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Como convencer seus amigos a ler A Roda do Tempo

16 / setembro / 2016

*Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão

Se você é fã de A Roda do Tempo que nem a gente, já deve ter passado por esta situação: um amigo vem perguntar sobre a série, mas não é o tipo de pessoa para quem basta dizer que ela é muito boa. A pessoa precisa de mais incentivos para se interessar pela história. Então, na tentativa de explicar, você se embanana um pouco, e o resultado sai confuso e desinteressante, e seu amigo se afasta bem devagarinho, se perguntando como é que você consegue amar uma série sobre…

Um menino que é o escolhido para lutar contra o mal e umas mulheres que fazem magia, mas aí o menino descobre que também faz magia, só que homem não pode fazer magia… a não ser no caso dele, que veio para salvar o mundo… isso se ele não acabar matando todo mundo primeiro…mas também tem um personagem que é muito engraçado, e eles descobrem que… opa, não posso falar que é spoiler. Mas é muito legal, você devia ler!

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Bem, seus problemas acabaram! Nós já publicamos uma matéria com 14 curiosidades bem bacanas sobre os livros, mas agora vamos explicar por que todo mundo deveria ler essa série.

Senta que lá vem textão!

 

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É uma série inovadora de fantasia

As pessoas se embananam para explicar do que se trata a série porque A Roda do Tempo é uma história bem original, que vai além da boa e velha jornada do herói — sabe, aquela história que todo mundo já conhece (mas que continua sendo recontada de jeitos maravilhosos) sobre uma pessoa comum que recebe um chamado e, mesmo sem querer, acaba se tornando o salvador do mundo.

A Roda do Tempo representa um ciclo temporal de diversas Eras (a nossa inclusive), e a série conta justamente a história de uma delas. Há uma guerra do bem contra o mal, claro, mas é muito mais que isso. Na série, o girar da Roda do Tempo (e, portanto, o passar das Eras) é impelido pela magia da Fonte Verdadeira, que é composta de duas metades opostas que se complementam: a feminina (Saidar) e a masculina (Saidin).

Mas qual é a história, afinal?

Tudo começou quando um cara chamado Lews Therin (conhecido como o Dragão) liderou seus homens numa guerra contra as Forças das Sombras, encabeçadas pelos 13 seguidores mais fortes de uma entidade maligna conhecida como Tenebroso. Esse ser havia sido confinado em sua prisão pelo Criador no momento da criação, mas uma abertura na prisão estava permitindo que ele estendesse sua influência pelo mundo.

Lews conseguiu selar a prisão do Tenebroso, confinando os 13 seguidores junto de seu mestre. No entanto, o contra-ataque das forças das Trevas criou uma mácula na metade masculina (Saidin) da Fonte Verdadeira, que era o poder que os homens precisavam acessar para fazer magia. Isso levou todos os homens que acessavam Saidin à loucura, e eles destruíram cidades e mataram muita gente… O resultado do ataque de sujeitos tão poderosos acabou reformulando o mundo, criando montanhas onde existiam planícies e abrindo mares onde só havia deserto. Essa mácula ainda existe, e é por isso que os homens não podem fazer magia.

Milhares de anos depois, o selo da prisão começa a enfraquecer, e aqueles 13 seguidores que estavam presos com o Tenebroso escapam e começam maquinações para libertar seu mestre. Só que isso já estava profetizado (as Eras são cíclicas, elas volta e meia se repetem), e um dos grandes indícios dessa tragédia seria o renascimento de Lews Therin. A Roda faz o herói das forças do bem ressurgir, trazendo o Dragão Renascido (porque Lews Therin era o Dragão, sacou?) para salvar o mundo (e, infelizmente, destruir esse mundo enquanto tenta salvá-lo).

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Pronto, essa é a premissa. É bem fundamentada nos elementos que todo fã de fantasia adora: a ideia do bem contra o mal, de um vilão dado como derrotado renascer das cinzas para atazanar a vida alheia, de um escolhido… Isso é tudo parte da jornada do herói. Só que ao mesmo tempo em que conta a jornada do herói, a série narra muitas tramas paralelas e suas ramificações, criando uma teia de destinos e decisões que deixa todo mundo desesperado pra saber o que vai acontecer.

