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Alex Ferguson e o padrão da vitória

2 / agosto / 2016

Por Manoel Magalhães*

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O antes e depois da geração que ficou conhecida como Classe de 92. Na primeira foto: Eric Harrison, responsável pelas categorias de base do United em 1992, Giggs, Butt, Beckham, Gary Neville, Phill Neville, Scholes e Cook. Na segunda: Ferguson, Giggs, Butt, Beckham, Gary Neville, Phill Neville e Scholes (Foto: divulgação / Site Oficial do Manchester United)

 

Técnicos de futebol não costumam durar muito. O tempo médio do trabalho de um profissional no Brasil é de cinco meses e a cada rodada do Campeonato Brasileiro pelo menos um treinador saca seu FGTS. Na Inglaterra, país que abriga o mais lucrativo campeonato de futebol do mundo, a Premier League, essa média é um pouco maior: 11 meses de trabalho. Em um emprego de alto risco e rotatividade garantida, Sir Alex Ferguson é a mosca branca. Permaneceu à frente do Manchester United por 26 anos e transformou a história do clube, conquistando impressionantes 38 títulos (é o maior vencedor do futebol inglês) e ajudando a talhar uma das mais valiosas marcas do esporte mundial. Independentemente das particularidades do universo do futebol, a façanha é digna de estudo para qualquer um que queira aprender sobre liderança e gestão de projetos vitoriosos.

Liderança, livro nascido da parceria entre Ferguson e Michael Moritz (presidente da Sequoia Capitol, empresa de investimentos que ajudou a moldar companhias como Apple, Google, PayPal, YouTube, WhatsApp e Airbnb), é um prato cheio para os que buscam um guia que ajude na construção de um padrão de sucesso para o trabalho. Ferguson e Moritz esmiúçam detalhes de planejamento e gestão que levaram o Manchester United a marcas históricas de produtividade. E este é o ponto essencial: com a preparação adequada, a vitória pode até não chegar sempre, mas passa perto tantas e tantas vezes que acaba por se tornar inevitável.

O argumento é comprovado pelos números: desde que a Premiere League foi criada, em 1992, o time de Ferguson sempre esteve entre os três primeiros colocados, conquistando 13 títulos em 21 edições do torneio. Na temporada 2013-2014, a primeira sem o técnico, o Manchester United caiu para a inédita sétima colocação, e até hoje não se recuperou. Mesmo com grandes investimentos nas contratações de astros como Ángel Di María (€ 75 milhões) e Bastian Schweinsteiger (€ 30 milhões), o clube não conseguiu ainda resultados sequer próximos aos do trabalho de Ferguson.

Sempre olhei o caso do Manchester United com admiração. Nos últimos trinta anos o clube prezou pela identificação genuína com seus atletas (Roy Keane e Rio Ferdinand permaneceram no elenco por mais de uma década, Wayne Rooney já está há mais de 12 anos no time) e formou talvez a geração de base mais prodigiosa do futebol, a Classe de 92. Em uma só tacada, Sir Alex Ferguson tirou dos campos de treinamentos para jovens atletas como David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes e Gary Neville — todos com lugar cativo entre os maiores ídolos do clube.

Ferguson mostra que renovar é a essência para inovar. Um dos pontos que brilham em Liderança é justamente a importância de uma equipe apostar em um sistema de captação de jovens talentos. Em sua primeira década no comando do Manchester United, o técnico trabalhou exaustivamente para montar um grande esquema envolvendo olheiros (que mapearam boa parte do Reino Unido) e treinadores especializados para as categorias de base. Sobre isso, Ferguson resume no livro: “Todo impacto do nosso programa de categorias de base ficou claro no início da temporada de 1995-1996, quando seis dos treze jogadores que usei no jogo contra o Aston Villa — que perdemos — eram oriundos do sistema. Alan Hansen, comentarista de televisão, avaliou o resultado e concluiu, anunciando ao público britânico naquela noite: ‘Não se pode vencer nada com garotos.’ Sempre pensei o contrário — você nunca poderá vencer nada sem garotos.”

999-sir-alex-ferguson-presenting-cristiano-ronaldo-manchester-united-2003Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo durante a apresentação do atleta ao time em 2003 (Foto: Reuters)

A linha de pensamento do técnico converge com a adotada nas maiores empresas de tecnologia, como Apple, Facebook, Google, Amazon e LinkedIn, formadas por funcionários jovens, com idade média entre 28 e 31 anos. Da dedicação de Ferguson em lapidar joias, veio o resultado. Em 1999, o clube conquistou todos os principais títulos da temporada, na Inglaterra e na Europa, feito realizado antes apenas por três clubes na história. Era o fruto do trabalho dos jovens selecionados em 1992 e promovidos ao elenco principal na temporada 1995-1996.

