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As mentiras sinceras da literatura

4 / novembro / 2016

Por Julia Wähmann*

andrew-matusikAndrew Matusik (Inspiração Rene Magritte)

Já faz uns dez anos que li A hora da estrela, da Clarice Lispector. Coincidiu de Carolina, uma grande amiga, ler ao mesmo tempo que eu, e frequentemente nossas conversas giravam em torno de Macabéa, protagonista do livro. Falávamos dela como se fosse real — e de certa forma ela era, afinal estava presente em nossas vidas de muitas maneiras. Mais ou menos na mesma época, conheci uma livraria famosa de Paris que exibia num dos painéis da fachada a seguinte frase, em tradução livre: “O fato é que Tolstói e Dostoiévski são mais reais para mim que meus vizinhos.” Eu poderia dar mais uma porção de exemplos de como a literatura invade cotidianos: a prima que se pergunta o que Atticus Finch (personagem de Harper Lee em O sol é para todos) diria; os amigos que afirmavam morar em Macondo (cidade imaginária de Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão) numa extinta rede social. Se a vida imita a arte, o contrário não é menos incomum, sobretudo no campo literário.

untitledÉ destas confusões entre realidade e invenção que trata Delphine de Vigan em seu novo livro, Baseado em fatos reais, romance premiado e publicado quatro anos após Rien ne s’oppose à la nuit, relato ficcionalizado de sua relação com a mãe bipolar. O ponto de partida desta nova história é, justamente, a “ressaca” após o estrondoso sucesso e a repercussão da obra anterior, em que expôs familiares e relações que, a princípio, deveriam ficar restritas a um âmbito privado. A narradora/personagem de Baseado em fatos reais, também chamada Delphine, passa por uma grave depressão causada pela incapacidade de escrever quando se vê diante de um novo projeto. Fascinada por reality shows em que pessoas reais e comuns ganham contornos fictícios devido a manobras de edição, ela vê neste universo um possível enredo para um novo trabalho. É quando L., que será tratada apenas pela inicial ao longo da narrativa, cruza seu caminho.

L. é uma ghost-writer, ou seja, quem efetivamente escreve textos e livros que são assinados por outra pessoa, normalmente alguém digno de ter sua biografia publicada, como grandes artistas ou políticos. L. é, portanto, a pessoa que mais conhece a vida, a intimidade e os detalhes da celebridade em questão; a pessoa que tem acesso, às vezes irrestrito, aos hábitos de seu objeto; a pessoa que se coloca no lugar do outro para dar voz às suas memórias, e também aos feitos e superações.

L. se aproxima de Delphine e logo se mostra confiável, disponível e sensível ao período turbulento que a escritora enfrenta. Também se revela uma grande crítica das ideias de Delphine para o novo livro, quebrando seus argumentos acerca do valor da ficção que planeja escrever. Para L., os leitores não estão mais interessados em tramas e personagens imaginados e construídos com base em pesquisa: eles querem a “Verdade”, com letra maiúscula. A discussão em torno dessa “Verdade” é o primeiro de alguns embates entre a personagem Delphine e L. Enquanto a escritora afirma que a verdade (com minúscula) não existe, L. defende que apenas ela importa para o leitor, e usa como evidência a crescente produção de obras — no cinema, no teatro, na literatura — que trazem em destaque a informação de serem inspiradas em fatos reais. Enquanto Delphine deseja escrever uma história que soe crível, L. levanta a bandeira da morte da ficção.

De um tempo para cá, a maioria dos autores que escreveram obras que guardam alguma semelhança com suas biografias foram confrontados com a pergunta: seu livro é autobiográfico? O termo “autoficção”, hoje quase um gênero por si só, foi cunhado no fim da década de 1970. Ambas as definições provocam rixas e debates acalorados entre estudiosos e pesquisadores, então a expressão “escritas de si” acena como possível conciliadora, abrangendo as duas classificações. Dentre leitores, jornalistas, entrevistadores e mediadores de conversas, muitos enveredam pela investigação que procura confirmar a veracidade de fatos contados no âmbito da ficção e que coincidem com o que sabemos da vida de seus autores – seja um nome, uma data ou uma cidade. É fácil enxergar possíveis espelhos em livros, e muitos autores tiram proveito dessas interseções, fornecendo pistas escorregadias e atuando como verdadeiros performers de si, o que atiça ainda mais a curiosidade do público. No século XVIII, ao contrário, escritores buscavam uma prosa que representasse o senso comum, um retrato da época, então a individualidade, quando entrava em cena, questionava esse cenário mais amplo de uma “verdade” social.

de-vigan-delphine-2011-nbc-delphine-jouandeauA escritora Delphine De Vigan (Foto: Delphine-Jouandeau)

Delphine De Vigan destrincha todos esses aspectos em Baseado em fatos reais ao longo das conversas da personagem Delphine com L., que começam em tom cordial e logo ganham tintas mais sombrias, um tom que a amizade de ambas também começa a aparentar. L. torna-se cada vez mais obstinada em convencer Delphine a voltar-se para si mesma. A tensão aumenta proporcionalmente à obsessão de L. A certa altura, comecei a me perguntar o que Atticus Finch – aquele personagem lá do começo deste texto – faria diante de uma figura tão engenhosa.

Como leitora, pouco me importa o grau de realidade que eu possa conferir a uma história que me é contada de maneira convincente, com a qual eu estabeleça uma relação de confiança, empatia. Se L. é real ou não, isso não muda o fato de que, enquanto tomava conhecimento de suas características e ações, ela me apavorava em escala galopante, e pude vê-la com todo o espanto que me causava. Mesmo que me provassem por A + B que a história de Delphine é fruto de sua imaginação — ou o contrário —, o caminho já estaria percorrido, e o maior prazer de ler um livro está no virar das páginas, na ânsia pelo próximo capítulo, nas reações que temos diante de cada detalhe que se torna quase palpável. Assim como toda vida pode ser floreada e ligeiramente modificada, seja pela natural seleção do que se escolhe contar ou pelo exagero de certos aspectos dela, toda ficção pode estar impregnada de elementos do real, todo personagem pode ter trejeitos de pessoas que “existem”.

“Tudo que não invento é falso”, diz um verso de Manoel de Barros. Um outro lado dessa imagem está em uma das falas de Delphine no livro, uma citação do escritor francês Jules Renard: “Quando uma verdade tem mais de cinco linhas, é um romance.” Em alguma esfera, tudo é falso; em outra, é tudo verdadeiro. Quando a verdade tem as 256 páginas do romance de Delphine de Vigan, é bom se preparar para passar tardes ao telefone com sua melhor amiga em conversas sobre L.

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Ela coordena o serviço de curadoria Garimpo Clube do Livro.

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