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Silenciar sentimentos implode a alma

4 / outubro / 2016

Por Pedro Martins*

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Com mais de 200 mil cópias vendidas e milhões de seguidores on-line, o “desenhador de palavras” Pedro Gabriel lançou no mês passado seu terceiro livro, Ilustre Poesia, fechando a trilogia de pré-romance do seu alter ego, Antônio, personagem que há quatro anos vem sendo “escrito, vivido”.

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Frente a uma pilha enorme de pequenos papéis, usados e depois rasgados, Pedro Gabriel, das profundezas de sua alma, deu à luz Antônio, dando corpo às angústias vivalmas: coragem, rancor, liberdade, amor — e à sua ilustre poesia.

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Com o sucesso inusitado nas redes sociais, veio o primeiro livro: Eu me chamo Antônio, uma antologia do início de sua criação, revelando o boêmio apaixonado que era Antônio a discorrer sobre a vida com o pesado traço a nanquim. Após algum tempo, veio o Segundo, quando o personagem sai dos bares em direção ao mundo dos sonhos, enquanto Pedro se aventura timidamente na prosa, valendo-se de parágrafos curtos e isolados. Por fim, entretanto, algumas palavras simplesmente não cabiam mais dentro das fronteiras dos guardanapos. Nem as ilustrações. E, como na primeira vez em que Antônio viu a luz do dia, o poder de encanto de Ilustre Poesia é único.

Se com os dois livros anteriores Pedro Gabriel já havia mudado a concepção de poesia para muitos — especialmente jovens —, algo que acreditavam ser necessariamente acadêmico, chato e distante demais de si mesmos, desta vez fica ainda mais evidente a importância de sermos poetas, ainda que apenas da nossa própria vida.

Ao longo de pouco mais de duzentas páginas, criador, criatura e leitor dialogam uma prosa filosófica sobre a importância de “usar os olhos da imaginação, interagir com a inconsciência e dialogar com o inexplicável”, pois “quem acredita só no que vê não dá espaço à própria poesia”.

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Como o Universo, todos temos buracos negros nas profundezas da alma. Tolo, porém, é aquele que confunde silenciar com exterminar. Como dizia Lavoisier, no auge do século XVIII: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Apesar de serem substantivos abstratos, não seria diferente com os sentimentos: mandá-los para buracos negros não os faz se dissipar. Na vida, basta uma faísca para que eles explodam. Silenciar sentimentos implode a alma. E, para discorrer sobre o assunto, Pedro Gabriel chega a se transformar num metamorfo de profissões.

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Universo, galáxias, planetas, estrelas, o Sol e a Lua. Em “À espera de uma colisão”, primeira parte do livro, Pedro assume o lugar de um ilustre astrônomo. Talvez o de um astronauta, também. E por que não o de um editor de astros?

“No céu poético, a galáxia é o poema; as estrelas são as palavras; os planetas, os versos; os asteroides, as sílabas; e o átomo é a letra.”

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Céu, pássaros, mares, oceanos e o corpo humano. Em “A força de um nó frágil”, capítulo subsequente, o poeta se mostra um talentoso geólogo, oceanógrafo e biólogo refletindo: já que o corpo humano é composto por mais de 70% de água, por que não mergulhar dentro de si mesmo?

“Para muitos, existem cinco oceanos em nosso planeta. A poesia discorda. Ela acredita que, se cada pessoa tem a capacidade de fazer transbordar seus sentidos, o mundo deveria ter, além dos seus grandes mares, mais 7 bilhões de pequenos oceanos.”

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Por fim, a própria Ilustre Poesia — Antônio — nos mostra “O destino das palavras”, personificando sentimentos das angústias anteriores à sua criação, quando era usado para limpar mãos engorduradas e logo após descartado — “ah, se soubessem quanto dói…” —, e à felicidade dos dias atuais, por ter conhecido alguém que mostrasse ao mundo sua capacidade de servir também como tela final para uma obra de arte, e não mais apenas um rascunho.

“Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Esperança. Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Saudade. Coragem. Amor. Distância. Na fragilidade da minha pele, qualquer delicadeza deixa marcas.”

E você, como se chama? Já parou para dar voz à sua Ilustre Poesia?

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Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

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