

 

Sarah Pinborough

Jornalistas adoram rótulos. Ainda que Rebecca, romance de Daphne Du Maurier, tenha sido lançado em 1938 (e adaptado para o cinema dois anos depois por ninguém menos que Alfred Hitchcock, em um longa que faturou o Oscar de Melhor Filme), deram um jeito de apelidar os recentes thrillers psicológicos, narrados por personagens femininas nada confiáveis e coroados por reviravoltas incríveis, de Grip-Lit (ou gripping psychological thrillers). É onde se encaixam obras como Garota exemplar, de Gillian Flynn, e Por trás de seus olhos, romance de Sarah Pinborough que vem cativando muito leitor calejado com sua narrativa escorregadia, cujo desfecho, mais do que imprevisível, é fantasticamente perturbador — aliás, escrevemos sobre o livro aqui.

Nascida em 1972, na pequena cidade de Milton Keynes, a uns setenta quilômetros de Londres, Pinborough já tinha uma carreira estabelecida como autora de ficção young adult, fantasia e terror antes de investir no (vá lá) gênero Grip-Lit. Deu muito certo: Por trás de seus olhos chegou sem demora às listas dos mais vendidos e vem sendo traduzido e lançado em dezenas de países. Uma adaptação para cinema ou TV não deve demorar. Foi com simpatia e bom humor que ela cedeu a entrevista que se segue, na qual fala um pouco sobre a escrita do livro, as circunstâncias em que bolou seu desfecho marcante, os próximos planos e outras coisas.

 

Li que Por trás de seus olhos tem elementos autobiográficos. Isso é verdade? Se for, em que sentido?

Sarah Pinborough: Não há tantos [elementos autobiográficos] assim! Mas, como mulher solteira na casa dos quarenta, fui estúpida o bastante para ter aquele caso equivocado e estranho (no romance, a personagem Louise se envolve com seu chefe, David, um homem casado). E eu bebo vinho branco e tenho um cigarro eletrônico. Mas as semelhanças param por aí!

 

A primeira coisa que chamou a minha atenção foram as vozes dos personagens. Você realmente fez um ótimo trabalho ao distinguir essas vozes, o que é imprescindível para que o romance funcione apropriadamente. Como foi o processo?

SP: Ah, obrigada! Eu realmente não levo as vozes tão em conta, mas, considerando que havia duas narradoras principais em primeira pessoa, ambas mulheres, quis diferenciá-las da melhor maneira possível. Adele é uma pessoa bastante meticulosa e controlada e eu tentei fazer com que sua linguagem refletisse isso, enquanto que Louise, que Deus a abençoe, é mais dispersa, bagunçada, então seus pensamentos expressam isso. Mas, acima de tudo, assim que você conhece o personagem, a voz dele simplesmente aparece — ainda que isso soe um pouco pretensioso.

 

Além de ser um thriller psicológico, o romance explora temas importantes como atração, infidelidade, ciúmes etc. Na verdade, se esses temas não fossem abordados de forma realista, o suspense e as reviravoltas não seriam tão impactantes. Você tinha a intenção de abordar esses temas desde o começo?

SP: Sim, sem dúvida. Eu realmente queria escrever sobre um caso amoroso e todos os pormenores e emoções que vêm à tona, e quis brincar com o estereótipo da amante mais jovem e bonita, por isso era importante Adele ter uma beleza mais padrão. Acho que, no mundo moderno, com todos tão conectados via redes sociais, celulares e e-mail de uma forma que não éramos há vinte anos, é bem mais fácil sermos atraídos pela infidelidade. A maioria dos relacionamentos começa com as pessoas dizendo que jamais voltarão a trair e quase sempre termina porque alguém fez isso, e então eu quis explorar esse mundo.

Você também escreve para a televisão. Esta experiência influencia seu trabalho como romancista?

SP: Por certo me ajudou nos diálogos. Além disso, na televisão e no cinema cada cena tem um propósito a cumprir — tem que conduzir a história de alguma forma —, então eu continuo tentando trazer isso para a escrita dos meus romances. Nem sempre funciona — é muito mais fácil pesar a mão num romance que num roteiro para a TV.

 

Adele e Louise são fascinadas uma pela outra. É justo dizer que esse fascínio transcende o personagem masculino, de tal forma que David é meramente instrumental? Ele, por exemplo, não tem uma voz.

SP: Sem dúvida. Descobri pela minha própria experiência e pelas experiências de amigos que, se uma mulher dorme com um homem casado, ela quase sempre fica fascinada pela esposa, e a esposa, pela amante, e o homem se torna quase irrelevante. Mulheres foram condicionadas por séculos a competir umas com as outras, e todas pensamos que as outras são melhores nisso de “ser mulher”. Nós constantemente nos comparamos com outras mulheres e nos achamos inferiores. Sobretudo quando somos jovens. Eu quis explorar esse fascínio. É um livro mais sobre elas do que sobre ele, ainda que seja ele quem as aproxime.

 

Como você vê o desenvolvimento e o protagonismo de personagens femininos na literatura contemporânea, especialmente em thrillers?

SP: É realmente incrível como personagens femininas passaram ao primeiro plano e deixaram de ser algo mais do que apenas calculistas ou vítimas. Amo Rebecca, de Daphne Du Maurier, e penso que Amy, de Garota exemplar, abriu a porta para que nos thrillers as mulheres possam ser mulheres, boas e más, e assumam o lugar central. Não sei quanto tempo a bolha Grip-Lit vai durar, há tantos livros desse gênero já publicados, mas estou curtindo, e espero que ela tenha mudado para valer a maneira como escrevemos sobre mulheres na literatura policial.

 

Você poderia, por favor, falar um pouco sobre como surgiu a ideia para o final? Quer dizer, você já começou a escrever o romance sabendo como ele terminaria?

SP: Eu com certeza já tinha o final em mente antes de começar. Sabia que queria escrever um thriller sobre um affaire, algo claustrofóbico e com uma pegada Polanski/Hitchcock, mas não conseguia encontrar algo, uma ideia, que não parecesse corriqueira. Comecei a me sentir bastante frustrada, então fui a um bar, pedi uma taça de vinho, abri o notebook e passei a rascunhar meus personagens: quem eram, o que acontecia com eles – e então foi como se uma lâmpada se acendesse, o momento em que pensei “E se?”, e foi isso. O fim estava lá.

 

Li que você mora em Milton Keynes. Não sei se você curte futebol (caso não curta, apenas ignore isto), mas, como torcedor do Liverpool, gostaria de agradecer o Milton Keynes Dons por destroçar o Manchester United na Copa da Liga anos atrás. Aquilo foi quase tão emocionante quanto Por trás de seus olhos.

SP: (Risos.) Vai, Dons!

 

Para terminar, você poderia dizer o que vem a seguir? Está trabalhando em algum novo projeto?

SP: Estou trabalhando em outro thriller que se concentra em personagens femininas e tem uma reviravolta, mas é bem diferente de Por trás de seus olhos. Estou bastante satisfeita com ele, que será lançado em maio do ano que vem. Não sei ao certo se posso dizer qual é o título, então não vou revelar!

 

*André de Leones é autor do romance Abaixo do paraíso, entre outros. Página pessoal: andredeleones.com.br.

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