Joaquim Ferreira dos Santos

Tesouras afiadas na alta sociedade

9 / fevereiro / 2017

A modelo Marina Montini (Fonte)

Jean-Luc Bernard, o cabeleireiro francês que morreu nesta quarta-feira, dia 8 de fevereiro, aos sessenta e sete anos, foi trazido de Paris para o Rio de Janeiro na década de 1970 por Zózimo Barrozo do Amaral, um de seus clientes no famoso salão Carita, no Faubourg Saint-Honoré.

O colunista apresentou Jean-Luc a Jambert, o espanhol naturalizado brasileiro que era o preferido das cabeças elegantes do high society carioca. Adoraram-se. A favor da permanência de Jean-Luc no Rio, havia o fato de ele ser fanático por caça submarina. Jean-Luc virou sócio de Jambert e abriu o braço masculino da grife. Foram felizes por alguns anos até que, grandes divas das tesouras, brigaram. Cada um com suas brilhantes carreiras, mas solo, foram em frente.

Jean-Luc mantinha até morrer um salão na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. Dizia que por várias vezes tentou tirar o bigode de Zózimo, mas sem sucesso. Sua tesoura descia até o ombro do colunista, que tinha o tórax muito cabeludo.

Cabeleireiros — e não só Jambert e Jean-Luc — brigavam muito, mas pelo menos mantinham a elegância de deixar as tesouras de lado.

O cabeleireiro Silvinho (Fonte)

Jambert esteve envolvido em outra briga com um colega. Seu oponente dessa vez era Silvinho, que ficou famoso por ter cabelos enormes, ser muito bonito e participar do júri do programa do Chacrinha na TV. Silvinho era funcionário do salão de Jambert. Não se conformava que, embora popular na mídia, não conseguisse colocar em sua cadeira as madames vipadas que se entregavam às mãos de tesoura do patrão. Jambert conversava em francês enquanto cortava. Já a grande cliente de Silvinho era Elke Maravilha.

Finalmente rompido com Jambert, Silvinho foi em frente com salão próprio. Na busca pelo crédito de qualidade, reconheceu em Zózimo um inimigo. Achava que nas suas notinhas o colunista era mais generoso com Jambert. Silvinho aliou-se a outros jornalistas.

Num dos rounds dessa pugna, ele teve como parceira a modelo Marina Montini, famosa por posar nua para uma série de mulatas pintada por Di Cavalcanti. Quando o pintor morreu, ela tentou vender alguns desses quadros e Zózimo publicou os preços alardeando espanto, pois os julgava muito acima do mercado. A intenção comercial de Marina fracassou e ela resolveu se vingar do colunista juntando-se ao amigo cabeleireiro.

Silvinho fez nela um penteado bem ao estilo anos 1980, com um enorme aplique que dava ao cocoruto de Marina ares de uma juba de pantera, a grande moda escandalosa do período. Quando um repórter de uma revista de celebridades perguntou a Silvinho qual o nome daquela sua nova obra, ele não teve dúvida:

— O penteado chama-se Cascata Zózimo Barrozo do Amaral, porque pra fazer um é preciso muita imaginação.

Não era uma homenagem, mas uma tesourada de humor mau. Como se sabe, em gíria jornalística, colunista que inventa notícia é chamado de “cascateiro”.

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Comentários

2 Respostas para “Tesouras afiadas na alta sociedade

  1. o Silvinho nesta época, era exclusivo da Denize Muniz,a rainha do cacau,para pentear na casa dela, as ” cabeças ” do Carnaval !

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