Fernando Scheller

Coisas que nunca te disse

8 / dezembro / 2016

Otis Redding cantava Stand by me no volume mais alto que o nosso rádio mono permitia, Robert Redford era o homem mais lindo do mundo e eu gostava de imaginar que você se parecia com ele. Vinte e cinco anos depois, nada me parece mais distante da realidade. Talvez eu gostasse de pensar assim porque se você fosse Redford, Frank Sinatra ou Warren Beatty eu poderia ser Mia Farrow. Ou Natalie Wood. Ou Faye Dunaway.

Cortei o cabelo curtinho, igual ao da Mia, para me sentir como uma estrela de cinema. O amor é assim. Eu tinha um marido bem-sucedido, morava na Zona Sul, e agora me parece impossível entender como passei incólume pelo AI-5, pelos amigos de colégio que desapareceram, pelas marchas nas ruas. Almoço, jantar, cuidados com o filho pequeno, babá para ir ao cabeleireiro, três matérias na faculdade para me sentir útil.

Os sinais de que não éramos perfeitos eram abafados assim que surgiam. Lembro-me de ter ficado furiosa quando você me disse que Bob & Carol & Ted & Alice era uma pouca-vergonha. Acabei acreditando que estava errada, que uma esposa não deveria levar o marido para assistir a um filme como esse. Mas, quando você saiu no meio de Taxi driver, finalmente entendi. A ambiguidade o assustava.

Lutar por algo abstrato, que não virasse apartamento, carro ou casa em Petrópolis, estava além de sua compreensão. Seu irmão foi preso, exilado e, mesmo em uma situação de muito pouco risco, você negou abrigo quando ele voltou ao Brasil. Era 1978. Depois de sete anos sem vê-lo, você preferiu colocá-lo num hotel. Eu e Otávio fomos visitá-lo sozinhos.

Quanto medo: grades na janela para se proteger de bandido, secretária para filtrar as ligações, um muro de indiferença para não ter de lidar com o filho. Máscaras de realidade: jogo de golfe, almoço no Jockey Club, cigarros cubanos, vestidos caros, Bourbon doze anos, carpete novo, papel de parede com estampas florais, sorrisos falsificados, fotografias em belos cenários.

Cabem tantas palavras no espaço das coisas que eu nunca lhe disse… Mas agora que estamos próximos, aqui nesta noite quente de festa, dez anos depois da última vez que nos falamos, algo me impede. Não quero quebrar o silêncio. De uma maneira estranha, quero poupar você. Eu poderia dizer coisas horríveis sobre sua nova esposa, só que nem penso que ela seja tão ruim assim. É adequada. Parece uma boa pessoa, posso vê-la de longe, nos acompanhando. Percebo ciúme, apego e temor.

A pista de dança está vazia. Uma espécie de sineta toca. É assim que começa Under the boardwalk. Você gostava que eu lhe ensinasse inglês traduzindo essa música. Era uma das nossas músicas. Tão curtinha. Dois minutinhos só. Então você faz o inesperado e quebra o silêncio.

— Você quer dançar? — pergunta-me.

Eu estendo minha mão em sua direção. Uma canção boa é sempre boa. E dança é muito diferente de sexo: é bem mais difícil encontrar quem saiba dançar de verdade. Estamos perto dos cinquenta anos, meio gastos, e imagino por um segundo que somos astros de cinema que envelheceram bem. Não chegamos a ser Paul Newman e Joanne Woodward. Nem de longe. Mas tudo bem.

Enquanto você me conduz, sinto seus braços e entendo que nossa existência simples foi, durante um bom tempo, feliz. Porém, a vida fora das telas de Hollywood é assim: um dia, de repente, deixa de ser perfeita, de ser fácil. Os últimos acordes dessa canção, tão definitivos, me retiram dos devaneios adolescentes e me arremessam diretamente para o que sou hoje.

Eu escolhi a verdade. E, mesmo que tivesse a chance de voltar atrás, rodopiar pelo salão com você me fez compreender que alguns instantes no passado são suficientes para mim. Enfrentei as pedras e tempestades que a vida me jogou. Eu vi o mundo exatamente do jeito que ele é, feio e lindo ao mesmo tempo. É complicado, é ambíguo. Prefiro assim.

Não quero perder tempo nem explicar nada a você. Jamais me entenderia. Aceito isso também.

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