Fernando Scheller

Existe amor em Cabul

21 / dezembro / 2016

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Cabul nos anos 1960. (Fonte)

Parece um tempo muito distante, mítico, irreal. Às vezes penso que o inventei. Mas não. Eu, Miriam, vivi numa era de minissaias e vestidos tubinho, cabelos bem arrumados e brincos, homens e mulheres sentados lado a lado nos ônibus sempre apinhados de Cabul. Uma cópia contrabandeada de Dr. Strangelove (Dr. Fantástico) de Kubrick, com um dos rolos faltando, para ser exibida em um cineclube. O homem que se apaixonou pela bomba. Era 1969. As possibilidades pareciam infinitas, mas não demoraria muito para que o Afeganistão logo vivesse seu próprio caso de amor com as bombas.

Pinto meu cabelo de vermelho desde que me lembro. Foi uma tradição que comecei e nunca mais larguei. Primeiro por gosto, depois como sinal de resistência. Era como se essa decisão tão trivial, tomada em 1967 — a de usar a hena com a qual os homens tingiam a barba para mudar meu cabelo e realçar o meu rosto —, fosse uma forma de me segurar ao passado. Hoje, com as  pernas cheias de varizes, reflexo de anos de trabalho em pé nessas joalherias de Manhattan, decidi voltar às origens.

Quando disseram que eu poderia mudar de nome, logo que cheguei, pedi algumas sugestões e decidi por Jones — afinal, Jennifer Jones era minha atriz favorita quando eu era menina. Tinha um fogo que as outras estrelas de cinema não conseguiam forjar, nem Grace Kelly nem Marilyn Monroe. Mas estou perdendo o fio da meada. Vou voltar para a minha terra. Quando disse ao rapaz da agência de viagens que queria comprar uma passagem para Cabul, ele não conseguiu esconder o espanto. “Por quê?”, perguntou. “Porque nasci lá.”

Não tenham pena de mim, juro que não foi nada mau. Sim, todos os problemas estavam lá. Mas havia rios e montanhas e também esperança. Um Parlamento que funcionava. Mulheres que votavam e que, justamente no ano em que completei 13 anos, ganharam direitos idênticos aos dos homens. Eu poderia ser o que quisesse: médica, advogada, deputada e até dona de casa. Pai e mãe sorriam. Como não tiveram filhos homens, estavam resolutos a dar tudo o que estivesse disponível no mundo para mim e para a pessoa mais linda que jamais vi, minha irmã Soraya.

Um jornalista britânico veio certa vez à nossa escola secundária para nos entrevistar, falar sobre o futuro do país. O Afeganistão, com uma boa dose de licença poética, foi descrito na revista como a “Paris do Oriente”. Dois anos depois, ingressei na Universidade de Cabul. Queria ser jornalista. A imprensa ainda não era exatamente livre, mas tudo indicava que um dia seria. Na loja de discos, as músicas que anunciavam um novo tempo chegavam com um pouco de atraso, de dois ou três anos. Foi lá que conheci Abbas. Ele me disse que essa espera era boa. Depurava o que era ruim. Assim, só precisávamos gastar nosso dinheiro com o que realmente viera para ficar.

À medida que os anos 1970 avançavam, no entanto, o nosso mundo andava para trás, no lugar de seguir adiante. Acho que nós, jovens e descuidados, fomos longe demais e despertamos a ira dos fundamentalistas. Eu trabalhava como fotógrafa e Abbas editava um jornal escrito em inglês. Reuniões políticas, bebida alcoólica e saias acima do joelho. Tudo o que antes estava às claras passou a ficar escondido, cada vez mais escondido, sem que nos déssemos conta. Envoltos pelo cotidiano, aceitamos quase tudo como normal. Abbas, Soraya e eu. De repente, tínhamos os três uma opção ou outra: ficar ou sair. Abbas decidira-se por Cabul, eu fui obrigada a deixar o país. Não digo que não tive alternativa, pesei todas as variáveis — medo, amor e compaixão, por Soraya e por meus pais — e segui o meu caminho.

Era 1978. De repente, vestidos curtos e cabelos vermelhos eram um pecado passível de punição máxima. Revoluções internas, intervenções externas. Tudo rápido demais, não havia mais tempo para observar a placidez do rio. Tudo era desespero, era preciso agir, fazer escolhas. Decisões de vida e morte em um só minuto, sem tempo de preparação. Sim e não. Casamento, filhos, pedras preciosas, viuvez, netos. Passou tanto tempo e só uma coisa não mudou: comprei a passagem ainda pensando em Abbas. Sei que é insano, mas é essa busca que me move. A procura por uma época em que existiu amor em Cabul.

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Comentários

Uma resposta para “Existe amor em Cabul

  1. Que texto perfeito. Sem palavras… As palavras costuradas durante o texto mais parecem plumas saltitantes pelo céu azul de Cabul. Como o tempo e as pessoas mudam… infelizmente nem sempre para melhor.

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