Monica de Bolle

Palavras para entender a complexidade…

26 / outubro / 2016

“Por que os livros de física são carregados de equações matemáticas, enquanto os de biologia são cheios de palavras?” Essa foi a pergunta instigante que encontrei certa vez em resenha do jornal britânico The Guardian sobre uma obra que muito influenciou minha visão sobre economia, crises e a política econômica relatadas em Como matar a borboleta-azul. O livro chama-se Ubiquity: Why Catastrophes Happen e foi escrito por Mark Buchanan, ele próprio físico e jornalista. As catástrofes abordadas por ele não se limitam aos fenômenos naturais, mas estendem-se à sociologia — o que move grandes protestos que derrubam regimes? —, à história — como entender a eclosão da Primeira Guerra Mundial a partir de um assassinato? — e, é claro, às crises econômicas.

A física clássica pode ser descrita por meio de equações porque seus princípios são simples e o comportamento de seus objetos de estudo — objetos inanimados, átomos, partículas, planetas e estrelas — é, de modo geral, previsível, mapeável por equações. Já a biologia funciona de outro modo, exibindo grau de complexidade bem mais elevado do que a física. Para explicá-la, modelos matemáticos não bastam — é preciso recorrer às palavras. A economia, apesar da resistência dos economistas, está mais para a biologia do que para a física. A matemática não basta, menos ainda os jargões. Por isso é preciso escolher as palavras com o mesmo cuidado que qualquer escritor o faz para narrar uma boa história, seja ela de que gênero for.

Os últimos anos foram demasiado complexos. Havia uma mudança muito grande em curso no quadro internacional que sobreveio da crise de 2008. Ao mesmo tempo, havia uma visão marcada pela interferência exagerada no funcionamento do delicado ecossistema econômico. Como matar a borboleta-azul, conforme tenho insistido em entrevistas e artigos, não é sobre a pessoa Dilma Rousseff, é sobre sua gestão econômica. Fosse Dilma ou Dilmo, fosse PT ou Partido XYZ, tivessem as escolhas sido as mesmas, o resultado não teria sido diferente: a morte do crescimento, o desaparecimento da rara e graciosa borboleta-azul.

Em vídeos que faremos sobre os principais erros das políticas da ex-presidente, discorrerei sobre cada ponto que marcou seu governo, tão repleto de idiossincrasias que só mesmo por meio das palavras é possível entender como o Brasil chegou à situação dramática em que está. Entre esses erros, falarei sobre a destruição da política monetária e, sobretudo, da política fiscal. O desmonte institucional promovido pelas políticas da ex-governante trouxe-nos à presente discussão sobre a controvertida Proposta de Emenda Constitucional que cria um limite para o aumento dos gastos públicos — a PEC dos Gastos tão falada nos jornais. O tema é complexo. Para compreendê-lo, nada melhor do que as palavras, em especial as mais simples. Parafraseando o eterno Guimarães Rosa, tão citado por Dilma, a simplicidade tem muita força, força enorme.

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