Matheus Leitão Netto

Vozes dissonantes

22 / junho / 2017

FOTO: KAORU/CPDoc JB

A impressão de longe, tanto tempo passado, é a de que a geração dos meus pais era algo monolítico e que todos pensavam da mesma forma. Engano. Nos anos 1972 e 1973, o movimento de rua já havia terminado. Os sequestros e assaltos a banco também. O milagre econômico, a propaganda maciça e o apelo ao “patriotismo” alienavam a maioria dos jovens. O AI-5 calara a maioria das vozes. 

É nesse silêncio que um grupo pequeno no Espírito Santo decide manter um movimento improvável, incluindo meus pais: Marcelo Netto e Míriam Leitão. É nesse contexto que a história de Em nome dos pais se passa. Por isso, digo no livro que eles pareciam alienígenas. 

Gal Costa lançara seu Fa-Tal – Gal a todo vapor em novembro de 1971. O disco estourou, quebrando o silêncio imposto pelo regime. As músicas de Gal tinham versos fortes, e sua voz cristalina como água era um protesto lírico e triste: “No fundo do peito esse fruto, apodrecendo a cada dentada”, ou “Oh, sim, eu estou tão cansada, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você”, ou “Assum preto, seu cantar é tão triste quanto o meu”.

 

 
O ambiente era o terror do governo Emílio Garrastazu Médici, o pior do regime militar e no auge de sua força. 

Eu os descrevo solitários, andando nas ruas, escrevendo nas paredes alguns recados como “Abaixo a ditadura” ou fazendo reuniões secretas com um importante diretor da União Nacional dos Estudantes. Reunião é modo de dizer, porque apresento um encontro do meu pai com o então líder estudantil Ronald Rocha, com tudo o que um contato clandestino tem: andavam e conversavam por vários quarteirões de Copacabana olhando para os pés.

Havia poucas válvulas de escape, e a maioria nem entendia o que estava de fato acontecendo no país. Mesmo na universidade. Por isso cada ato era tão valioso. Como fazer uma greve universitária num momento assim? Meu pai, Marcelo, conseguiu liderar uma greve na medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Certa vez, Míriam foi fazer sua primeira ação na rua com uma fita-cola. Tinham, ela e uma colega, que passar um algodão molhado atrás e pregar. E passaram. E colaram. Mas um agente da área de inteligência percebeu o movimento e foi se aproximando até que, pimba! Segurou o braço de minha mãe. Ela gritou pedindo socorro, fazendo-se de vítima. Virou uma confusão. O homem soltou e elas correram.

Na ditadura, quatro anos fizeram uma enorme diferença de clima e ambiente. Quem viveu 1968 viu passeatas, manifestações, o movimento de rua. De certa forma havia esperança. Em 1972 era outra história, e é essa que conto em nome dos meus pais e dos amigos deles de Vitória. Eles eram poucos.

>> Leia um trecho de Em nome dos pais

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