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Azul e Branco: O Topo do Mundo e a Fronteira

23 / agosto / 2016

Por Ciro Nolasco*

northpole

A fronteira. (fonte)

Quando eu saio de casa, sempre repito um mesmo ritual. Calço os tênis, passo os fones de ouvido por dentro da camisa, coloco-os nos ouvidos e ouço podcasts enquanto caminho. Vez ou outra, olho para o céu. Em algumas dessas vezes, acabo realmente observando.

Penso quais das estrelas além daquele manto azul ainda brilham, quais são meros fantasmas de um astro que não está mais lá; se existe vida, se ela é inteligente, se está nos evitando. Será que buracos negros são portais para outros universos? Essa curiosidade me fascina e me assusta. Depois de fazer uma quantidade incontável de questionamentos, percebo que errei uma rua em que devia entrar ou perdi o ponto de ônibus onde tinha que saltar.

Eu sigo com a minha vida – com a minha rotina. Mas existem aqueles que, movidos por essa inquietação, saltam para o desconhecido, para a fronteira – para compreendê-la. São os exploradores, a vanguarda da espécie humana.

A humanidade sempre vai conviver com alguma fronteira. Com o passar dos séculos e com nosso desenvolvimento, essa barreira se modifica. Toma novas formas, como a floresta, a noite, o mar, as montanhas e até mesmo outros povos. A princípio, é muito difícil para nós – indivíduos do século XXI – compreender a complexidade e magnitude da exploração de fronteiras passadas. Afinal, já temos esses locais dominados. Ninguém mais considera uma área de bosque ou o oceano pontos excepcionalmente desconhecidos. As lendas geradas por tais lugares, como bruxas, mulas sem cabeça e monstros do mar, já foram extintas. Por isso, voltar a examinar esses períodos de descobrimento com olhos contemporâneos pode ser desafiador. Tentemos fazer isso agora.

No fim do século XIX, a fronteira era o Círculo Polar Ártico, o território acima do paralelo 80 N, o enigmático cume do planeta. Hoje, com imagens de satélite e os efeitos do aquecimento global, essa área do globo carece de segredos como os do século XIX. Por volta de 1870, o local se tornou intrigante por conta da sua dificuldade de acesso e do ambiente exótico. Representava tudo que era desconhecido para a humanidade.

CAPA_NoReinoDoGelo_GO “Polo Norte [era] o topo do mundo. O ápice, o apogeu, o auge. Não só uma região magnética, mas também uma ideia magnética. Assomava como obsessão pública e enigma planetário — tão sedutor e desconhecido”. É como coloca a obra No Reino do Gelo, cuja ambientação tem sucesso em apresentar as condições, as motivações e os sentimentos dos membros de uma expedição ao Ártico. O livro acompanha George Washington De Long e sua busca por uma rota para o Polo Norte em 1879. Empreitada sem certezas – sequer de retorno.

Imagine você, no final do século XIX, na proa de um navio exploratório; sentindo o gelado vento marinho no rosto, olhando ao longe. Você não sabe o que há além e não tem como saber. Força o olhar para tentar identificar qualquer coisa que não seja gelo. O barco tem dificuldade de navegar por causa da grande quantidade de banquisas – água do mar congelada – e icebergs. O frio intenso causa queimaduras e é uma luta se manter aquecido. Além do som do bater da mandíbula – por conta da temperatura baixa – e do quebrar do gelo com a passagem do barco pela água, o silêncio impera. Acompanhando esse sossego, o horizonte se preenche somente de branco e azul, de água e gelo, por quilômetros e quilômetros, milhas e mais milhas náuticas. Sua imaginação passa a preencher as lacunas que você – o explorador – criou.

Existiram muitas teorias sobre o que haveria além da barreira de gelo que impedia as caravanas exploratórias de chegarem ao Ártico. Por algum tempo, por exemplo, imaginava-se que o Polo Norte não sofria de fato com temperaturas terrivelmente negativas, mas sim que um oceano com clima e mar amenos, como o Caribe ou o Mediterrâneo, existia no topo do globo – como se fosse assim por conta do contato constante com a luz solar. Segundo essa teoria, o gelo que os navios encontravam fazia parte de um cinturão que cercaria o mar calmo e quente. A ideia de esse ambiente ser real tinha tanta força nos círculos sensíveis ao assunto como a de que haveria uma Sociedade Ártica vivendo no centro do polo. As duas teorias, por algum tempo, nortearam o imaginário e a discussão sobre o extremo norte do planeta e só foram deixadas de lado com o aumento na frequência de expedições ao território e com as conquistas por elas alcançadas.

A partir de meados do século XIX, expedições para o Ártico se tornaram frequentes. Apesar da mística sobre o lugar ter diminuído conforme o conhecimento aumentava, a contemplação do desconhecido se manteve. O explorador simplesmente não conseguia deixar a curiosidade de lado. A motivação política e econômica que existia na exploração – de achar uma rota marítima para o comércio que cortasse o polo – deu lugar à pura vontade da conquista. Exploradores, cientistas, filantropos e entusiastas queriam saber o que havia no topo do globo. Muitos grupos falharam ao tentar se aventurar pelo território. Algumas expedições resultaram em desistência, morte de exploradores e até mesmo no sumiço da expedição, como foi o caso da de John Franklin (1845), que teve um dos navios encontrado somente em 2014. Entre elas, a caravana de De Long e o USS Jeannette também se depararam com dificuldades no seu caminho.

O cenário de conquista é favorável para uma história de superação individual. A exploração do Ártico está cheia de contos de sobrevivência. A expedição Polaris (1871) teve seu capitão morto por envenenamento. Quando o navio ficou preso no gelo, a tripulação sem líder ficou à deriva numa banquisa por seis meses antes de ser resgatada. Tripulações inteiras desapareceram e só sabemos suas histórias por conta de um punhado de sobreviventes – quando houve algum. Os que são lembrados são os nomes dos líderes de expedição, aqueles que buscaram compreender os mistérios da fronteira.

Existe uma contenda entre dois homens sobre quem foi o primeiro a chegar ao Polo Norte. Frederick Cook (1908) e Robert Peary (1909) dizem ter chegado ao local em momentos diferentes. Ambos teriam ido pela via marítima até onde o gelo permitiu e continuaram ou caminhando ou por meio de trenós puxados por cães. Somente a palavra desses homens prova a sua chegada ao polo. Os trajetos que tomaram, o tempo e como foram levantam muitas dúvidas sobre a veracidade de suas histórias. Apesar disso, Cook e Peary puderam tirar proveito desse status de “Primeiro no Polo” enquanto viveram, porque não havia quem fosse até lá para ver. Essas histórias apenas alimentavam a aura de mistério sobre o tema e criavam novas dúvidas.

Com o caminhar do século XX e seus acontecimentos – como as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria –, a exploração do território ficou para segundo plano, até o momento em que outros fatores, como o aquecimento global, a exploração espacial e imagens de satélites, transformaram as discussões sobre a área mais setentrional do planeta. Mais uma vez, a expansão do conhecimento permitiu à humanidade alçar novos voos, deixando o Polo Norte e seus segredos para trás.

O Ártico do século XIX e início do XX não é o mesmo de um século depois. Aquele colosso de gelo diminuiu em tamanho e mistério para dar lugar a outra fronteira: o espaço. Não por isso o Norte deixou de ser intrigante “com sua solitária grandiosidade, com suas miragens e seus estranhos efeitos de luz, seus parasselênios e halos vermelho-sangue, suas densas atmosferas de nevoeiro que alteravam e ampliavam os sons”. O Polo Norte continua implacável e fascinante àqueles que ousarem desvendar suas belezas.

 

Ciro Nolasco é formado pela UFRJ em História, mas ensina inglês. Tem uma grande coleção de contos de fantasia fantástica e ficção científica incompletos. Aprecia contemplar a imensidão das coisas.

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