Não é porque tem um dragão que você vai ver lagartões gigantes cuspindo fogo

Estamos bem acostumados com a mitologia europeia, cheia de elfos e anões, mas nesse ponto Jordan inovou bastante. A magia é um dos pilares da trama, e até tem monstros que lembram os trolls e nazgûl de O Senhor dos Anéis, mas os dramas e os personagens são majoritariamente humanos. Há muitos povos diferentes, cada um querendo derrotar as forças das trevas do próprio jeito, e seres humanos com boas intenções podem se revelar tanto heróis quanto vilões.

A construção dos povos é muito variada, o que deixa a história multifacetada

Grande parte do livro sofre influências mitológicas de culturas e religiões com as quais não estamos muito acostumados. Dois dos exemplos mais bacanas — e mais diametralmente opostos — são os Aiel e os Thuata’an.

Segundo o autor, os Aiel foram inspirados em uma mistura das culturas zulu, apache, beduína e japonesa, e Jordan inclusive declarou que a ideia original era fazer um povo com uma mistura de cultura árabe, mas de descendência irlandesa. Os Aiel são divididos primeiro em núcleos familiares, depois em clãs, num paralelo à cultura irlandesa, mas a dinâmica social foi muito baseada nos beduínos. E embora os Aiel usem lanças em vez de espadas, consideram a luta (que chamam de “dança das lanças”) algo sagrado, regido por um complexo código de ética, o que remete à cultura samurai.

Ao contrário dos Aiel, que são um povo guerreiro, os Thuata’an (também chamados de Latoeiros) seguem o “Caminho da Folha”, que tem suas raízes no jainismo (uma antiga religião indiana). Eles se recusam a praticar qualquer ato de violência, não importa a situação (mesmo que seja para salvar a própria vida), e até tocar em armas é considerado tabu. Os Thuata’an viajam pelo mundo em trajes e carroções que lembram muito os ciganos, inclusive por sofrerem preconceito e terem a má fama de serem ladrões.

A mistura de culturas e religiões vai além dos povos

Apesar de à primeira vista a história apresentar o clássico dualismo cristão, com a ideia de um criador benevolente que tenta afastar o mal e da chegada de um fim apocalíptico, não é necessário se aprofundar nas culturas dos povos para encontrar mais e mais referências. Basta um olhar mais atento para reparar na mescla de religiões e filosofias orientais.

Quer um exemplo? Todos os livros começam com um parágrafo muito parecido, que sempre termina assim: “O vento não era o início. O girar da Roda do Tempo não tem inícios nem fins. Mas era um início.”

Soa até meio absurdo para a gente, porque no Ocidente estamos acostumados com a progressão linear do tempo, com eventos que se encaixam em passado, presente e futuro. Mas Jordan se inspirou no conceito de tempo cíclico dos hindus. Como é uma noção de um tempo que se desloca em círculos, infinitamente, o presente, assim como o futuro, já aconteceu em algum momento do passado. A serpente que morde a própria cauda, a principal imagem da série, é símbolo da eternidade.

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Como o tempo da série funciona diferente, não dá para a gente dizer que é uma fantasia medieval. Primeiro porque, apesar de ter reis, rainhas e castelos, logo percebemos que o clima é um pouco diferente (e o próprio Jordan já falou que desejava criar um mundo similar ao nosso, mas em que a pólvora nunca tivesse sido inventada), inclusive com menções ao “antigo costume de lutas com espadas”, que dão a entender que o tempo dos grandes cavaleiros já passou. Ao longo dos livros dá para notar uma série de referências, como o esqueleto ancestral de um animal mitológico de pescoço longo (uma girafa) e até as ruínas de um silo com um símbolo muito similar ao que usamos para indicar radiação (ou seria uma usina?). A ideia é que a nossa era já passou, mas que, um dia, ela vai voltar.

