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Como se tornar o inimigo nº1 de Putin

6 / setembro / 2016

Investidor americano Bill Browder conta como passou a ter seus aliados perseguidos pelo Estado russo

Por Marsílea Gombata*

billbrowder

Um americano nascido e criado em uma família judia e comunista se torna um megacapitalista. Na tentativa de resgatar raízes, passa a investir no Leste Europeu, impulsionado por uma cobiça cada vez maior no faminto mercado de ações do outro lado do mundo. Essa é a história de Bill Browder, economista de Chicago que anteviu na Rússia pós-desmantelamento da União Soviética um território a se investir, ainda no início dos anos 1990, quando poucos se arriscavam a desbravar o inimigo da Guerra Fria.

Foram anos colhendo frutos no país que se descobria um feroz capitalista. Em 2000, por exemplo, o seu Fundo Hermitage foi classificado como o de melhor desempenho em mercados emergentes do mundo, com uma rentabilidade de 1.500% para os investidores que participavam desde 1996. “A Rússia pós-União Soviética havia experimentado algumas das oportunidades de investimento mais espetaculares da história dos mercados financeiros; trabalhar lá tinha sido tão ousado — e às vezes perigoso — quanto lucrativo. Nunca entediante”, conta no início do livro.

Browder fala com propriedade sobre o que aprendeu e mostra que Vladimir Putin governa a Rússia como um sindicato criminoso. Desde que revelou um desvio na gigante nacional de gás e petróleo Gazprom, o autor passou a ser perseguido pelo presidente russo e seu aparato estatal em um enredo kafkaniano. No “processo”, funcionários do Estado russo apreenderam seus bens e roubaram 230 milhões de dólares. Seu advogado, Sergei Magnitsky, a quem homenageia como o homem mais corajoso que conheceu, estava muito doente e foi espancado até a morte na prisão. Aos 37 anos, Serguei era casado e tinha dois filhos. Não era de se estranhar que Browder temesse ser o próximo.

AlertaVermelho_300dpiAlerta vermelho: Como me tornei o inimigo número um de Putin se inicia com um cena simbólica: quando Browder viaja de Londres para Moscou em 2005, mas acaba deportado do país. O incômodo começa ainda no voo da ida, quando Browder lê um artigo da Forbes sobre o sino-americano Jude Shao, que, como ele, havia feito MBA em Stanford e se tornou um homem de negócios bem-sucedido em terras estrangeiras até entrar em rota de colisão com algumas autoridades corruptas da China e ser condenado a 16 anos de prisão por se negar a pagar 60 mil dólares de propina. “O artigo me causou arrepios. A China era dez vezes mais segura que a Rússia para se fazer negócios. Por alguns minutos, à medida que o avião descia dez mil pés rumo ao aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, fiquei me perguntando se eu não estava sendo burro (…) Ao terminar de ler o artigo sobre Shao, pensei: Talvez eu devesse sossegar um pouco”, lembra.

Sua intuição era um presságio. Em uma sequência interminável ditada pela burocracia e pela corrupção dos agentes do Estado russo, o autor descreve pânico e desespero em um salão com outros detidos de ex-repúblicas soviéticas como Geórgia e Azerbaijão, tentativas de diálogos sem respostas, o peso de um Estado com ultrapoderes sobre a vida dos cidadãos. Em meio a esse roteiro rocambolesco, o autor observa que na Rússia não há respeito pelo indivíduo e pessoas podem ser sacrificadas em nome do Estado. “Uma famosa expressão de Stálin resume bem a questão: ‘Sem homem, sem problema’. Foi nesse instante que Jude Shao, do artigo da Forbes, voltou a atormentar minha consciência. Será que eu deveria ter sido mais cuidadoso no passado?”, questiona Browder ao colocar em xeque sua própria habilidade em lidar com autoridades russas e enfrentar oligarcas.

Sem ganhar quaisquer explicações ou mesmo algo para comer ou beber — o que pode ser considerado um alívio diante de histórias de envenenamento, como o do tenente da FSB (antiga KGB) Alexander Litvinenko, que desertou para o Reino Unido perseguido por agentes secretos —, ele é, então, escoltado até o avião.

 

Avô comunista

O livro segue uma ordem cronológica que parte do perfil da família de Browder. Seu avô Earl Browder foi um comunista judeu do Kansas que, a convite dos soviéticos, viajou para Moscou em 1927. Lá se casou com a russa Raisa Berkman, com quem voltaria para os Estados Unidos para se tornar o principal nome do Partido Comunista americano.

Depois de cursar a Universidade de Chicago e a de Stanford, Browder encontrou um meio de se rebelar contra sua família. “Nasci em 1964, no seio dessa família estranha, acadêmica e de esquerda. Os principais assuntos na hora do jantar eram teoremas matemáticos e como empresários sem escrúpulos estavam levando o mundo para o abismo”, conta. “Foi então que, perto do fim do ensino médio, tive uma ideia. Eu vestiria terno e gravata e me tornaria um capitalista. Nada deixaria minha família mais indignada do que isso.”

