Clarice Freire

Aeropoemas e as Bienais de São Paulo

24 / agosto / 2016

DCIM100GOPRO

Gostaria de viajar na janela 

Acabo de lançar meu segundo livro, Pó de lua nas noites em claro. Um movimento de mergulho na madrugada pelo imaginário, pelos olhos fechados que se abrem. O filho nasceu e agora quer ganhar o mundo, o que fazer? Filhos são feitos para voar, e isto para mim é um brilhante sinal: começou aquele tempo delicioso de encontrar meus leitores pelo país.

Primeira parada: Bienal de São Paulo, dia 28.

Ainda lembro a primeira vez que estive numa Bienal. Era a primeira vez, inclusive, que eu saía da minha cidade para lançar meu primeiro livro. Há dois anos. Primeiramente, muitos primeiros para uma frase só. Dá para imaginar meus primeiros pânicos e os devaneios pioneiros em exageros delirantes.

Quando criança, adorava meu tempo só e em silêncio. Nunca fui rainha do parque, líder do tanque de areia, dona da bola. Muito pelo contrário. Era aquela aluada que esquecia as coisas por aí. Vivia quieta. Ocupava-me muito facilmente da imaginação, dos lugares que não são daqui, como no fundo também nunca fui.

Tudo isso é para dizer que meus devaneios pioneiros em exageros delirantes foram maravilhosos em relação à Bienal. Tinha anos de experiência no ramo do devaneamento profissional.

Terminei vivendo uma experiência que driblou belamente uma imaginação muito bem treinada. Um breve relato do que foi aquele dia abridor de tantas portas do meu coração está aqui.

Agora, dois anos depois, volto a esse espaço caloroso com a madrugada no bolso. Lá vou eu, mais velha, mais viajada (pode colocar os múltiplos sentidos da palavra) e mais ansiosa por ver aqueles seres humanos que marcaram tão profundamente o meu primeiramente. E os novos também, claro. Não seria nada sem eles.

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Melhor não dar muitas asas à minha imaginação sobre como vai ser. Às vezes é mais prudente desistir e se entregar ao imprevisível. As coisas imprevisíveis vêm sempre acompanhadas do amigo “gelo no miocárdio” e ao menos se pode dizer que não é possível morrer de tédio com eles.

Obviamente, as nuvens sempre foram uma espécie de segunda casa para uma “cabeça de vento”. A verdade é que, a partir da Bienal de São Paulo de dois anos atrás, como eu disse, tive a oportunidade incrível de conhecer muitos dos meus leitores pessoalmente, espalhados pelo país. Muitas viagens querem dizer muitos aviões. Muitos aviões transportam muitas horas sozinha, sem internet para atrapalhar e um só pedido: por favor, gostaria de viajar na janela. Amo colar a testa no vidro e ver, lá de cima, como o mundo é minúsculo. Quanto minhas preocupações, vistas de longe, parecem aqueles carros de brinquedo que passam numa avenida de maquete. Praticamente insignificantes. Tomar distância é um santo remédio para os olhos e para o juízo inicial e final das nossas vidinhas.

De cidade a cidade, por leitores-amores a cada parada, eu estava pelos ares — um habitat natural? — e, diante de mim, um papel em branco se desenhou em forma de nuvem atrás de vidro. Não resisti.

Vou até aproveitar a oportunidade para responder a indagações que recebo pelas redes sociais: meu nível de vandalismo é baixíssimo. Costumo escrever muito nas janelas da minha casa com canetas específicas. É muito fácil apagar; tudo é retirado num piscar de olhos, podem ficar calmos. Escrevo e apago na mesma hora. Depois da foto, claro. Tudo limpinho.

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Não que eu não olhe de lado para observar se uma aeromoça está vindo para ver se estou destruindo o avião ou escrevendo alguma mensagem macabra de despedida. Ok, olho de lado.

Ninguém olhando, não há quem me impeça: passei a escrever nas nuvens brancas, nos mares azuis, nos infinitos coloridos dos fins de tarde. É um lugar de soltar o peso: o mundo é inofensivo lá embaixo. De cima, tudo é calma, tudo é alma, silêncio ou a música que escolho. Como não aproveitar para ouvir as vozes abafadas pelo barulho do chão? O chão é barulhento. As vozes de dentro adoram nuvens. E eu também. Assim nasceram meus Aeropoemas escritos no céu.

Sem papel. Sem escarcéu. Sem nada. Só uma caneta, umas horas desocupadas e o infinito de estrada.

Pela frente, as nuvens — tão alvas — reluzem de dia.

Os mares, tão límpidos, azulam em calmaria.

Ali, por trás do vidro, a imensidão,

veja só:

é poesia.

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Comentários

Uma resposta para “Aeropoemas e as Bienais de São Paulo

  1. felicidades clarice,quanto mais feliz voce estiver nos tambem estaremos.

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