Se pararmos para pensar, essa noção de tempo cíclico é um pouco contrária à finitude de um evento apocalíptico, como nas histórias que já conhecemos. Será que é uma dica de que a luta do bem contra o mal nunca vai acabar? (A gente também não sabe, viu? Também estamos lendo a série!)

Tem tanto detalhe bacana que não caberia num texto só

Não é por acaso que a série faz tanto sucesso e é considerada um marco da fantasia. Lembra o conceito de opostos se complementando, que mencionamos lá atrás? Aquela história de que a força que move a Roda do Tempo vem da Fonte Verdadeira, que tem duas metades? Então, Saidin e Saidar formam o Poder Único, duas forças opostas que se complementam para formar uma única força que move o mundo. Dá uma olhada no símbolo. Lembra alguma coisa?

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Se você gosta de caçar referências, essa série é para você. E se não gosta, também é. Nós duas adoramos tentar descobrir de onde cada autor tira suas ideias e sempre passamos muito tempo teorizando sobre as histórias, mas nada disso é tão bom quanto enfiar a cara no livro e mergulhar na leitura. Já temos 5 volumes publicados em português, venha se juntar à gente nesse universo!

 

*Flora Pinheiro e Rayssa Galvão

Flora e Rayssa são melhores amigas desde o terceiro volume de Harry Potter. Elas se conheceram trocando teorias, e até hoje se divertem conversando e teorizando sobre suas séries favoritas. Elas nunca deixaram de amar os livros de fantasia.

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Comentários

10 Respostas para “Como convencer seus amigos a ler A Roda do Tempo

  1. Excelente série. O problema não é convencer os amigos a ler, basta ler 2 parágrafos e você já está envolvido na trama. Ruim será convencê-los a esperar até 2025 para terminar de ler a série de 14 livros, já que só sai 1 por ano. E pagar mais de 10% de um salário mínimo em 1 volume.

  2. É realmente uma série maravilhosa. Está disputando minha preferência com Tolkien …
    Irritante é a editora não cumprir a proposta inicial que seria de um volume por semestre e o preço absurdo dos livros — paguei 89,90 no 5 volume — mas quando a isso, paciência.

  3. Olá, Álvaro!

    Infelizmente o tamanho dos primeiros volumes da série impossibilitou a frequência proposta inicialmente. E, pelo mesmo motivo, os custos de produção de livros no tamanho dos livros impossibilitaram que mantivéssemos os preços mais baixos.

  4. Eu estou doida para ler a série…. mas vejo que estão demorando muito para publicar as continuações e estou com medo de que demorem demais ou cancelem! Não tem como garantir isso não =/ é isso o que faz com que muitos nem comecem.

  5. como recomendar a série sem garantias de continuidade, com lançamentos esparsos, quem começar a ler agora logo terminará o livro 5, ficando assim aborrecido pelo hiato de lançamentos e informações

  6. Alguma previsão de uma nova tiragem do primeiro livro?? Não acho disponível em loja alguma nem sebo… Preciso segurar esse tijolo com as minhas mãos e começar a ler, nunca te pedi nada! E outra pergunta: vou poder adquirir os livros na bienal do Rio desse ano??

  7. Que tara é essa por fazer outros lerem o que você gostou? Ah, deixa para lá o ser humano é uma raça bovina, precisa fazer parte de uma boiada ou fazer outros fazerem parte de sua boiada.

  8. Eu comecei a ler a série a roda do tempo por volta de março deste ano. Eu já tinha visto recomendações desta série em vários sites mas, foi depois que eu vi seu artigo que peguei “O Olho do Mundo” para ler. Eu no momento estou lendo o livro 7 “A Crown of swords”.
    Eu só queria agradecer: Desde o início do ano eu estava planejando ler alguma série em inglês e após descobrir que A Roda do Tempo tem 14 volumes finalizados resolvi procurar o livro 7 e me forçar a ler inglês. Nunca gostei de esperar se eu posso fazer algo com um pouco de esforço.

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