Bastidores

CSI na Rússia: o caso real do tigre siberiano e a dieta que envolvia humanos

3 / agosto / 2016

Por Luana Freitas*

Siberian-tiger

O tempo está congelante, as suas botas fazem barulho ao afundar na neve. Mas você já está se aproximando da cabana do amigo com o qual combinou de sair para pescar no gelo. Apesar de estar tudo quieto na densa floresta que circunda a clareira onde fica a cabana, você percebe que há algo estranho no ar. É então que se depara com os sinais que vão se somando: sangue na neve, rastros de tigre, pedaços de roupa aqui e ali, uma pata de cachorro despontando da neve. É nesse momento que compreende que seu amigo está morto, e o que sobrou do corpo dele ficou escondido em algum lugar. Quando um rugido de tigre corta o ar, você, que não leva nenhuma arma consigo, corre para a cabana. São necessárias três tentativas para reunir coragem e conseguir sair dali para buscar ajuda.

Isso aconteceu de verdade, em 1997, numa região inóspita perto da fronteira da Rússia com a China, e o caso é contado em detalhes no livro O tigre, de John Vaillant. O mais impressionante, no entanto, não é a morte em si, é a mentalidade da fera. A análise da cena do incidente revela que o ataque foi “friamente planejado”: o tigre poderia ter simplesmente matado Markov — sua primeira vítima — enquanto este caminhava pela taiga, mas preferiu deixá-lo de lado e esperar por ele na cabana, aproveitando o tempo para destruir todo e qualquer objeto com o cheiro de Markov. E não parou por aí. Após praticamente devorar todo o corpo de Markov, o animal continuou seguindo seu cheiro pela taiga e adotou uma dieta baseada exclusivamente na carne humana.

Ou seja, esqueça os programas de vida selvagem da TV a cabo, este livro é um thriller, em que os investigadores precisam deter o serial killer enquanto tentam desvendar os motivos que o levaram a adotar um comportamento tão peculiar. Com uma estrutura que lembra muito um episódio de CSI, o autor vai apresentando todos os envolvidos no crime, tecendo suposições a partir de seus depoimentos e das provas coletadas. É a partir dessas falas que o leitor compreende que a questão não é tão simples quanto apenas caçar um tigre que devora humanos.

A começar pela equipe que vai atrás do animal: ela é formada por guardas-florestais do Inspection Tiger, cuja missão é… proteger os tigres. Ao longo das páginas se torna palpável a dificuldade deles em lidar com a decisão de ter de sacrificar o tigre — fora a consciência de que a espécie está ameaçada de extinção, há o fato de seus integrantes venerarem a figura do tigre em virtude dos ensinamentos do povo nativo da região e da própria ligação que tais guardas desenvolvem com a floresta. Matar um tigre vai contra tudo por que lutam e abre a possibilidade de eles e suas famílias serem amaldiçoados para todo o sempre.

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Entretanto, constatam que não há como recuperar o animal obcecado em matar humanos, ainda mais por ele estar rumando para um vilarejo. Aliás, a população da região é outro problema para o Inspection Tiger. Pouquíssimos colaboram com as investigações, já que a maioria está ligada de alguma forma com a caça ilegal — muitos já foram multados e/ou presos pelos guardas-florestais. Mas não pense que essas pessoas são más. Como é mostrado no livro, estamos falando de um típico vilarejo do pós-perestroika russo: criado artificialmente no meio do nada para atender a indústria do regime soviético, quando ele sucumbe e leva junto a única fonte de progresso, os moradores se veem abandonados à própria sorte. Não há padre para enterrar seus mortos, o parco fornecimento de energia é feito por um velho gerador a diesel que precisa ser vigiado constantemente, as taxas de suicídio e alcoolismo são consideráveis, há estradas que não levam a lugar algum… Não há emprego, cédulas de dinheiro simplesmente não circulam, tudo é feito na base do escambo. A situação é tão precária que os caçadores usam armas improvisadas com pólvora velha. Mesmo sabendo que há um tigre à solta, as pessoas se embrenham na floresta para catar pinhas para comer ou tentar o milagre de conseguir carne.

Há um trecho em que o líder do Inspection Tiger afirma ter pena dessas pessoas, pois sabe da fome que passam, das privações que vivenciam, do desespero a que se entregam. Também há muitos momentos de profundo respeito pelo tigre, em que se chega a torcer por ele (ok, admito que torci por ele o tempo todo).

A verdade é que nessa história não há bandidos nem mocinhos. Todos saem perdendo. Como história real que é, seus conflitos não são facilmente solucionáveis e refletem o enorme desequilíbrio da relação do homem com a natureza.

*Luana Freitas é editora assistente de ficção e não ficção estrangeiras. Adora programas de sobrevivência na selva e vida selvagem.

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