Fernando Scheller

Tudo se resume a você

21 / julho / 2016

Posso imaginar minha mãe dando desculpas esfarrapadas — “você sabe como mulher é, demora tanto para se arrumar…” — enquanto estou aqui, trancada no quarto, sozinha. É o único lugar em que me permito viver a verdade. Sei o que quero, tenho plena consciência da verdade: tudo se resume a você.

Se você aparecesse agora, corresse para impedir o noivado, como naqueles romances da coleção Sabrina que minha mãe costumava ler, sairia correndo com você, a pé, pelas ruas do Rio de Janeiro. Encontraríamos um quarto de hotel barato e viveríamos à base de pão com manteiga e café com leite o resto da vida, se fosse preciso.

Sempre busquei um salvador, e continuo a precisar de um agora. Inácio, você vem? Foi o Olavo quem pagou o condomínio deste mês, e também os atrasados, para que não perdêssemos o apartamento. Pintamos as paredes, recapeamos as poltronas, consertamos o encanamento. Não estou espantada que mamãe o considere o genro ideal.

A esperança da família, desde os meus dezesseis anos, é meu casamento. Os amigos ricos e as conexões dos tempos em que vovô tinha negócios com metais seriam o passaporte para a busca de um marido. O bom colégio, o aparelho nos dentes e as aulas de balé visavam a um só objetivo: recuperar a fortuna da família.

Mamãe não tinha conseguido um marido rico para si, fora enganada, mas ao menos tinha um bom apartamento para manter as aparências. Em seu discurso, papai sempre estava em uma viagem de negócios, em busca de um grande investimento. Na realidade, era fácil encontrá-lo: de shorts e camisa social aberta no peito, lia o jornal, fumava e jogava dominó numa praça do bairro Peixoto. Dia sim, dia também.

Será que, como nos filmes, Inácio intuirá, tal qual um telepata, que preciso dele exatamente neste minuto? E passará sem ser percebido pelo porteiro, correrá pelas escadas e arrombará portas para me buscar? Quero ficar aqui imóvel, como uma donzela encantada,  uma flor a ser colhida por um cavalheiro.

A outra opção seria assumir que sou adulta e marchar até a sala, dizer a Olavo que está tudo acabado, que nunca gostei dele, que toda vez que ele me beija eu tenho vontade de vomitar. E que ele seria mais do que adequado para outra moça, pois tem boas intenções, embora me irrite profundamente.

Não, isso não daria certo. Eu já estou com o vestido rosa-bebê que minha mãe passou com todo o cuidado para o jantar. Pus um brilho labial e um pó no rosto, sem exageros na maquiagem, para aceitar o anel de noivado que ele trará no bolso. Aos vinte e dois anos, meu destino está selado. Ponto-final.

A opção é a janela. Não penso em suicídio, mas no cano de água da chuva. São só dois andares. Aos doze anos, fugi de casa para ir à praia e voltei com queimaduras de segundo grau. Minha mãe me trancava em casa no verão para preservar minha pele.

Sinto-me tão determinada que não mudo de roupa nem calço os sapatos. Saio pela janela, ando pelo parapeito. O cano, mesmo meio enferrujado, ainda existe. Consigo colocar meus braços ao redor dele, porém não tenho a mesma força física de antes. Deslizo aos poucos e, não muito longe do chão, solto e caio sentada. Meu corpo dói, mas continuo inteira.

Levanto-me, sacudo a sujeira do vestido, ajeito o cabelo. Percebo que o tafetá reflete as luzes da rua. Sem dinheiro e sem sapatos, só resta uma saída: apesar de não saber aonde ir, preciso andar, seguir adiante. O fato de as pessoas olharem para mim como se eu fosse louca me dá certa satisfação.

Os minutos passam e eu lembro que minha mãe me disse hoje: “Baby, finalmente hoje você se tornará adulta.” De uma forma muito estranha, ela tem razão. Imagino-a batendo na porta, esperando uma resposta do quarto vazio. Rio sozinha. Paro e, ereta, estico-me o quanto posso, fazendo pose de bailarina.

Um, dois, três segundos. Uma calma inexplicável toma conta do meu corpo. Recomeço a andar e, feliz, dobro a esquina.

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