A preocupação com a análise de dados, outro pilar do padrão de liderança de Sir Alex Ferguson, pode ser identificada especialmente na vitória que marcou o auge dessa geração de 92, a conquista da Liga dos Campeões da UEFA (UEFA Champions League) de 1999 sobre o Bayern de Munique. Ferguson não deixa dúvidas no livro: “Havíamos previsto que Alexander Zickler e Mario Basler seriam substituídos. Não havia bola de cristal; simplesmente assistimos a fitas dos jogos do Bayern e sabíamos que eles tirariam esses jogadores. Zickler foi substituído aos 26 minutos do segundo tempo, enquanto Basler saiu aos 42. Essas substituições privaram o Bayern de grande parte de sua capacidade de penetrar nossas defesas, e assim eles passaram a ser uma ameaça menor e nós pudemos avançar mais em busca do gol.”

Com base nessas informações, o técnico fez história. Colocou os atacantes Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjær, que marcaram os dois gols da virada do Manchester United nos três minutos de acréscimo da partida. Até o último minuto regulamentar do segundo tempo o time estava perdendo o jogo.


O terceiro pilar no padrão de Ferguson é o trabalho cotidiano para a melhoria dos processos. Seja por meio de seus auxiliares técnicos, escolhidos a dedo pelo esmero na evolução do rendimento dos atletas, ou cuidando pessoalmente de detalhes como a relação dos jogadores com a imprensa, o que os atletas vestem, a qualidade dos gramados ou qualquer tipo de minúcia relacionada à construção da marca da instituição ou ao rendimento esportivo. A dedicação exacerbada aos mínimos detalhes era também a marca de outro grande líder: Steve Jobs. O fundador da Apple ficou conhecido por exigir excelência em cada pixel.

Nesse aspecto, um caso em especial chama a atenção: Cristiano Ronaldo. O português chegou às mãos de Ferguson aos 18 anos como uma promessa de craque, mas com certa dificuldade em marcar gols. Em 2003-2004, sua primeira temporada no Manchester United, Cristiano marcou apenas seis. Com o esforço do técnico em desenvolver suas qualidades e após treinos sistemáticos, em 2005-2006 a marca dele saltou para 12 gols, depois para 23 em 2006-2007, chegando aos 42 gols marcados na temporada 2007-2008, que também coroou seu trabalho no Manchester United com o título da Liga dos Campeões da UEFA, conquistado sobre o rival Chelsea.

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Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo em 2009 (Foto: divulgação / Site Oficial do Manchester United)

Cristiano Ronaldo credita sua evolução atlética, esportiva e até de caráter ao treinador. Recentemente, o jogador foi muito exaltado por sua liderança no inédito título de Portugal na Eurocopa 2016 e recebeu um abraço de Ferguson ao final da partida. O nível de exigência estabelecido pelo padrão de um líder vitorioso é fundamental para a formação de novos líderes.

“Aos poucos, fui entendendo que o meu trabalho era diferente. Era estabelecer padrões elevados. Era ajudar todos os outros a entenderem que podiam alcançar coisas que não se consideravam capazes de fazer. Era traçar um caminho que ainda não havia sido seguido. Era fazer todo mundo entender que o impossível era possível. Essa é a diferença entre liderança e administração.” As palavras do próprio Sir Alex Ferguson resumem o valor de Liderança, livro que flui muito fácil entre histórias envolvendo craques como Éric Cantona e Ryan Giggs, mas também busca aprofundar lições fundamentais sobre gestão de equipes de trabalho, traço que pode ser aproveitado no cotidiano de qualquer tipo de projeto, de iniciativas artísticas a empresas de pequeno ou grande porte.

Ouvir alguém que construiu tão sólida carreira, baseada não só em resultados, mas em relações humanas perenes, é uma oportunidade de repensar a forma como nos colocamos nos projetos aos quais escolhemos dedicar nosso precioso tempo de vida. As amizades que o treinador construiu e a enorme influência positiva que teve na vida de dezenas de seus comandados talvez expliquem a longevidade em um emprego que raramente passa de uma temporada. O trabalho de Ferguson marcou uma era do futebol inglês, seus conselhos foram fundamentais para a carreira de jogadores de diversas nacionalidades e suas considerações sobre liderança reunidas no livro são preciosas. Não é todo líder que sai pela porta da frente. Ferguson deixou seu posto de trabalho ovacionado por 75 mil pessoas que lhe agradeceram por marcas históricas de orgulho e superação. Vale ouvi-lo.

 >> Leia um trecho de Liderança
Manoel Magalhães é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro, mas sonha com a Premier League todo sábado pela manhã.

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