Clóvis Bulcão

Leão alado

4 / julho / 2016

Um ano após o lançamento de Os Guinle, ainda me surpreendo com as imbricações entre eles e a cidade do Rio de Janeiro. De junho de 2015 para cá, foram muitos os temas que serviram de motivação para esta coluna: arquitetura, teatro, culinária, carnaval, política, educação — todos envolvendo o clã. Quando o repertório parece estar chegado ao fim, algum fato novo do cotidiano carioca acaba servindo de mote.

Há pouco tempo, a imprensa noticiou que vandalizaram um dos dois leões alados de bronze que recepcionam os visitantes na entrada do parque Guinle, onde fica o palácio Laranjeiras, antiga moradia de Eduardo Guinle. A obra tem pouco valor artístico. Não é citada nem na dissertação de mestrado de Roberto Cattan sobre o legado arquitetônico dos Guinle nem no livro feito pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1982, sobre o restauro do palácio. E sequer mereceu foto nessas obras.

O charme maior da entrada do parque, hoje residência oficial do governador, é um monumental portão de ferro. Como as outras ferragens do Laranjeiras,  é de fabricação francesa e foi projetado por Schwartz Meuerer. Na verdade, o adorno mais relevante do majestoso pórtico — as dourações de seus ornatos — já se perdeu.

Infelizmente, existe no Rio uma triste rotina de destruição do patrimônio público. Os óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, na avenida Atlântica, já foram destruídos várias vezes. Recentemente, quebraram o sambista Noel Rosa em sua conversa de botequim, em Vila Isabel. Também já foram vítimas os compositores Carlos Gomes, Tom Jobim e Renato Russo e o apresentador de TV Chacrinha. Segundo a revista Veja, entre 2012 e 2015 foram gastos, pela prefeitura, 4 milhões de reais na recuperação de estátuas.

O caso do leão alado teria sido apenas mais um ato de vandalismo urbano entre tantos. Contudo, apesar de não gozar de fama ou prestígio artístico, remete à família Guinle, ou seja, a uma das marcas mais simbólicas do Rio.

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