Clóvis Bulcão

Manderley

12 / setembro / 2016

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Cena do filme Rebecca, a mulher inesquecível (Fonte)

Acabo de rever Rebecca, a mulher inesquecível. O filme, de 1940, dirigido por Alfred Hitchcock e produzido por David O. Selznick, é um suspense psicológico de primeira. Baseado no romance homônimo de Daphne du Maurier, best-seller de 1938, o longa-metragem conta a história de uma jovem capiau (seu nome não é citado no filme) que se casa com o milionário Maxim de Winter. O casal vai morar na residência do noivo, à beira-mar, o palácio de Manderley, na Inglaterra. Em sua nova casa, a Sra. de Winter passa a ser assombrada pela lembrança da falecida Rebecca, a primeira esposa de Maxim. Quem mais colabora para criar esse clima lúgubre é a governanta, Sra. Danvers.

Quando estreou no Brasil, no início da década de 1940, o filme causou certa controvérsia, já que sua trama é claramente baseada no romance A sucessora, da escritora carioca Carolina Nabuco (1890-1981). Tanto que antes do lançamento de Rebecca os produtores americanos tentaram arrancar de Carolina, sem sucesso, uma declaração de que a obra de Daphne não era um plágio da sua.

Em Os Guinle, contei que a história de A sucessora foi concebida tendo como inspiração a mansão de Carlos Guinle, na praia de Botafogo, no Rio de Janeiro. No romance de Carolina Nabuco, a propriedade foi assim descrita: “O palácio parecia ter saído, completo e mobiliado, do cérebro de um longínquo arquiteto decorador, sem colaboração alguma dos ocupantes, sem que os donos, receosos de críticas, se arriscassem a concorrer com algo de pessoal.”

Como pesquisei muito a vida do casal Carlos e Gilda Guinle, não consigo imaginar que o casarão da praia de Botafogo fosse um ambiente sem “algo de pessoal”. No entanto, vendo o filme dirigido por Hitchcock, parece que o cenógrafo seguiu mesmo ao pé da letra a ideia de que seu interior seria impessoal. A gigantesca Manderley não é nada aconchegante. Em uma de suas inúmeras salas funcionava o frio escritório do Sr. de Winter e uma ala inteira da propriedade nem sequer era utilizada.

Não tenho nenhuma dúvida de que Rebecca, a mulher inesquecível é plágio. Vendo o filme, que é uma versão da versão de outra versão, consigo reconhecer o DNA dos Guinle: a mansão de uma família de milionários que vive cercada por um batalhão de empregados fiéis. Mesmo sendo o meu livro uma biografia e Rebecca uma obra de ficção, existe algo em comum nas duas narrativas: em ambas o final é surpreendente.

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