Fernando Scheller

O ano da inocência

8 / setembro / 2016

Lembro-me bem daquele dia. Os detalhes, odores, o vento, o vazio das ruas. Recém-aprovado no vestibular, ainda antes dos dezessete anos, sentia-me superior, como se pudesse esmagar o resto do mundo com meus pés. Embora muitos achassem que eu era motivo de piada — e, em retrospecto, não posso culpá-los por isso —, a verdade era que eu me achava invencível.

Uma autoestima nas alturas meio sem razão de ser. Magro e alto, de uma maneira desajeitada, era apenas mais um adolescente que não sabia o que fazer com as pernas, os braços e as orelhas que haviam crescido rápido demais. Estudaria, no ano seguinte, engenharia na universidade federal. Era o orgulho do meu pai, parecia tudo tão certo, predestinado, exato.

Naquele verão, do último dia das provas até aquela comemoração do resultado do vestibular, eu havia ficado no meu quarto ouvindo músicas em inglês para treinar o idioma. Nada de viagens, praia. Só ar condicionado ligado 24 horas por dia naquele quarto cheio de pôsteres imbecis. A aprovação no vestibular operara milagres: meu pai havia se esquecido da conta de luz e me deu um grande presente — deixou-me em paz.

Gastei todo o início de janeiro aprimorando meu inglês. Enquanto todo mundo ouvia John Lennon, The Doors ou Rolling Stones, eu exercitava o idioma com a canção preferida da minha professora quarentona naquele verão: Lost in love, do Air Supply. Ouvi tanto que passei a gostar. Parecia falar do que eu sentia por Baby: “You know you can’t fool me, I’ve been loving you too long…”

O telefone, que andara mudo lá em casa por dias, tocou com Baby gritando “passeeeeei” com todas as forças de seus pulmões (eu já sabia, tinha ouvido o nome dela no rádio). Ela me perguntou se eu iria à festa — claro que eu não havia sido convidado, mas fingi que mal podia esperar. Sim, precisava de uma carona. Baby havia ganhado um Fusca do pai. Não era nada especial, tinha um bege desbotado e um retrovisor só do lado do motorista.

À medida que acelerávamos pelas praias cada vez mais desertas naquele dia de verão nublado, mas não menos calorento, minha felicidade aumentava. Colaborava para o clima o gosto musical muito mais apurado de Baby. No toca-fitas, rodava um cassete mixado a partir dos melhores discos dos amigos. Um dos lados fora dedicado a David Bowie. Nunca tinha ouvido falar dele, para espanto de minha melhor amiga e também amor secreto.

— Em que planeta você vive? — perguntou Baby.

— Marte — respondi, com um sorriso.

— Que coincidência. Bowie também.

Antes de irmos à festa, paramos em um dos grandes descampados que a Barra tinha na época e Baby tirou da bolsa um presentinho que recebera um dia desses — um baseado. Ela confessou que era virgem nessa área — o que, óbvio, valia para mim também. Entre tossidas e cuspidinhas de erva, ela me beijou. Primeiro, um toque rápido nos lábios; depois, nossas línguas se entrelaçaram de forma atrapalhada, mas intensa, cada vez mais intensa. O elástico frouxo do meu short foi vencido por minha energia adolescente. Deixei-me levar, não podia parar. Quando dei por mim, havia sujado todo o painel do carro de Baby.

Ela olhou para mim espantada, pois nem havíamos nos tocado. Também nunca havia presenciado coisa semelhante. Em seguida, não conseguia parar de rir.

Corações em disparada, ainda mais porque, por algum motivo, a música estava ligada no último volume. Bowie cantava Changes. Enquanto nos olhávamos, nossas respirações se acalmavam. Soltei um riso nervoso. A vida começava ali.

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