Fernando Scheller

Uma nova vida, depois do túnel

25 / agosto / 2016

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Otávio acordou naquele dia com o claro entendimento a respeito de algo que todo o resto do mundo já sabia. Nenhum astro de cinema interpretaria a história de sua vida, sua vida não daria um livro, ele jamais ouviria um estádio aplaudindo seu talento para a dança, a música ou os esportes. Queria tempo, mas oitenta anos não parecia ser bastante, cento e vinte também parecia pouco para entrar para a história. Almejava desesperadamente ser lembrado.

Tempo é relativo. Quanto é suficiente para dançar todas as danças que queremos, ouvir todas as músicas que ninguém sequer cantou, comemorar novos anos sem sentido? Parecia impotente, pequeno, como se as grandes expectativas que sempre tivera em torno de si mesmo fossem só ilusão. Carregava um orgulho que desarmava qualquer um que quisesse lhe dizer o contrário. E agora lutava para mantê-lo.

Toda a empáfia e confiança eram, na realidade, fachada para o medo. Ali, no escuro do seu quarto, o sol de meio-dia do Rio de Janeiro espalhando câncer de pele lá fora, percebeu que o tempo se esvaía e um assunto esquecido, dado por terminado, não lhe saía da cabeça. Jurara que, toda vez que pensasse no pai, imediatamente afastaria a imagem de Roberto da cabeça. Comeria um brigadeiro, escreveria um poema, assistiria a um desenho animado. Funcionou por cinco anos.

Mas hoje, não. Tinha coisas a resolver; tempo era um bem precioso e ele dispunha de muito para si. Não fora difícil descobrir o endereço novo de Roberto, sabia que era na Barra. Odiaria atravessar aquele túnel, ainda mais naquele calor. Com a informação do bairro, foi fácil enganar a secretária do advogado que lidava com o divórcio para obter a informação de que precisava. Fazendo-se passar pelo pai, exigiu que a moça recitasse o endereço completo, com CEP, alegando que os documentos estavam indo parar na casa de sua ex-mulher, em Laranjeiras.

Nesses cinco anos, a mãe de Otávio evitava falar de Roberto. Não fazia isso como as mulheres de Isabel Allende; não havia feito uma promessa tácita de jamais dizer o nome dele novamente. As tragédias que Selma enfrentava não se transformavam em um estilo de vida, uma convicção. Ao descer do ônibus, já na Barra, Otávio não teve dificuldade em encontrar a nova casa do pai. O edifício onde ele morava era alto, de fartas janelas, eram apartamentos espaçosos para famílias numerosas.

Não demorou muito para Roberto sair acompanhado de duas crianças, meninos de uns dez, onze anos. Foi tão fácil que Otávio riu. Não eram filhos biológicos dele, isso dava para ver, o pai não mantivera uma segunda família em segredo. Eram loiros, possivelmente filhos do primeiro casamento de sua nova esposa. Depois do túnel, Roberto fora transferido a uma nova dimensão. Calçadas largas, prédio com piscina, garotos saudáveis sempre pedindo um sorvete.

Os meninos circulavam de bicicleta, com a ordem de jamais irem além do posto de praia, onde podiam ser avistados por Roberto. Obedeciam, e ele gostava disso, apreciava ser ouvido. Pareciam ser a antítese de Otávio, que sempre vinha com uma pergunta, uma questão, uma urgência. Mas o pai não bateu em retirada ao ver o filho de vinte e poucos anos chegando. Não se moveu.

Otávio sentou-se na ponta oposta do banco de praia. Entre ele e Roberto, duas pessoas poderiam se sentar, um tanto apertadas, se assim quisessem. Roberto olhou o filho, estava ainda mais parecido com ele próprio. Tinha uma fragilidade ali que ele não conseguia explicar, como uma estrutura forte com rachaduras. Olhos pequeninos, negros. Talvez um dia ele também terá de usar remédio para calvície, pensou. Via-se como num espelho distorcido, um reflexo esquisito.

O filho entendeu que o pai seguira adiante na vida e percebeu que, embora tenha negado a existência de Roberto por tanto tempo, agora precisava dele por perto. Queria ouvir os conselhos que ignorara ou, pelo menos, ter a coragem de dizer alguma coisa. Sentia ciúme dos garotos saudáveis, obedientes e estudiosos que pedalavam felizes de um lado para o outro. Guardava um sentimento de posse que jamais associara ao pai.

Estava em desvantagem. Otávio, que sempre tinha algo a dizer, uma piada na ponta da língua, via-se em silêncio. Sobre aquele retrato perfeito da família carioca, possuía apenas uma vantagem. Apenas uma. Algo imutável, inquestionável, único, verdadeiro e também belo: os dois sentavam-se exatamente na mesma posição, com as mesmas mãos peludas, a mesma cabeça redonda.

E nada diziam. Roberto estava um tanto surpreso de Otávio ter desenvolvido a capacidade de apreciar o silêncio, de calar-se quando não se precisa falar nada. Por uns segundos, gostou da companhia para ouvir o barulho do mar e do trânsito. Antes de levantar-se, o filho finalmente chegou um pouco mais perto e teve a coragem de dar o primeiro passo.

— Eu sou seu filho.

Então levantou-se e foi até o ponto de ônibus, que não ficava muito distante. Olhou para ele, de longe. E entrou no primeiro coletivo que passou.

Roberto quis levantar-se, dizer algo. Mas nada fez.

 

>> Leia um trecho de O amor segundo Buenos Aires

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