Clarice Freire

Por trás da poesia

6 / setembro / 2016

POESIA

A poesia, por mais escancarada e rasgada que seja, ainda é fachada.
Disse aí acima a minha própria declaração polêmica.
Como dizer algo tão rasteiro do sagrado que é o poético?
Mas não é raso, veja bem. A palavra que é pequena, coitada, diante de mim, de nós, pouco tem. Infelizmente é preciso reconhecer que até a minha estimada, amada, palavra se parece comigo: limitada.
Um verso é só o que está por fora, o que sobrou, o que foi escolhido para tradução. Tradução de uma língua não falada. Existe um universo por trás da poesia, sabia?
Por trás da poesia há carne e osso. Alma e gosto. Desalma e desgosto.
Por trás da poesia há palavras empoeiradas que foram jogadas debaixo do tapete. Há também umas conversas jogadas fora, outras de pé do ouvido.
Há um sonho inteiro, um amor dividido.
Por trás da poesia há um filme de terror visto por uma pessoa só, de olhos fechados. O filme tem participação especial de outro, fantasioso, e uns takes de comédia.

Por detrás de cinco estrofes existe um romance de mil páginas. Barroco, moderno, policial e eterno. Um tratado, umas cartas quilométricas molhadas em lágrimas e beijinhos de batom, como aquelas feitas pelos adolescentes, dedicadas aos seus ídolos — isso ainda existe?
Escondidos na poesia existem uma criatura e as milhões que moram nela. Sangue, lágrima e coisas não substanciosas. Coisas intangíveis. Umas visões delirantes como beleza no vento, grandeza numa folha caindo amarelada, admiração por um velho de bengala atravessando a rua e carregando suas próprias compras.

Por detrás da poesia existe uma alma analfabeta.
Com esforço, ela junta as sílabas das artérias, as vogais dos olhares e as frases soltas do mundo. Com dificuldade, insere as consoantes que aprendeu na vida acadêmica e lá vem um verso tímido. E outro e outro e outro. A poesia final é como uma janela para quem está passando pela rua poder dar uma espiadela dentro da alma analfabeta e se surpreender com o que a iletrada ensina.
O universo se esconde num verso, as palavras são frágeis como o ar.
E a poesia só mostra que todo esse meu caos infinito
pode rimar.

Tags , , , , .

Leia mais Clarice Freire

Desconfio das noites quentes

Desconfio das noites quentes

Álbuns antigos, a mala do tempo e uma escadaria

Álbuns antigos, a mala do tempo e uma escadaria

Eu vou usar óculos

Eu vou usar óculos

Diga-se de passagem

Diga-se de passagem

Comentários

Uma resposta para “Por trás da poesia

  1. Por detrás da poesia há corações apaixonados, há desencabados e esperançosos. Há alegria, nostalgia e saudades. Há essa humanidade desse texto lindo de Clarice Freire.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *