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3 conselhos sobre a Síria

20 / julho / 2017

Por Ivan Mizanzuk*

Foto por Gabriel Chaim

“Eu quero morrer na Síria.” Foram essas as palavras de um refugiado sírio que entrevistei em 2016.

Naquele ano, eu realizava uma série de entrevistas com brasileiros que tiveram algum contato com os recentes conflitos do Oriente Médio. Era parte de uma espécie de documentário para o meu podcast, Projeto Humanos, e tinha como objetivo fazer um mosaico dessas histórias, começando no 11 de Setembro até a (ainda corrente) Guerra da Síria. Em algum momento, me vi conversando com sírios que moravam no Brasil — o Ahmed e o Elia, para ser mais preciso. O primeiro, um jovem dentista muçulmano de Damasco que veio para o Brasil, em 2013, como refugiado, fugindo da guerra; o segundo, um atleta cristão de Aleppo, que veio como imigrante na década de 1970 porque era fã do Pelé.

Antes de entrevistá-los, fiz a lição de casa: li muito sobre a Guerra da Síria, sobre os abusos realizados pelos dois últimos ditadores, Hafez al-Assad e Bashar al-Assad, os únicos dois presidentes que o país teve nos últimos quarenta anos. A julgar pelas informações fornecidas pela mídia ocidental, era óbvio que minhas entrevistas com Ahmed e Elia seriam descrições completas sobre quão horríveis os governos da família Assad eram e são.

Mas Elia e Ahmed gostavam de Assad. E isso inutilizou todo o meu preparo. “Sim, as eleições são fraudulentas. Mas Assad é um presidente forte, e todos querem a Síria. Todos! EUA, Israel, Arábia Saudita, todos querem tomar nosso país. Por isso, precisamos ser protegidos.” Por pouco, quase cometi o erro gigantesco de querer ensinar a história da Síria aos próprios sírios, mas consegui me calar a tempo e ouvir as histórias deles.

E este é o primeiro conselho que dou àqueles que se interessam pela Síria: esqueça tudo que você entende de política, costumes e seu modelo de sociedade ideal. Apenas ouça. Quanto antes você se livrar dessas noções “ocidentais”, mais rápido vai começar a entender. E daí você vai perceber o que eu percebi: que em todo lugar do mundo há quem goste de seu presidente, há quem o critique e o chame de ditador e há quem seja pragmático e pense: “Se não ele, quem?” A verdade, se é que ela existe, está em algum desses espectros.

O segundo conselho: após deixar de lado tudo que você pensa saber e ouvir atentamente as histórias dessas pessoas, volte e comece a construir pontes com o Ocidente. No caso de nós, brasileiros, por termos sido colônia portuguesa, estamos acostumados com um modelo de Estado em que, a certa altura, a religião passou a atuar mais na esfera privada do que na pública (ao menos é o que se espera na teoria). É o modelo que “herdamos” da Revolução Francesa, no final do século XVIII, no qual Estado e Igreja são instituições que devem ser independentes. Hoje, esse é o modelo de sociedade que desejamos. Mas imagine que o estabelecimento de um Estado laico não tenha ocorrido séculos atrás, que, em vez de cristã, a população fosse em sua maioria muçulmana e que a separação entre religião e política tivesse sido imposta por um governo que subiu ao poder na base da força, na segunda metade do século XX.

Foi o que aconteceu na Síria, com o agravante de que isso tudo foi durante a Guerra Fria, um momento em que dificilmente um país conseguiria sobreviver se não escolhesse um lado . Como tantos países no Oriente Médio nesse período, os alinhamentos não eram tanto uma questão de ideologia, e sim de sobrevivência.

No imaginário ocidental, temos o péssimo costume de reduzir o Oriente Médio inteiro às questões religiosas, taxando-os de fanáticos. E, ao fazermos isso, deixamos de notar como a religião ganha conotações políticas na região, especialmente na Síria, já que esse modelo ocidental de separação das duas esferas é nosso pressuposto. Quando Hafez al-Assad subiu ao poder, na década de 1970, passou a impor políticas de secularização, proibindo, por exemplo, mulheres de usarem o véu, uma recomendação no islamismo. Parte da população o acusa de forçar uma ocidentalização dos costumes, o que gerou conflitos internos já naquela época.

E, sendo um governo autoritário, parte da população (especialmente os camponeses e os mais pobres nos centros urbanos) usou o discurso religioso como forma de resistência, como foi o caso de mulheres que faziam questão de usar o véu. Entender a religião como expressão política pode nos parecer estranho, mas é possível compreender se fizermos algumas pontes históricas. Não sei se aqui há formas “certas” ou “erradas” de agir. Apenas foi assim que aconteceu.

E quando começamos a ver como é difícil entender a Síria, lanço meu terceiro conselho: ouça as histórias do seu povo. Só através delas entenderemos melhor esses conflitos e suas contradições. À primeira vista, tudo pode parecer muito exótico e diferente, mas a realidade é que muitas das questões são bastante familiares.

Por isso, O árabe do futuro é um tesouro. Sendo o povo árabe um grupo que em geral preserva muito sua privacidade, a autobiografia de Riad Sattouf é corajosa ao expor a intimidade da família. Filho de pai sírio e de mãe francesa, o autor consegue estabelecer as pontes necessárias para que compreendamos a complexidade do desenvolvimento da Síria, do pan-arabismo e das promessas e sonhos que habitavam as mentes daquela época, naquela região.

Não vou dizer aqui que todo sírio ama seu país, pois seria uma generalização perigosa, mas, quando Riad mostra como o pai amava a Síria, entendo melhor o Ahmed, o refugiado sírio que entrevistei, quando ele disse que, apesar de tudo, deseja ser enterrado em sua terra natal.

O árabe do futuro é uma história em quadrinhos (ou graphic novel, para os que preferem termos mais chiques) que até o momento conta com três volumes. O primeiro foi lançado em 2015 aqui no Brasil, e a Intrínseca acabou de lançar o terceiro. A cada vez que o volume que estou lendo termina e vejo “Continua…” na última página, abraço minha edição e digo “até breve”. Não à toa, em 2014, ano da publicação original, o primeiro volume ganhou o Grande Prêmio no festival de quadrinhos de Angoulême, uma das premiações mais importantes do mercado Europeu. Além de colecionar esse e vários outros prêmios no currículo, o autor Riad Sattouf também foi um dos colaboradores do polêmico jornal satírico Charlie Hebdo, entre 2004 e 2014.

***

Em 2011, a Síria possuía em torno de 20 milhões de habitantes. Estimativas variam, mas acredita-se que a guerra no país já tenha matado cerca de meio milhão de pessoas. Até 2017, o número de refugiados já passava dos 5 milhões. Se contarmos os que se deslocaram internamente, percebemos que mais da metade do país teve sua estrutura de vida afetada. É a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

Certa vez, conversando com Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, ele me disse: “Quando falamos sobre o Holocausto, é importante humanizarmos aqueles números. Foram 6 milhões de judeus que morreram nos campos, sim, mas temos que ver isso como 6 milhões de histórias que deixamos de contar.”

Para aqueles que pretendem humanizar esses números sírios, a obra de Riad é mais do que recomendada, pois nos lembra que, ao menos desde 1978, havia casais se apaixonando, sonhos sendo construídos, famílias se desentendendo e corações batendo.

 

Ivan Mizanzuk é de Curitiba e tem 34 anos. Além de professor e escritor, é também host dos podcasts AntiCast e Projeto Humanos, nos quais debate frequentemente sobre política, artes, religião e coisas estranhas.

Twitter: @Mizanzuk

 

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