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Uma marionete nas linhas habilidosas de Delphine de Vigan e Gillian Flynn

6 / outubro / 2016

Por Liciane Corrêa*

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Uma é L., apenas L. A outra só conhecemos pelo apelido: Nerd. L. é ghost-writer de biografias; Nerd é uma devoradora de livros, com uma queda especial por histórias de fantasmas. Ambas são mulheres fortes, com bastante sensibilidade para ler pessoas.

Se as duas fossem vizinhas, provavelmente se tornariam amigas. Talvez passassem noites em claro discutindo literatura, L. defendendo que só a não ficção importa, porque as pessoas estão cansadas de histórias sem autenticidade, produzidas por farsantes. Mas L. e Nerd nunca se conheceram, pois não fazem parte do mesmo universo. Nós, leitores, podemos conhecer as duas através das obras de Delphine de Vigan e de Gillian Flynn.

untitledQuem nos apresenta a L. é Delphine, narradora de Baseado em fatos reais. Elas são como aquelas amigas que a gente costuma ter na adolescência: vão juntas ao cinema, ao mercado, à padaria, trocam mensagens a toda hora. L. encontra sempre as palavras certas para consolar e acalmar Delphine. O mesmo tipo de palavras certas que Nerd, protagonista com que Gillian nos presenteia no conto O adulto, tem para as mulheres que vão até ela pedindo uma luz porque estão com a vida desmoronando — a diferença é que Nerd é paga para isso.

Com frequência Nerd tem que ler nas entrelinhas dos relatos das clientes e preencher as lacunas para lhes contar o que está escrito nas estrelas. Já o papel de L. na vida de Delphine é preencher os espaços vazios deixados pela ausência de inspiração criativa. Acho que qualquer leitor gostaria de ter uma amiga dedicada como L. se, de cara, Delphine já não deixasse tão claro que a outra é a responsável por seu fracasso.

Mas comecemos do início: Delphine havia lançado um livro em que abordava a relação com a mãe bipolar e suicida — uma história que lhe deixou cicatrizes, assim como se espera de qualquer história que envolva mães problemáticas, quer ela vire livro ou não. Depois de uma obra tão pessoal, sobre o que Delphine poderia escrever? É nesse período da vida, quando está refletindo sobre seu próximo livro, que ela conhece L.

Logo as duas descobrem muitas afinidades e a irresistível e espirituosa L. com sua beleza e confiança, tem todos os predicados para ser uma pessoa inspiradora. Mas não adianta: Delphine não consegue mais escrever. A princípio, o bloqueio criativo parece fruto do sentimento de culpa que Delphine já experimentou antes, ao se afastar de um livro publicado e partir para uma nova história. Mas a situação piora e, em certo ponto, ela começa a sentir dor só de pensar em se sentar ao computador. Sorte dela que L. está sempre a seu lado, sempre vem ao seu socorro. Delphine torna-se, então, refém de alguém tão próximo, tão familiar, tão íntimo.

adultograndeSe por L. a gente já é induzido a sentir antipatia desde o primeiro capítulo, sem nem mesmo saber o que exatamente ela fez para merecer isso, Nerd conquista nossa empatia logo no início. Sabe aquela pessoa por quem a gente torce mesmo sabendo que é vilã, tipo Carrie White em Carrie, a estranha? Esta é Nerd: ganha a vida ludibriando pessoas, mas ainda assim é difícil resistir a ela. Afinal, seu destino foi moldado pela infância de mentiras criada pela mãe.

Ela aprendeu a ler e conhecer as pessoas como a palma da própria mão e usa isso para tirar proveito de quem está fragilizado. Mas um dia, quando a dona de uma casa mal-assombrada chega para uma consulta, o feitiço se vira contra Nerd e ela se vê envolvida em uma trama de tirar o fôlego. Enquanto L. e Delphine compartilham afinidades que acabam por sufocar a relação, Nerd encontra sua redenção na mais improvável das pessoas.

Mergulhar nas obras de Delphine e de Gillian é como estar em um mar tranquilo e de repente se ver sendo tragado pela correnteza para depois ser jogado de volta, atordoado, na areia. Em entrevista, Gillian Flynn já afirmou que gosta de personagens complexos, e de fato ela sempre nos brinda com personalidades que nunca deixam o leitor entediado.

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A narrativa extremamente convincente das duas autoras nos faz acreditar em qualquer coisa. E depois desacreditar. E, em seguida, acreditar de novo. E Delphine vai além: interessada na fronteira entre a razão e a loucura, ela extrapola os jogos narrativos comuns a thrillers psicológicos quando brinca não apenas com os personagens, mas também com o leitor. A autora compartilha com a protagonista o nome, os filhos, o marido, o suicídio da mãe. A todo tempo nos perguntamos o que mais a autora Delphine de Vigan emprestou à personagem Delphine. Mas nem tudo é o que parece, e os fatos reais do título talvez sejam tão reais quanto as visões que Nerd tem sobre o futuro de suas clientes.

Durante a leitura dos dois livros, eu me senti manipulada como uma marionete nas linhas habilidosas de Delphine e Gillian. Não são apenas as personagens Delphine e Nerd que perdem o controle da própria vida à medida que as páginas avançam: nós, leitores, também somos seduzidos a acompanhar a tensão de cada cena com a mesma intensidade que Delphine precisa de L. em sua vida.

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Liciane Corrêa, ao contrário de L., prefere livros de ficção — e, assim como Delphine e Nerd, gosta de Stephen King (de quem já foi editora e cujos livros agora tem o prazer de traduzir) e histórias de fantasma. Também compartilha com Delphine os péssimos hábitos de coçar os olhos quando está de rímel e tropeçar em todos os móveis da casa.

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