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, ele decidiu cavar oportunidades no “novo mundo” como se apresentavam as ex-repúblicas soviéticas. Trabalhou para o Boston Consulting Group e depois para a Salomon Brothers, e então viu quão rentável seria participar do processo de privatização de empresas desses países, negociadas a valores ainda muito pequenos. Começou pela Polônia, que descreveu como um caminho “aberto e cheio de possibilidades”, e mais tarde seguiu para construir seu império na Rússia. “Não havia trabalho remunerado de consultoria e assessoramento a ser realizado no país. Embora a Rússia pudesse ter se libertado politicamente, ainda era soviética em todos os outros aspectos. Daquele momento em diante, a Rússia seria o meu território”, explica no livro.

Tratava-se de um mundo inóspito em que ambulâncias e veículos particulares se portavam como táxis e levavam passageiros por qualquer trocado, onde as virtudes da eficiência não eram facilmente aceitas e era estranho conseguir informações. Em uma das passagens mais ilustrativas do livro, ele narra uma cena na qual um menino maltrapilho oferece no semáforo DVDs piratas, jornais, isqueiros e CDs com vários tipos de dados, como lista de telefones celulares, declarações de imposto de renda, infrações de trânsito e de fundos de pensão. Browder acaba comprando um CD com o “Banco de Dados da Câmara de Registro de Empresas de Moscou”, que trazia detalhes de proprietários de empresas baseadas na capital russa.

Ele começa sua trajetória no setor pesqueiro russo, com uma consultoria para a Frota de Barcos Pesqueiros de Murmansk, operação de pesca 300 quilômetros acima da linha do Círculo Polar Ártico. Logo se enveredou para o ramo petroleiro, com a Sidanco, companhia de petróleo do oeste da Sibéria. Ganhou fama ao investir em ações russas em meio à tormenta da corrupção da economia pós-soviética. Impulsionou o Fundo Hermitage de 25 milhões de dólares em 1996 para 4 bilhões de dólares uma década mais tarde.

 

De ‘amigo’ a inimigo

O grande imbróglio de Browder com o Kremlin tem início quando ele tenta abocanhar uma fatia da Gazprom, é impedido e em seguida expõe desvios na empresa feitos por oficiais russos. O escândalo levou à demissão do diretor da empresa, influenciou o preço das ações e deflagrou a guerra de Putin contra Browder, coroada pela descoberta por Magnitsky de um roubo de 5,4 bilhões de rublos dos cofres públicos perpetrado por agentes dos órgãos de segurança.

O autor explica, no entanto, que por um tempo seus interesses e os de Putin coincidiram. Quando chegou ao poder em janeiro de 2000, Putin recebeu o título de presidente da Federação Russa, mas percebeu que o verdadeiro poder estava nas mãos de oligarcas, governadores regionais e grupos do crime organizado.

“Assim que assumiu, sua prioridade número um foi arrancar o poder dessas pessoas e colocá-lo em seu devido lugar, no Kremlin, ou, em termos mais precisos, nas próprias mãos. Em relação a mim e às minhas campanhas anticorrupção, Putin manobrava com base na máxima da política ‘o inimigo do seu inimigo é seu amigo’, de modo que usava meu trabalho como pretexto para desequilibrar seus inimigos oligarcas.” Assim foi até os interesses de Putin entrarem em conflito com os de Browder.

O investidor americano passou a ser investigado pelo Departamento K, unidade de contraespionagem econômica da FSB, e protagonizou um verdadeiro romance policial, que incluía burocratas como o coronel Artem Kuznetsov, do Ministério do Interior, e Olga Stepanova, chefe da Receita Federal. Além de seu nome povoar as manchetes — “Russos investigam situação tributária de Browder” (Financial Times) — o desenrolar da história lembra muito o espírito do filme Leviatã, de Andrey Zviáguintsev, que retrata como os tentáculos do Estado russo se apoderam da sanidade do indivíduo através de sucessivas violações.

Se na primeira parte do livro de 41 capítulos Browder conta com orgulho como ajudou a moldar o feroz capitalismo que hoje a Rússia ostenta, na segunda se coloca na mesma posição de outros inimigos do Estado russo, como Mikhail Khodorkovsky, Alexei Navalny e Boris Berezovsky, e narra a luta para tentar salvar Magnitsky.

É um Estado sem limites e relutante em reconhecer o indivíduo que o autor critica no livro. Em entrevista ao Huffington Post no ano passado, Browder alerta: Putin só sairá do governo expulso por uma revolução, golpe ou assassinato. “Ele não deixará a presidência vivo.”

>> Leia um trecho de Alerta vermelho

 

Marsílea Gombata é jornalista e doutoranda em ciência política na USP, onde estuda política social como instrumento de política externa na América Latina. Foi chefe de reportagem no jornal O Estado de S.Paulo e editora no Jornal do Brasil. Atualmente edita o Carta Educação, site de CartaCapital dirigido a educadores, estudantes e interessados no tema.

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