Clóvis Bulcão

Polêmicas de Carnaval

14 / novembro / 2016

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Detalhe do carnaval da Beija-flor de 1989 (Fonte)

O ano ainda nem acabou e já existe uma enorme expectativa em torno do próximo Carnaval no Rio de Janeiro. O motivo é simples: como o novo prefeito, Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, não conseguiu convencer que acredita mesmo que o Estado seja laico, organizará a mais importante festa da cidade sem nenhuma interferência de caráter religioso.

É bem verdade que desde que o Carnaval carioca foi pensado como um produto da indústria turística, no início da década de 1930, o evento sempre foi marcado pela discórdia. Em Os Guinle eu conto como Octávio Guinle, na qualidade de colaborador da prefeitura e de proprietário de dois hotéis, o Copacabana Palace e o Palace, foi criticado ao mandar fechar a principal avenida da cidade, a Rio Branco, para dar maior visibilidade à festa momesca.

Ao longo dos últimos 80 anos, não faltaram debates acalorados sobre o assunto Carnaval. Em 1940, o periódico O Jornal publicou várias matérias alertando sobre seus efeitos nefastos na saúde dos foliões. Segundo o iminente neurologista e professor Austregésilo, o Carnaval “depaupera e deixa o corpo indefeso para a luta contra as moléstias”.

No final daquela década, a imprensa criticava a Comissão de Carnaval da prefeitura encarregada de julgar os melhores sambas e as melhores marchinhas e defendia que o julgamento pertencia ao povo. Em 1952, as autoridades da cidade se prepararam, pois acreditavam que ao longo dos quatro dias de folia haveria “grandes massacres”. Quase acertaram: o badalado Baile dos Artistas acabou em enorme pancadaria.

Quando o desfile das escolas de samba se cristalizou como auge do Carnaval no Rio, as polêmicas foram ainda mais intensas. Durante anos discutiu-se o local ideal dos desfiles no Centro: seria na avenida Presidente Vargas, na avenida Rio Branco ou na avenida Antonio Carlos?

Quando, enfim, fundaram o Sambódromo para abrigar os desfiles, em 1984, a discussão em torno do local acabou. Mas surgiram outras: em 1989, por conta do primeiro nu frontal da passista Enoli Lara; em 1998, porque a bela Luma de Oliveira usou uma coleira com o nome do marido, o empresário Eike Batista. Nos últimos anos foram os blocos de rua que passaram a dar o tom das reclamações acaloradas: atrapalham o trânsito, sujam a cidade, são violentos etc.

Caso no Carnaval de 2017 surja alguma crítica ao novo alcaide por questões religiosas, nem estas serão inéditas. Vale lembrar que em 1989 o enredo da Beija-Flor (“Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”) foi vítima de censura por parte da Igreja católica. A Arquidiocese, por meio de uma liminar da Justiça, proibiu a reprodução do Cristo Redentor em um dos carros que iam compor o desfile do carnavalesco Joãosinho Trinta. A alegoria entrou na passarela mesmo assim, mas coberta por um plástico preto e uma faixa com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”.

 

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