Fernando Scheller

Vida em comunidade

15 / setembro / 2016

a-comunidade-resenha

Cena do filme A Comunidade (Fonte)

Anarquistas, graças a Deus. O incrível título do romance de Zélia Gattai, que acerta em cheio nas contradições humanas, poderia também se aplicar ao filme A comunidade, a que assisti com prazer dias atrás. Seu diretor, Thomas Vinterberg, é um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma e responsável por outros filmes de que gosto bastante, como Festa de família e A caça.

O que mais me interessou na história, muito bem interpretada, foi a desconstrução do que seja moderno e descolado. Se a vida a dois já é cheia de desafios, o dia a dia em uma comuna parece quase impossível de se aguentar.

A trama de A comunidade pode ser resumida assim: é um Cenas de um casamento, de Bergman, transportado para uma casa compartilhada por um grupo. O casal de protagonistas – um professor universitário e uma jornalista – decide convidar amigos para morar em uma casa que ganharam de herança. A relação, porém, não resiste ao mais trivial dos conflitos: uma traição.

Talvez tenha gostado do filme porque ele me despertou um sentimento nostálgico. Visitei várias vezes a comuna Niederkaufungen, na Alemanha, mais de uma década atrás, para escrever sobre seu dia a dia. A comuna fica nas proximidades de Kassel, na região central do país, onde eu morava na época.

Agora, ao pensar nos meus passeios por aquela comunidade para lá de organizada – toda a renda dos membros era dividida de forma igualitária –, também me vem à mente o livro Entre amigos, do israelense Amoz Oz, sobre a vida num kibutz. Em todos os casos (o livro, o filme e minha visita à comuna de verdade), percebo que a rotina em uma comunidade é marcada por competições e hierarquias, o que, teoricamente, não deveria existir.

No caso da comunidade de Kassel, a vida financeira era compartilhada, mas a amorosa seguia o modelo tradicional. Lembro-me que crianças no livro de Amós Oz “pertenciam” à comunidade; em Niederkaufungen, os pais biológicos eram responsáveis pela educação dos filhos, recebendo ajuda externa quando necessário (ou seja: o sistema não é muito diferente do que acontece com todo mundo).

Ao visitar a comuna, conheci uma brasileira que morava lá (a seu pedido, ela não foi retratada na reportagem que escrevi para a Deutsche Welle). No entanto, fiquei com a nítida impressão de que ela estava pronta para voltar ao mundo real. Fora para aquele lugar atrás de um amor. Como os personagens de A comunidade e de Entre amigos, estava em busca, no fim das contas, do mais trivial dos sentimentos.

 

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